Análise: Putin e Trump estão encurralados por suas próprias guerras

Ambos líderes iniciaram conflitos após subestimar adversários e enfrentam impasse para encerrar situações

Stephen Collinson, da CNN
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A história angustiante da Rússia gerou um humor ácido entre seus cidadãos.

Por isso, certamente não passou despercebida aos anfitriões do diretor da CIA, John Ratcliffe, a ironia de sua chegada a Moscou nesta semana — supostamente para dizer aos russos que eles estão perdendo a desastrosa guerra na Ucrânia.

Os chefes de espionagem russos poderiam ter apontado que o presidente Donald Trump, assim como o presidente Vladimir Putin, também está envolvido em uma guerra, no Irã, que não consegue vencer nem encerrar.

Dois líderes em dois conflitos distintos enfrentam um dilema semelhante: não conseguem alcançar seus objetivos de guerra, mas também não podem simplesmente abandonar a situação sem perder a face.

Ambos iniciaram hostilidades após, aparentemente, subestimarem a tenacidade e a capacidade de adversários cujas forças armadas eram minúsculas se comparadas ao poder convencional e ao arsenal dos Estados Unidos e da Rússia.

Tanto Putin quanto Trump viram sua vantagem militar tática ser minada por táticas assimétricas e não convencionais da Ucrânia e do Irã, que foram pioneiros no uso de novas tecnologias de baixo custo, como drones, inaugurando uma nova era de guerra.

Em sua reportagem sobre a visita de Ratcliffe, o jornal "New York Times" destacou uma preocupação há muito compartilhada por muitos na comunidade de política externa de Washington: a de que Putin não está recebendo avaliações honestas sobre o curso da guerra.

Muitos observadores se perguntam se as avaliações otimistas de Trump sobre uma vitória dos EUA no Irã indicam que ele também é mal assessorado por um círculo íntimo relutante em lhe transmitir más notícias.

Washington e Moscou não são estranhos a envolvimentos externos custosos; ambos, por exemplo, sofreram reveses humilhantes em guerras no Afeganistão. O desastre da Rússia na Ucrânia, de certa forma, remete à derrota dos EUA no Vietnã.

Ainda assim, os paralelos entre esses dois líderes de perfil autoritário, agora presos em guerras que eles mesmos iniciaram, embora pertinentes, têm seus limites.

Trump não repetiu o erro grave de Putin de enviar tropas terrestres para um atoleiro — uma decisão que resultou em mais de 1,4 milhão de jovens russos mortos, feridos ou desaparecidos, segundo o CSIS (Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais).

Putin, um líder verdadeiramente autoritário, sofre menos restrições decorrentes da dinâmica política interna do que Trump. Um custo humano dessa magnitude seria politicamente insustentável nos EUA.

Além disso, enquanto Putin semeia terror e morte em cidades e usinas de energia ucranianas com ataques de mísseis e drones, Trump, em grande parte, evitou atacar deliberadamente civis e infraestrutura civil em sua guerra.

Ele se recusou, no entanto, a apresentar um relato público completo sobre um ataque com mísseis que atingiu uma escola iraniana em fevereiro — matando quase 200 crianças e adultos —, o qual aparentemente decorreu do uso de informações de inteligência desatualizadas.

Chefes de inteligência se reúnem em um momento internacional sombrio

A visita surpresa de Ratcliffe à Rússia ocorreu em um momento de instabilidade e presságios sombrios nas relações internacionais, à medida que as guerras na Ucrânia e no Irã desestabilizam o Oriente Médio em geral, envolvem as grandes potências mundiais e despertam receios de uma ampliação do conflito geopolítico.

O chefe da CIA tinha uma agenda ampla.

Ele alertou a Rússia contra quaisquer ataques, abertos ou encobertos, a território da Otan, em meio a temores crescentes na Europa de que Putin pudesse testar as defesas da aliança, disseram à CNN duas pessoas a par do assunto.

Ratcliffe também aproveitou suas reuniões com autoridades de espionagem russas para incentivar a Rússia a cortar o apoio econômico e militar ao Irã.

Sua missão poderia trazer certo alívio aos aliados dos EUA, que há muito se preocupam com o compromisso de Trump com a Otan e suas garantias de segurança.

Além disso, uma nova tentativa do país de acabar com a guerra na Ucrânia seria amplamente bem-vinda, mesmo que a redução da ajuda militar ao governo do presidente Volodymyr Zelensky por parte de Trump levante suspeitas sobre suas motivações.

Trump ainda não concretizou uma oferta feita no verão passado para permitir que a Ucrânia licenciasse a produção de sistemas antimísseis Patriot.

O presidente norte-americano chegou a prever que poderia acabar com a guerra na Ucrânia em 24 horas, mas seus esforços de paz não avançaram. Sua afirmação recorrente de que Putin quer a paz é constantemente desmentida pelos acontecimentos.

Os Estados Unidos têm mantido uma atuação indireta na guerra da Ucrânia desde o início. A Rússia desempenha seu próprio papel à distância no conflito envolvendo o Irã.

Os passos em falso dos EUA em relação ao Irã estão sob os holofotes nesta semana, pois o conflito completa seis meses e o governo americano muda o foco da ação militar para uma guerra econômica total.

A Rússia pode ter pouco interesse estratégico em aliviar a situação difícil de Trump em relação ao Irã. Qualquer troca de favores envolvendo a Ucrânia fracassaria devido à tentativa anterior, e malsucedida, do presidente americano de pressionar Kiev a fazer concessões territoriais.

A CNN noticiou em março que a Rússia forneceu ao Irã informações de inteligência sobre a localização e os movimentos de tropas, navios e aeronaves americanos, segundo várias pessoas a par dos relatórios de inteligência dos EUA sobre o assunto.

Grande parte das informações compartilhadas pela Rússia com o Irã consistia em imagens obtidas pela sofisticada constelação de satélites de Moscou.

A postura antiocidental de Putin significa que a Rússia combate constantemente a influência dos EUA e do Ocidente no Oriente Médio e em outras regiões. É provável que ele esteja jogando um jogo de longo prazo, ao contrário de Trump, cujo mandato termina em dois anos e meio.

Ainda assim, Washington poderia contar com a ajuda de Moscou — e de Pequim — para sua nova política de isolamento econômico total do Irã.

“Para que a pressão econômica surta efeito, (Trump) precisa conseguir alguma cooperação dos chineses, dos russos e de outros atores regionais que são os principais parceiros comerciais dos iranianos”, disse na quinta-feira à CNN Firas Maksad, diretor administrativo do Eurasia Group para o Oriente Médio e Norte da África.

“Acho que ele terá muita dificuldade em fazer com que os chineses cooperem... A situação é semelhante com a Rússia", completou ele.

Como guerras no exterior podem drenar a credibilidade internacional

À medida que as implicações da viagem de Ratcliffe se tornavam evidentes na quinta-feira, o jornal "Washington Post" noticiou que a visita foi precedida por novas informações de inteligência dos EUA, sugerindo que o Kremlin vê os Estados Unidos como enfraquecidos pela guerra com o Irã.

O fracasso de Trump em obter uma vitória decisiva no conflito não apenas abalou a credibilidade do país, mas também esgotou os estoques de munição e sobrecarregou as forças navais e aéreas.

Portanto, não seria surpreendente se adversários dos EUA, como a Rússia e a China, questionassem a capacidade ou o interesse de Washington em responder a qualquer crise na Europa ou na Ásia.

"Como Donald Trump decidiu entrar em guerra contra os iranianos — sem um objetivo estratégico, sem um plano, sem um cronograma, sem uma estratégia de saída e agora está encurralado —, sim, claro, isso ajuda os russos", disse o senador democrata Mark Kelly, do Arizona, à jornalista Brianna Keilar, da CNN, na quinta-feira (27). "E, aliás, os russos estão ajudando os iranianos."

Trump, no entanto, argumenta que sua relação amigável com Putin torna o mundo mais seguro. Ele insistiu, na quinta-feira (27), que não havia perigo de Putin tomar qualquer atitude que pudesse provocar um conflito com o Ocidente. "Tive boas conversas com ele. Ele não vai atacar um território da Otan", disse ele à repórter Kristen Holmes, da CNN, no Salão Oval.

Ainda assim, as diversas camadas de intriga em torno da viagem de Ratcliffe a Moscou representam uma nova e fascinante reviravolta nas relações extraordinárias entre dois líderes que enfrentam um dilema estratégico comum, capaz de definir seus legados.

A guerra com o Irã pode não ser tão existencial para a sobrevivência política e pessoal de Trump quanto o conflito na Ucrânia é para Putin. Mas, assim como seu amigo no Kremlin, ele se vê encurralado por sua própria guerra.

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