Análise: Até quando o apoio de Trump à Ucrânia vai durar?

Especialista da CNN avalia que reviravoltas da políticas dos EUA em relação à Kiev acontecem com tanta frequência que se tornaram banais

Nick Paton Walsh, da CNN
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Quando o inesperado se torna tão frequente que passa a ser esperado?

As reviravoltas na política dos Estados Unidos em relação à Ucrânia sob o presidente Donald Trump acontecem com tanta frequência que se tornaram banais.

Na terça-feira (23), Trump sugeriu que a Ucrânia poderia recuperar todo o território ocupado, graças ao fornecimento de armas pela Otan, à sua disposição para lutar e à fragilidade econômica da Rússia. Tudo isso vindo de um homem que já defendeu que a Ucrânia cedesse terras ao invasor e estendeu o tapete vermelho para o presidente russo, Vladimir Putin.

Seria fácil ignorar tudo isso — se essas declarações não viessem da voz mais importante, ao menos no ocidente, quando se trata da maior guerra na Europa desde a década de 1940.

O que significa a guinada de 180 graus na noite de terça-feira — mesmo com a ressalva de que o homem mais poderoso do mundo pode continuar girando até completar 360 graus e acabar de volta ao ponto em que estava na segunda-feira (22): sem tração real em um processo de paz que ele próprio tentou iniciar, mas também sem punir o Kremlin por seu comportamento?

Primeiramente, é tolice negar que a nova e mais recente posição de Trump, à primeira vista, seja uma boa notícia para Kiev. Ela reconhece o “espírito” dos ucranianos na luta e apoia as posições mais maximalistas do país em retomar todo o território ocupado pela Rússia. Apoia que a Otan os arme até os dentes, inclusive com armas dos EUA. E destaca o “tigre de papel” que Moscou claramente continua sendo no aspecto militar, após três anos e meio tentando conquistar mais de 20% de um país que achava que poderia dominar em uma semana.

Mas aí é que, em grande parte, acabam as boas notícias substanciais e significativas.

Trump já não quer mais que a guerra termine agora. Ele acredita que o conflito pode continuar até que a Ucrânia recupere o que quase certamente não conseguirá. É justo dizer que Kiev, nos bastidores, gostaria que a guerra acabasse com justiça e de forma duradoura amanhã mesmo, diante da grave escassez de tropas e das perdas territoriais graduais que enfrenta há meses.

O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, passou de uma exigência impossível para outra.

Ele já não está mais sendo pressionado a fazer concessões dolorosas de terras pelas quais a Ucrânia sacrificou milhares de vidas em sua defesa. Em vez disso, agora está sendo provocado a embarcar em uma missão igualmente impossível: retomar territórios que o país não conseguiu recuperar nem durante a contraofensiva altamente preparada do verão de 2023.

Nenhuma das opções é viável de forma simples, nem contribui para manter Zelensky no poder ou para deixar a Ucrânia em uma posição de força.

Em resposta aos comentários de Trump, o Kremlin declarou que “até um especialista pouco qualificado” conseguiria ver que as tropas russas estão avançando.

O principal argumento de Trump — ecoado por alguns de seus aliados europeus — é que a economia da Rússia está em perigo. De fato, ataques constantes à infraestrutura de refinarias russas causaram possíveis escassezes de combustível, e outro drone ucraniano atingiu uma refinaria da Gazprom pela segunda vez em uma semana na noite de terça-feira, a 1.400 km dentro do território russo.

Há relatos de filas em postos de gasolina e de problemas mais amplos. Como acontece em todas as sociedades fechadas, é impossível medir com precisão a gravidade da situação. Isso pode se revelar um enorme problema nos próximos meses — como um iceberg prestes a causar destruição real — ou simplesmente derreter e desaparecer.

Confiar na fragilidade econômica da Rússia também parte de um paradigma social diferente daquele em que o Kremlin se encontra hoje.

Em um mundo pré-invasão, fatores como alta inflação, aumento de salários, uma grande crise de desmobilização prestes a acontecer e os danos à economia real causados pelas sanções deveriam, em teoria, pesar nas decisões dos formuladores de políticas.

Trump termina sua publicação dizendo que a Otan pode comprar armas dos EUA e que cabe à “Otan fazer o que quiser com elas. Boa sorte a todos!”

Mais uma vez, o presidente do principal membro da Otan fala da aliança como se fosse um corpo estrangeiro — e da guerra que prometeu encerrar como algo no qual outros precisam de sorte. São 280 palavras desconcertantes que encerraram um dia tumultuado de reviravoltas na postura dos Estados Unidos.

Escondidas ao redor da longa publicação, havia ainda duas outras novas e importantes posições.

Falando ao lado de Zelensky na Assembleia Geral da ONU, Trump declarou que os países da Otan deveriam abater jatos russos que invadissem seu espaço aéreo.

Talvez não seja uma ideia tão radical, mas no clima atual carrega o tom inflamado do apoio americano a essa medida defensiva.

O Secretário de Estado, Marco Rubio, disse mais cedo: “Não acho que alguém tenha falado em abater jatos russos, a menos que estejam atacando.” Trump acrescentou depois: “Depende da circunstância” quando questionado se participaria de algum esforço defensivo.

A mensagem é firme e pode até persuadir o Kremlin a moderar seu período frenético de provocações, que incluiu drones russos entrando na Polônia e jatos violando o espaço aéreo da Estônia.

Mas a Casa Branca não está sendo totalmente clara e definitiva. Putin certamente vai testar essa nova determinação. Provavelmente não será amanhã, nem simplesmente voando jatos de forma agressiva no espaço aéreo da Otan novamente, mas de outra maneira que obrigue a maior aliança militar da história a analisar e debater as motivações de Moscou.

Em segundo lugar, quando perguntado se ainda confiava no líder russo — que, neste contexto, é uma forma de perguntar se as tão anunciadas sanções contra Moscou, por minar seu processo de paz, seriam implementadas — Trump respondeu: “Vou deixar vocês saberem daqui a cerca de um mês.”

No meio de todo esse ruído, Putin ainda tem até novembro.

A nova posição de Trump traz a Ucrânia de volta ao ponto inicial. Zelensky sabe que precisará de um verdadeiro milagre em financiamento, tropas e um colapso simultâneo da Rússia para retomar territórios.

Não está claro se Trump estava apenas repetindo a versão mais maximalista das demandas do presidente ucraniano em sua postagem, se ouviu essas ideias de algum aliado europeu na Assembleia Geral da ONU em Nova York, ou se criou essa nova abordagem por conta própria.

Ainda assim, isso coloca a Casa Branca de forma surpreendente em sintonia com a posição mais agressiva da Europa — de que a Ucrânia pode e vai continuar lutando indefinidamente até que a Rússia perca. Para a maioria dos analistas, isso pode parecer irrealista. Mas é melhor do que a alternativa de admitir a uma Moscou gananciosa que a Ucrânia deve aceitar algum tipo de derrota.

Porém, junto com essa vitória para a Europa e Kiev — carregada de ambições inalcançáveis e despedidas de “boa sorte” — surge a pergunta: será que todo esse barulho e fúria significam algo?

Trump não anunciou nada de novo — a Otan continuará comprando o que já planejava e seguirá apoiando a análise desanimada de que a economia combalida da Rússia acabará se desfazendo.

Trump apenas oscilou de forma mais forte a favor de Kiev. Mas sua política continua sendo um pêndulo que balança entre as visões de mundo dos aliados dos quais os EUA não podem abrir mão e alguém que ele inexplicavelmente gosta e ainda confia — Putin.

O Kremlin analisa cuidadosamente o comportamento de Trump e tem se mostrado bom em avaliar até onde podem esticar sua paciência.

Eles provavelmente notaram que ele se colocou no centro da narrativa sobre como essa guerra pela segurança europeia do século 21 vai se desenrolar — e que ele gosta desse papel. E também perceberão que essa posição é, como os oito prazos anteriores que ele estabeleceu, nova.

E que têm pelo menos mais um mês para esperar e ver se ele volta atrás novamente.

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