Análise: Como alguns navios estão atravessando Ormuz durante o bloqueio?
Bloqueio não é literalmente apenas uma barreira física no próprio estreito, já que a marinha dos EUA tem o tamanho e o alcance para perseguir qualquer navio que saia do Golfo Pérsico por semanas, em qualquer lugar do mundo

O bloqueio dos Estados Unidos aos portos iranianos foi "totalmente implementado" e paralisou a maior parte da atividade econômica de Teerã em apenas um dia e meio, disse o chefe do CENTCOM (Comando Central dos EUA) nesta quarta-feira (150).
"Estima-se que 90% da economia do Irã seja alimentada pelo comércio internacional marítimo. Em menos de 36 horas desde que o bloqueio foi implementado, as forças dos EUA interromperam completamente todo o comércio econômico entrando e saindo do Irã por mar", disse o Almirante Brad Cooper em um comunicado nas redes sociais.
O Comando Central dos EUA disse anteriormente que nenhum navio violou o bloqueio desde a implementação.
Ao mesmo tempo, há relatos de que algum tráfego comercial continua transitando pelo Estreito de Ormuz, o ponto estratégico entre o Irã e Omã por onde passam 20% das exportações mundiais de petróleo e 80% das exportações de petróleo iraniano.
Mas esse tráfego comercial não contradiz automaticamente a afirmação dos EUA.
Analistas dizem que a tecnologia moderna permite a aplicação de bloqueios a grandes distâncias. "Os EUA não precisam colocar navios no Golfo Pérsico para bloquear o Irã", disse Carl Schuster, ex-capitão da Marinha dos EUA.
Ele observou os mais de 12 navios que o CENTCOM diz estarem garantindo o bloqueio. A maioria, se não todos, estão fora do estreito. Eles podem transportar equipamentos sofisticados de rastreamento e reconhecimento vinculados a sistemas aéreos e espaciais.
E pelo menos nos primeiros dias deste bloqueio, os petroleiros não irão muito longe. Um petroleiro totalmente carregado pode viajar a menos de 30 km/h. Isso não é muito mais rápido que a velocidade de um ciclista médio.
A Marinha dos EUA também tem o tamanho e o alcance para perseguir qualquer navio que saia do Golfo Pérsico por semanas, em qualquer lugar do mundo.
"O bloqueio dos EUA nos portos iranianos não tem uma fronteira geográfica definida, e os Estados Unidos podem interditar embarcações em quase qualquer lugar em águas internacionais até que cheguem ao seu porto final", disse o Instituto para o Estudo da Guerra (ISW) na terça-feira (14).
No início deste ano, enquanto Washington pressionava o regime de Nicolás Maduro na Venezuela, forças dos EUA apreenderam um petroleiro venezuelano no Oceano Índico, a milhares de quilômetros de seu porto de origem.
"Tenha cuidado para não interpretar (bloqueio) muito literalmente como uma interdição física do próprio estreito", disse Bjorn Hojgaard, CEO da empresa de gestão de navios Anglo-Eastern.
O ISW também observou que os EUA concederam exceções ao seu bloqueio para envios humanitários e permitiram um "período de caréncia" indeterminado para navios neutros em portos iranianos saírem.
Seis navios que podem ter tentado furar o bloqueio foram parados e deram meia-volta sob orientação das forças dos EUA, de acordo com um comunicado do CENTCOM na terça-feira.
Enquanto isso, o CENTCOM disse que estava deslocando mais de uma dúzia de navios de guerra, mais de 100 aeronaves e mais de 10.000 pessoas na aplicação do bloqueio.
Schuster, o ex-capitão da Marinha, forneceu um detalhamento das funções dos navios que o CENTCOM disse fazerem parte do bloqueio.
Schuster disse que a composição dessa força, grande parte dela operando bem afastada do Estreito de Ormuz e da costa iraniana, deixa Teerã com opções limitadas para responder.
Os pequenos barcos de ataque da marinha do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) são projetados para operar nos espaços confinados do estreito e do Golfo Pérsico, não nas águas abertas do Mar Arábico e além.
O Irã provavelmente ainda mantém alguns mísseis balísticos e de cruzeiro antinavio, apesar de semanas de bombardeios aéreos dos EUA no país. Mas mesmo quando tinham essas armas em números maiores, não há relato de que ela já tenham atingido navios de guerra dos EUA operando no Mar Arábico.
O presidente dos EUA, Donald Trump, disse no mês passado que o Irã havia disparado 101 mísseis contra o porta-aviões USS Abraham Lincoln, mas todos foram abatidos.

