Análise: Trump cria novo dilema com prazo de 50 dias para Putin

Defensores de política mais agressiva expressaram receio sobre as ameaças do presidente americano de penalizar a Rússia economicamente

Aaron Blake, da CNN
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A reação inicial dos defensores da política linha-dura com a Rússia à postura mais dura do presidente Donald Trump em relação ao russo Vladimir Putin foi positiva.

Isso incluiu uma declaração conjunta na segunda-feira (14) do senador republicano Lindsey Graham e do senador democrata Richard Blumenthal.

Os políticos chamaram a ameaça de Trump, de aumentar as penalidades econômicas caso a Rússia não chegue a um acordo de paz nos próximos 50 dias, de "um verdadeiro golpe para levar as partes à mesa de negociações".

Mas, um dia depois, um verdadeiro sentimento de ceticismo em relação às ameaças do presidente americano se instaurou.

Ucranianos e líderes estrangeiros expressam receio

Os russos basicamente ignoraram a situação e até a trataram como um sinal verde para tomarem quantos territórios puderem nas próximas semanas. Já os ucranianos e líderes estrangeiros expressaram receios sobre o que acontecerá nos próximos 50 dias.

E até mesmo alguns aliados de Trump no Congresso e em outros lugares se perguntam: por que a demora? Por que não aprovar hoje a lei de sanções que mais de 80 senadores já apoiam?

Durante a tarde de terça-feira (15), Trump rejeitou as críticas a esse cronograma. "Ah, não acho que 50 dias seja muito tempo, e pode acontecer antes disso", disse ele.

O presidente frequentemente adia decisões e anúncios importantes, impondo a si mesmo um prazo futuro que ele pode ou não cumprir (geralmente "duas semanas").

Recentemente, ele atacou o Irã logo após uma trégua de 60 dias concedido ao país para firmar um acordo nuclear que nunca foi concretizado. Mas parece haver um temor crescente de que isso seja apenas mais um adiamento ou um intervalo inútil.

Descontentamento de políticos americanos

Talvez o mais marcante na terça-feira tenham sido os comentários de dois senadores republicanos.

O senador Rick Scott, da Flórida, elogiou Trump pelo desejo de trazer Putin à mesa de negociações, mas disse que o líder russo "não vai mudar".

"Não sei por que ele deu tantos dias. Do meu ponto de vista, acho que Trump está sendo muito generoso", disse Scott ao jornalista Manu Raju, da CNN. "Eu adoraria que houvesse sanções agora. Adoraria que houvesse tarifas agora."

Já o senador Thom Tillis, da Carolina do Norte, disse que o cronograma de 50 dias o "preocupa".

Tillis disse que Putin poderia usar esse tempo para intensificar os esforços para vencer a guerra rapidamente ou tentar ganhar poder "depois de ter assassinado e potencialmente conquistado mais terreno como base para negociações".

Como observou o jornalista Matthew Chance, da CNN, as autoridades em Moscou estavam aliviadas com um anúncio que poderia ter sido muito pior para elas – e agora podem encará-lo como uma licença para fazer o que puderem nos próximos 50 dias.

Ameaça causou pouco impacto na Rússia

Embora a Rússia tenha considerado as ameaças de Trump e as armas que ele disse estar enviando para a Ucrânia "muito sérias", autoridades russas como o Ministro das Relações Exteriores, Sergey Lavrov, e o ex-presidente russo, Dmitry Medvedev, – um importante aliado de Putin – também minimizaram publicamente o prazo de 50 dias.

"Trump lançou um ultimato teatral ao Kremlin", postou Medvedev no X. "O mundo estremeceu, esperando as consequências. A Europa combatente ficou decepcionada. A Rússia não se importou."

Os mercados na Rússia também parecem não ter levado a ameaça a sério. O jornal The New York Times noticiou na terça que o índice de ações de Moscou subiu 2,5 pontos, possivelmente porque sanções secundárias parecem mais distantes agora – se é que algum dia elas chegarão.

Temores de que Trump esteja controlando a situação com "rédeas soltas" demais com relação a Rússia também foram evidentes na Europa.

Autoridades, incluindo a chefe de relações exteriores da União Europeia, Kaja Kallas, elogiaram a postura mais dura, mas classificaram o prazo como muito longo.

Já o ex-primeiro-ministro britânico Boris Johnson, que frequentemente se aliou a Trump, elogiou-o por "aumentar a pressão sobre Putin", mas também defendeu a aplicação das sanções antes do prazo de 50 dias.

"Mas por que esperar? Putin está massacrando pessoas inocentes todos os dias. Vamos acabar com isso", postou Johnson no X, acrescentando: "Vamos sancionar os facilitadores de Putin agora".

Insatisfação de Trump com Putin pode leva-lo a endurecer a situação

O dilema para os linha-dura com a Rússia é facilmente perceptível. Por um lado, Trump está dizendo coisas mais duras sobre Putin do que nunca, e eles querem lhe dar crédito por isso, por mais tardia que achem que essa mudança seja.

Mas, dada a imprevisibilidade de Trump e o fato de que ele já tratou Putin com muita delicadeza antes, eles também podem ver isso como uma cortina de fumaça e não como uma atitude suficientemente dura.

Então, agora que Trump parece estar insatisfeito com seu colega russo, eles podem querer pressioná-lo para uma ação mais urgente.

O que parece claro é que as preocupações com o prazo de 50 dias foram registradas. Trump ficou irritado quando foi pressionado sobre o assunto.

"Você deveria ter feito a mesma pergunta a Biden", disse Trump, repetindo um de suas falas frequentes de que o ex-presidente é o responsável pela invasão de Putin a Ucrânia. "Por que ele nos colocou nesta guerra? Você deveria fazer essa pergunta."

O senador republicano Lindsey Graham também pareceu responder às críticas ao prazo de 50 dias, dizendo que Trump demonstrou recentemente o quão sérios esses prazos podem ser – em relação ao Irã.

"Se Putin e outros estão se perguntando o que acontece no dia 51, eu iria sugerir que ligassem para o aiatolá", postou Graham no X. "Se eu fosse um país comprando petróleo russo barato, sustentando a máquina de guerra de Putin, eu acreditaria na palavra do presidente Trump."

A comparação não é perfeita. Trump não ameaçou bombardear Moscou. E a opção de endurecer a Rússia é muito mais fácil para Trump; basicamente, envolve apenas dizer ao Congresso para aprovar um projeto de lei que ele parece pronto para aprovar sempre que for solicitado.

Veremos se Trump se sentirá obrigado a endurecer a situação mais rapidamente.

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