Análise: Donald Trump enquadra aliados da Otan
Analistas debatem tensões entre EUA e aliança atlântica, conflito na Ucrânia e cúpula prevista para julho na Turquia
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, se reuniu com o secretário-geral da OTAN, Mark Rutte, em um encontro que representou a quinta visita do dirigente à Casa Branca desde janeiro do ano passado.
O objetivo da reunião foi preparar o terreno para a cúpula da aliança prevista para o início de julho, em Ancara, na Turquia, com foco em questões de defesa, aumento da produção militar e apoio à Ucrânia.
Rutte, conhecido por seus elogios a Trump, tentou apaziguar as relações entre o líder norte-americano e a OTAN, destacando a importância dos Estados Unidos na aliança. Os EUA são os maiores investidores em defesa do grupo, com gastos superiores aos de todos os países europeus e do Canadá somados.
Rutte também elogiou os esforços da Casa Branca na guerra contra o Irã e ressaltou o apoio logístico da OTAN no conflito. Trump, no entanto, não demonstrou concordar com as afirmações e voltou a reclamar da postura dos aliados.
Tensões crescentes e ameaças de desengajamento
Durante o primeiro mandato, Trump já havia ameaçado deixar a aliança. Agora, além de repetir essas intimidações, ele vem intensificando as críticas. Neste ano, o líder norte-americano falou repetidamente sobre a anexação da Groenlândia, território autônomo da Dinamarca — membro da OTAN — e chegou a chamar a aliança de "tigre de papel".
Trump também anunciou a retirada de tropas da Alemanha em resposta às críticas do chanceler alemão Friedrich Merz.
No campo militar, o secretário de Defesa americano, Pete Hegseth, destacou um plano para deslocar forças para fora da Europa. A imprensa europeia noticiou ainda um projeto americano para reduzir recursos militares disponíveis ao continente durante crises, o que incluiria drones, caças, bombardeiros, destróieres e submarinos.
Segundo o analista de Internacional da CNN Lourival Sant'Anna, Hegseth teria seis meses para estudar o desengajamento dos Estados Unidos da Europa, cogitando retirar uma parte das tropas e talvez um terço dos caças americanos do continente.
Europeus buscam independência estratégica
Diante das pressões, os países europeus retomaram os apelos por maior autonomia em relação aos Estados Unidos. A França expandiu seu guarda-chuva nuclear pelo continente, e a Alemanha flexibilizou regras orçamentárias para aumentar os gastos militares.
Friedrich Merz colocou os alemães como protagonistas de um fortalecimento militar da aliança sem a participação de Washington. Ainda assim, analistas avaliam que o processo é lento e que a Europa ainda está muito atrasada para substituir a capacidade militar americana.
O professor de Ciências Militares da Eceme (Escola de Comando e Estado-Maior do Exército) Sandro Teixeira Moita destacou que a visão de Trump é a de que "aliados não são parceiros, aliados são quase que vassalos" de sua vontade.
Moita apontou ainda que a crise em torno do Estreito de Ormuz evidenciou essa postura, e que Mark Rutte acabou gerando um problema diplomático para a Itália ao revelar que cerca de 500 voos de aeronaves americanas partiram de bases italianas durante o conflito contra o Irã.
O governo italiano havia declarado que os voos eram apenas logísticos, e a revelação gerou pedidos da oposição para que o governo prestasse esclarecimentos.
Cúpula da OTAN e a guerra na Ucrânia
Sandro Teixeira Moita destacou que a cúpula de julho é considerada decisiva para o conflito na Ucrânia, pois pode modelar um possível cessar-fogo até o final do ano.
A Ucrânia tem realizado ofensivas em profundidade no território russo, incluindo ataques ao complexo petroquímico e à indústria de defesa do país. Recentemente, os ucranianos atacaram uma fábrica de chips de guiagem de mísseis em Voronezh com um míssil americano modificado para ser lançado de distâncias maiores.
O professor de Ciências Militares da Eceme ressaltou que há uma percepção, inclusive do lado russo, de que, caso o memorando de entendimento com o Irã se consolide, a atenção de Trump deve se voltar para o conflito na Ucrânia.
Isso geraria uma corrida contra o tempo dos dois lados: os ucranianos apostando em sua capacidade inovativa e em campanhas de profundidade, enquanto os russos apostam no atrito e no desgaste, especialmente sobre as cidades ucranianas. A presença de Trump na cúpula de Ancara é vista como fundamental para garantir o apoio contínuo à Ucrânia.


