Análise: O novo normal em Gaza é uma trégua sem paz

Acordo mediado pelos EUA demonstra ser ao mesmo tempo frágil e durável, com momentos de tensão que mantém um equilíbrio delicado na região

Oren Liebermann
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Qualquer pessoa que observasse a situação em Gaza na terça-feira (28) poderia ter concluído, com razão, que o cessar-fogo havia terminado.

De acordo com militares, forças israelenses em Gaza foram alvo de ataques com granadas e disparos de atiradores em Rafah, resultando na morte de um soldado israelense. Em retaliação, Israel desencadeou ataques devastadores em Gaza que mataram mais de 100 pessoas, segundo o Ministério da Saúde Palestino.

O cessar-fogo mediado pelos EUA parecia ter se desintegrado. No entanto, na manhã de quarta-feira (29), tanto o Hamas quanto Israel anunciaram que estavam novamente comprometidos com o acordo.

Foi a segunda escalada mais violenta desde que o cessar-fogo entrou em vigor em 10 de outubro.

Mas, assim como os confrontos ocorridos nove dias depois, quando dois soldados israelenses e pelo menos 36 palestinos foram mortos, foi breve, terminando em questão de horas.

A nova normalidade em Gaza parece ser um cessar-fogo que é ao mesmo tempo frágil e durável.

Uma trégua que se mantém em geral, mas pode desaparecer em um instante, apenas para ser restaurada em questão de horas ou dias.

 

Fragilidade do acordo de cessar-fogo

Esta situação entre um conflito total e uma paz abrangente não oferece estabilidade: os palestinos viverão em constante medo da próxima onda de ataques mortais, enquanto Israel permanecerá perpetuamente à beira da guerra.

O Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, disse na semana passada que o cessar-fogo "não seria uma jornada linear". Haveria "altos e baixos" e "reviravoltas", afirmou.

O vice-presidente dos EUA, JD Vance, disse ontem que haveria "pequenas escaramuças aqui e ali". Ainda assim, ambos estavam otimistas quanto à manutenção do cessar-fogo.

O acordo foi imposto em grande parte pela pura força de vontade do presidente dos EUA, Donald Trump, que conteve Israel, enquanto mediadores pressionavam o Hamas a aceitar.

Será necessário um contínuo interesse dos EUA para manter o acordo intacto, especialmente durante a próxima fase, que exige a criação de uma força internacional para Gaza e o desarmamento do Hamas, entre outras tarefas difíceis.

A fragilidade do cessar-fogo é uma função do abismo entre o que o acordo conquistou até agora e o que ainda precisa alcançar.

Os combates foram em grande parte interrompidos. O Hamas entregou os reféns vivos e mais da metade dos falecidos. Israel recuou até a linha amarela que demarca a primeira posição de retirada dentro de Gaza.

Contudo, no atual impasse entre a primeira fase do acordo, praticamente concluída, e a segunda fase, muito mais complexa, que exige uma retirada mais completa e o fim da guerra, as forças israelenses ainda ocupam mais da metade do território de Gaza.

Segundo Muhammad Shehada, especialista em Gaza do Conselho Europeu de Relações Exteriores, esse território inclui células isoladas do Hamas presas em túneis e fora do comando e controle da organização militante.

Com recursos limitados e sem conexão com a liderança remanescente do Hamas, cada célula é "uma catástrofe em potencial", afirma Shehada.

"Quanto mais os veículos das IDFs (Forças de Defesa Israelenses) se aproximam de um túnel ou esconderijo desses militantes isolados e desconectados, ou quanto mais eles ficam sem comida, maiores são as chances de que apareçam em combate com soldados israelenses", disse Shehada à CNN.

"Eles preferem morrer em combate do que morrer de fome ou esperar que as FDI os encontrem."

Após a primeira grande violação do cessar-fogo em 19 de outubro, o Hamas emitiu um comunicado afirmando que "o contato com os remanescentes de nossos grupos" em áreas como Rafah havia "sido cortado desde a retomada das hostilidades em março".

São esses "remanescentes" que Shehada considera "bombas-relógio".

"O Hamas nem mesmo sabe quantos ainda estão vivos", disse Shehada.

Conflitos anteriores

Israel e Hamas já se envolveram em breves e intensas escaladas várias vezes antes desta guerra.

Em 2018 e 2019, os dois trocaram tiros em rodadas de hostilidades que frequentemente terminavam em 48 horas.

Mas agora essas escaladas são quase exclusivamente em uma direção, com Israel desencadeando seu poder de fogo sobre Gaza contra um Hamas enfraquecido.

Mais de 200 palestinos foram mortos em Gaza desde o início do cessar-fogo, segundo o Ministério da Saúde Palestino, a grande maioria durante dois dias de escalada em 19 e 28 de outubro.

Três soldados israelenses foram mortos em Gaza no mesmo período.

Yoav Limor, analista militar e de defesa do jornal direitista Israel Hayom, afirma que mais conflitos são inevitáveis e será necessário o envolvimento dos EUA para evitar que o acordo se desfaça.

"O Hamas continuará sendo o Hamas: vai se fortalecer e continuar realizando ataques".

"Quem acredita que algo mudou não entende o movimento ou a natureza da região", disse Limor. "Por isso Washington deve seguir adiante e avançar para a próxima fase do acordo de cessar-fogo e trabalhar para afastar o Hamas do poder. Caso contrário, a situação pode se deteriorar."

Avanço gradual

Os EUA enviaram uma série de altos funcionários para monitorar o cessar-fogo e começar a criar os mecanismos necessários para a próxima fase do acordo, incluindo ajuda humanitária e reconstrução de Gaza.

Os EUA estão determinados a manter o processo avançando, mesmo que o progresso seja gradual.

No curto prazo, disse Limor, "é provável que o cessar-fogo mantenha esse padrão familiar de violência e resposta".

Israel está se preparando para um ano eleitoral durante o qual o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu será cauteloso em retomar uma guerra total.

O Hamas também busca um período de calma durante o qual possa se recuperar e reconstruir, afirmou ele.

Para quebrar esse padrão de um cessar-fogo marcado por escaladas violentas – e evitar que essa nova normalidade se estabeleça – é necessário um progresso significativo em algumas das condições mais difíceis do plano de 20 pontos, incluindo o desarmamento do Hamas e a criação de uma nova governança em Gaza.

Em uma entrevista coletiva na quarta-feira (29), o primeiro-ministro do Catar, Sheikh Mohammed bin Abdulrahman Al Thani, disse que o Hamas estava disposto a ceder o poder em Gaza, mesmo reconhecendo que Doha estava "tentando pressioná-los para chegarem a um ponto onde reconheçam que precisam se desarmar".

Ele disse que o Hamas precisa estar pronto para passar à próxima fase do acordo.

"Precisamos garantir que os palestinos estejam seguros e os israelenses estejam seguros... criando um horizonte político para o povo palestino e criando uma agência palestina que seja capaz de ser a única detentora de armas".

Se isso não puder ser feito, israelenses e palestinos permanecerão em um limbo, presos em uma trégua de curto prazo sem paz que não oferece perspectiva de longo prazo para uma solução.

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