Análise: O triunfo silencioso da Rússia no novo xadrez energético global
Enquanto os conflitos no Oriente Médio e na Ucrânia redesenham as fronteiras geopolíticas, Moscou se posiciona estrategicamente para dominar o suprimento chinês e a rota do Ártico
Todo grande conflito gera, inevitavelmente, ganhadores e perdedores, tanto durante a sua dinâmica quanto após o cessar-fogo. Hoje, observamos o mundo emaranhado em dois grandes embates: a disputa no Oriente Médio, envolvendo Irã, Israel, Estados Unidos e países árabes, e a guerra entre Rússia e Ucrânia. No entanto, ao olharmos para além da fumaça dos campos de batalha, percebo que um vencedor inesperado começa a emergir no rearranjo econômico mundial: a Rússia.
Essa afirmação pode parecer um contrassenso à primeira vista. Afinal, acompanhamos as severas dificuldades russas em solo ucraniano, onde Moscou enfrenta uma desgastante guerra de atrito para tentar manter o controle da Crimeia e dos quatro oblasts (regiões administrativas) reivindicados. Contudo, a verdadeira vitória russa não reside apenas em conquistas territoriais imediatas, mas em sua consolidação como peça-chave no novo equilíbrio de forças entre as grandes potências.
O fator China e o gargalo geopolítico
Para entender essa ascensão, precisamos olhar para a disputa hegemônica entre Estados Unidos e China. Enquanto Washington demonstra destreza no uso da força para controlar o expansionismo chinês, Pequim vê seu círculo de aliados — como Irã e Venezuela — enfraquecer. Mais do que isso, a China enfrenta uma vulnerabilidade crítica: sua dependência energética do Golfo Pérsico.
Atualmente, o suprimento chinês é refém de pontos de estrangulamento geográfico, como os estreitos de Ormuz e Malaca. É aqui que a Rússia se torna o "vencedor" por excelência. Diferente das rotas marítimas instáveis do Sul, a Rússia oferece uma conexão direta e terrestre com a China, livre de pontos de compressão ou bloqueios ocidentais.
A chave do Ártico
O que consolida essa posição russa, a meu ver, é o impacto do aquecimento global nas rotas comerciais. Com o degelo progressivo, a rota do Ártico está se tornando navegável durante todo o ano. E ninguém domina essa região como Moscou.
Com uma frota de mais de 40 navios quebra-gelo e um mapeamento detalhado da região, a Rússia detém, na prática, a "chave" do Polo Norte. Esta via se tornará o corredor fundamental para:
1 - A exportação de manufaturas chinesas para o Ocidente e Ásia Central;
2 - O suprimento vital de petróleo, gás, minérios e alimentos russos para garantir a sobrevivência econômica da China.
Em suma, enquanto o mundo se desgasta em tensões militares, a Rússia redesenha seu papel como o supridor essencial do gigante asiático. Ao escapar dos pontos de tensionamento tradicionais, Moscou garante não apenas sua relevância econômica, mas uma aliança estratégica que pode definir o equilíbrio de poder nas próximas décadas.
*Alberto Pfeifer é coordenador-geral do grupo de Defesa, Segurança e Inteligência da USP (Universidade de São Paulo) e pesquisador de geopolítica do Insper Agro Global. Foi diretor de projetos especiais e diretor de assuntos internacionais estratégicos da Presidência da República. Este texto foi transcrito em primeira pessoa de análise em vídeo para o WW.



