Especialista: Putin teria vitória se Trump anunciasse risco de ataque russo
Ao WW, Vitelio Brustolin, professor da UFF (Universidade Federal Fluminense) e pesquisador de Harvard, analisa reunião entre chefes de inteligência dos EUA e da Rússia e seus impactos na OTAN
A reunião entre o chefe do serviço de inteligência estrangeira da Rússia, Sergei Naryshkin, e o diretor da CIA, John Ratcliffe, em Moscou, gerou análises sobre os desdobramentos estratégicos do conflito no Leste Europeu. Ao WW, Vitelio Brustolin, professor da UFF (Universidade Federal Fluminense) e pesquisador de Harvard, avaliou os possíveis impactos do encontro sobre a OTAN e sobre a posição de Vladimir Putin.
A estratégia russa de divisão da OTAN
Segundo Brustolin, o objetivo central da Rússia é enfraquecer a aliança ocidental por dentro.
"A Rússia quer dividir a OTAN. É evidente", afirmou o especialista. Para ele, se Putin conseguir, por meio de ações de sabotagem, operações encobertas ou ataques cibernéticos, colocar em dúvida o Artigo 5º do tratado da OTAN — que trata da resposta coletiva da aliança —, já terá alcançado uma vitória estratégica significativa.
Brustolin destacou que uma operação relativamente simples e de baixo custo seria suficiente para criar divisões entre os Estados Unidos e os países europeus, entre nações ocidentais e orientais do bloco, e até mesmo entre governantes e suas populações.
"Se o Putin consegue criar uma cisão no cerne da OTAN, ele tem uma vitória estratégica", ressaltou.
O risco de um anúncio de Trump
O especialista também chamou atenção para os riscos de uma eventual declaração pública do presidente americano, Donald Trump, reconhecendo a ameaça de um ataque russo a outro país europeu. De acordo com Brustolin, tal anúncio, por si só, já representaria uma vitória para Putin — sem que a Rússia precisasse sequer agir militarmente.
"Se o Trump viesse a público dizer que realmente há risco da Rússia atacar um outro país europeu, isso já seria uma vitória estratégica para o Putin, porque aí não precisaria nem atacar", explicou.
Isso porque, segundo o pesquisador, apenas a ameaça já seria suficiente para acionar o Artigo 4º da OTAN, que prevê reuniões de consulta e preparação entre os membros da aliança, intensificando o debate sobre o que fazer a seguir.
Brustolin concluiu que Trump, ao minimizar publicamente o peso da visita de Ratcliffe a Moscou, age de forma estrategicamente consciente: "Se ele disser o real peso que ela tem, ele já entrega aquilo que o Putin deseja, que é uma cisão estratégica."



