Análise: EUA e Irã flertam entre proteção e risco de escalada em Ormuz
Fernanda Magnotta aponta três riscos centrais da estratégia americana no estreito: escalada militar, limitações operacionais e falta de coordenação internacional
EUA e Irã trocaram ataques no Estreito de Ormuz nesta segunda-feira (4), em um episódio que expõe as tensões crescentes na região. A troca de disparos ocorreu mesmo após o anúncio de que os Estados Unidos conduziriam navios pela rota marítima estratégica.
Segundo Fernanda Magnotta, analista de Internacional da CNN, a situação no estreito "flerta a todo momento entre a proteção e o risco da escalada", podendo transformar o conflito em algo ainda maior a qualquer hora. A analista explicou ao CNN 360º desta segunda-feira que os desafios da estratégia americana podem ser organizados em torno de três eixos centrais.
O primeiro e mais imediato risco apontado por Magnotta diz respeito à própria presença naval americana na região. "Colocar navios americanos para fazer qualquer tipo de proteção, de escolta ou de acompanhamento de embarcações significa, de certa maneira, transformar essas embarcações, esse alvos americanos, em objeto direto do conflito", explicou a analista.
Dessa forma, se por um lado a presença americana pode oferecer segurança, por outro ela eleva a possibilidade de que o conflito seja ampliado de forma significativa a qualquer momento.
O segundo eixo identificado por Magnotta envolve as dificuldades práticas de operar naquela região. O ambiente é descrito como de "elevadíssimas ameaças", preenchido por minas, drones e mísseis, o que torna qualquer ação não apenas arriscada, mas frequentemente de baixa efetividade.
"Essa operação é complexa, cara e, segundo os especialistas que conhecem bem as características dessa região, também seria uma operação muito lenta, isso porque envolve, inclusive, um processo de desminagem, que não é nem simples nem barato", destacou Magnotta.
Segundo ela, essa situação limitaria consideravelmente o impacto sobre o fluxo global do petróleo: "Que, em tese, é o que motiva essa ação", observa a analista.
O terceiro eixo diz respeito à ausência de apoio internacional e à resistência do setor privado. De acordo com Magnotta, os aliados europeus e ocidentais não estariam dispostos a arcar com os custos financeiros e políticos da operação, deixando os Estados Unidos praticamente sozinhos diante de uma missão extremamente desafiadora.
Além disso, navieiras e seguradoras, os atores diretamente envolvidos na operação, não demonstram propensão a aderir plenamente ao plano, o que eleva os riscos para essas empresas, encarece fretes e seguros e ameaça sua própria capacidade operacional. "Sem confiança, essas empresas preferem continuar evitando a rota do que embarcando em um plano como esse", afirmou a analista.
Magnotta avalia que, com essa estratégia, Trump busca evitar transmitir uma imagem de fragilidade e demonstrar que os Estados Unidos dispõem de recursos à disposição. No entanto, a analista pondera que, na prática, "colocar isso para rodar realmente não parece exatamente viável" diante de todos os obstáculos elencados.


