Análise: Uma guerra é a dos EUA contra o Irã; a outra é a de Israel

Forças israelenses conduzem operação séria e sólida sobre o inimigo Hezbollah no Líbano, enquanto Washington visa asfixiar a China com o petróleo - como buscou na Venezuela

Alberto Pfeifer, especial para a CNN Brasil*
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A guerra não é um processo limpo, nem um sistema transparente. A guerra não é a luz: é sobre escuridão, sombras, trevas e neblina. É o "fog of war" tanto na informação, quanto nos objetivos.

É difícil saber exatamente quem quer o que em uma guerra quando ela começa. Há objetivos declarados, mas eles se transformam na dinâmica do próprio enfrentamento. Esse é o caso da Guerra do Irã.

A Guerra do Irã é um conflito continuado que envolve dois contendores: tem a guerra dos Estados Unidos contra o Irã, e a guerra de Israel contra o Irã.

Nesta etapa do conflito - assim como fora em junho de 2025, quando houve um ataque de 12 dias às instalações nucleares do Irã -, Estados Unidos e Israel se coordenaram para atacar.

Mas Israel não ataca só o Irã: Israel também está numa campanha muito séria, sólida, e concentrada especialmente no sul do Líbano mas também em todo o país - atacou até cidades ao norte de Beirute.

O inimigo de Israel é o Hezbollah, que é financiado e patrocinado pelo regime teocrático iraniano.

Já os Estados Unidos, lutam contra o regime teocrático do Irã.

A informação que chega para nós é rarefeita, incompleta e fragmentada, pois há muita contrainformação, contrainteligência, dados e notícias cevadas e semeadas para confundir o outro lado (essa é a lógica da guerra).

Porém, o que se sabe é que, pelas evidências, o estoque de mísseis do Irã está se degradando.

A capacidade de reposição desses mísseis por meio da sua fabricação também está se degradando, e as equipes capazes de operá-los também estão "terminando".

Ora: o Irã sem os mísseis é um Irã capenga, que não tem capacidade ofensiva. E toda a campanha iraniana até agora é ofensiva, para dizer: "eu posso atacar".

O Irã no seu próprio território ainda não foi testado. Aliás, no que foi testado, perdeu cabalmente: tanto é que toda a sua alta liderança foi dilacerada e decapitada.

Essa guerra vai continuar até que, do lado dos Estados Unidos, se estabeleça os controles logístico e estratégico sobre o petróleo - a vertente energética do Irã - e, com isso, se asfixie a China - e aí, junta-se o Irã com a Venezuela.

Já para Israel, é recuperar a carga de urânio enriquecido e eliminar a ameaça existencial dada pelo Irã e pelo seu arco de aliados: Hezbollah, Hamas, os Houthis do Iêmen - que entraram na guerra recentemente.

Essa é a chave para se entender a dinâmica de uma guerra que vai causar (já causou) alteração nos preços de energia do mundo e no comércio internacional, pelo aumento no preço dos fretes e dos seguros.

* Alberto Pfeifer é coordenador do Grupo de Análise de Estratégia Internacional da USP (Universidade de São Paulo). Este texto foi transcrito em primeira pessoa de análise em vídeo para o WW