Análise: Possibilidade de acordo entre EUA e Irã está cada vez mais remota
Cessar-fogo frágil, divergências internas no governo americano e pressão do Congresso complicam negociações entre Washington e Teerã.
As perspectivas de um acordo entre os Estados Unidos e o Irã seguem cada vez mais remotas, segundo a análise de correspondentes e analistas do programa Fora da Ordem, da CNN Brasil.
Apesar das declarações recorrentes de Donald Trump sinalizando proximidade de um entendimento, a realidade das negociações aponta para um cenário de alta complexidade e avanço muito lento.
Mariana Janjácomo, correspondente da CNN nos Estados Unidos, avaliou que a situação permanece praticamente inalterada. "Vou repetir a resposta de um mês atrás: acho muito difícil", afirmou. Ela comparou o impasse a um ciclo que se repete, observando que, após duas semanas de férias, voltou para encontrar exatamente o mesmo quadro.
Cessar-fogo frágil e negociações complexas
Segundo Janjácomo, há nos bastidores conversas em andamento, mas ninguém esperava que uma negociação desse porte fosse simples. "Donald Trump tentou fazer parecer que seria fácil. Esses acordos demoram meses, anos para serem feitos", destacou a correspondente.
Ela ressaltou que existe um cessar-fogo extremamente frágil, com ataques ainda sendo trocados de ambos os lados. O Irã coloca como ponto essencial que haja um cessar-fogo entre Israel e Líbano, envolvendo também o Hezbollah, o que adiciona uma camada ainda maior de complexidade às tratativas.
Trump, por sua vez, alterna entre discursos de negociação e ameaças. Nesta semana, chegou a declarar que retomaria os ataques caso o Irã matasse um soldado americano.
Ao mesmo tempo, Marco Rubio afirmou ao Congresso americano que a "operação militar" — termo que ele utiliza em vez de "guerra" — já havia encerrado e que os Estados Unidos saíram vitoriosos. "Não tem unidade nem mesmo no próprio governo, nem mesmo na própria Casa Branca, sobre os rumos dessa guerra", avaliou Janjácomo.
Congresso americano reage e aprova medida simbólica
A insatisfação da população americana com a continuidade do conflito começou a se refletir no Congresso. A Câmara dos Deputados americana aprovou nesta semana uma medida para limitar os poderes de guerra de Donald Trump.
A iniciativa não deve entrar em vigor por questões práticas relacionadas ao processo legislativo nos Estados Unidos, mas foi considerada simbolicamente expressiva: quatro republicanos se juntaram aos democratas para aprová-la.
"Quatro republicanos é um número pequeno, mas acaba sendo expressivo se a gente considerar todo o contexto", disse Janjácomo, lembrando que, até pouco tempo atrás, o partido tentava bloquear qualquer votação nesse sentido para evitar um constrangimento a Trump.
Efeitos econômicos duradouros para o mundo
Os impactos econômicos do conflito também foram debatidos. Um dos participantes do programa apontou que o efeito mais duradouro da guerra é o reestabelecimento das cadeias de fornecimento de óleo, gás e fertilizantes, com consequências diretas sobre o transporte e a produção de alimentos no mundo inteiro. "Mesmo que a guerra acabe hoje, a gente vai conviver com os efeitos duradouros dela", afirmou.
No caso do Brasil, maior produtor de alimentos do mundo, a previsão de inflação de alimentos já chega a 7% no ano, contra uma meta de 3%, em parte porque o país depende de quase 90% de importação de fertilizantes, sendo o Oriente Médio um fornecedor importante.
O mundo, segundo a análise, está se movendo para reduzir essas dependências, com a construção de novos gasodutos e rotas alternativas, mas o processo deve levar anos.


