Análise: Desgaste com "vizinhos" ameaça área de influência do Brasil
País precisa restabelecer agenda regional, sob risco de perder controle na área de influência próxima
Uma vizinhança sob controle, amistosa, de cooperação, é determinante para que um país tenha força. Isso vale não só àquela parte do mundo, mas também para sua projeção global.
O Brasil sempre esteve em uma região de menor conflituosidade, porque a América do Sul resolveu os problemas de fronteiras lá no começo do século XX. Antes, a maior disputa foi a Guerra da Tríplice Aliança contra o Paraguai, tema que renasceu com extrema sensibilidade.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fez uma declaração infeliz e reavivou todo esse rancor que os nossos vizinhos paraguaios têm em relação ao Brasil. Mas não é só isso.
Lula também não soube lidar com o líder da Argentina, Javier Milei, que esteve em São Paulo em um ato puramente eleitoral.
Do mesmo modo, o Brasil não soube construir uma relação com a Argentina quando Milei foi eleito, com uma proposta contrária à proposta do PT, à proposta da esquerda brasileira.
Essas diferenças, no entanto, não importam. Somos sócios no Mercosul, somos sócios comerciais, de investimento, e temos necessidade de condução das agendas comuns que afetam países que dividem fronteiras. Nesse sentido entram aspectos como crime organizado, o controle da agricultura, das bacias hidrográficas.
E um país grande que não tem boas relações com a vizinhança, perde credibilidade no cenário internacional. Na América do Sul, vários países em eleições recentes, Chile, Bolívia, Peru e agora a Colômbia, mudaram de vertente ideológica.
São países, hoje, mais ligados à direita, de agendas mais conservadoras, com economias favoráveis às regras do livre mercado e com um foco grande na segurança pública.
O governo brasileiro, seja ele qual for o próximo, tem que restabelecer essa agenda regional. Caso contrário, fica sob o risco de perder o controle na sua área de influência próxima e, com isso, perder também a força que tem no cenário internacional.
* Alberto Pfeifer é coordenador-geral do grupo de Defesa, Segurança e Inteligência da USP (Universidade de São Paulo) e pesquisador de Geopolítica do Insper Agro Global. Foi diretor de Projetos Especiais e de Assuntos Internacionais Estratégicos da Presidência da República. Este texto foi transcrito em primeira pessoa de análise em vídeo para o WW.



