Análise: Trump pode acabar com guerra, mas mundo sofrerá consequências
Presidente dos Estados Unidos planeja saída do conflito e projeta impacto econômico global se Irã controlar Estreito de Ormuz

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, parece estar se preparando para simplesmente abandonar a guerra no Irã.
Trump está dizendo aos aliados dos EUA — que não se juntaram à sua guerra no Irã porque não foram avisados com antecedência, não a queriam e achavam que infringia o direito internacional — que eles terão que arcar com as consequências.
"Vão buscar seu próprio petróleo", escreveu ele na plataforma Truth Social na terça-feira (31), pouco antes de fontes dizerem à CNN que o governo americano não pode prometer restaurar a livre navegação pelo Estreito de Ormuz antes de declarar a missão cumprida.
Mais tarde, o presidente previu que a guerra estará "acabada" em duas ou três semanas. "O que acontecer no Estreito, não teremos nada a ver com isso", disse ele a repórteres no Salão Oval.
O Irã tem usado o Estreito de Ormuz para interromper o fornecimento crucial de petróleo e manter a economia global como refém. Se a guerra terminar com o país no controle dessa via navegável crítica, será uma vitória estratégica.
Em meio a novos indícios de que Trump deseja o fim da guerra, autoridades parecem estar elaborando uma manobra retórica para que ele a encerre sem resolver as consequências.
O secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, afirmou na terça-feira (31) que Washington alcançou uma “mudança de regime” no Irã — embora o país ainda seja governado por radicais islâmicos repressivos que desprezam os Estados Unidos.
As tentativas recentes do governo de redefinir o sucesso refletem escolhas desagradáveis que Trump enfrenta mais de um mês após o início da guerra e a crescente pressão do prazo de quatro a seis semanas estabelecido pelas autoridades para sua duração.
Elas seguem as afirmações do presidente de que negociações “produtivas” estão em andamento com o Irã, embora autoridades em Teerã neguem esse fato e não haja evidências públicas de progresso diplomático.
Encerrar a guerra controlando o estreito seria visto internacionalmente como uma derrota estratégica para os Estados Unidos. Teerã certamente reivindicaria a vitória e poderia considerar que restabeleceu uma dissuasão contra futuros ataques. E provavelmente tentaria monetizar sua nova posição impondo pedágios para petroleiros que transitam pela rota.
Isso proporcionaria receitas para a reconstrução de programas militares, de mísseis e até mesmo nucleares destruídos em ataques aéreos dos EUA e de Israel.
Tudo isso desafiaria a habilidade de Trump em transformar quase tudo em vitória. Mas ainda assim poderia ser um desfecho preferível para o presidente, porque qualquer tentativa de reabrir o estreito à força acarretaria o risco de pesadas baixas americanas e prolongaria a guerra de uma forma que minaria ainda mais sua já fragilizada autoridade política interna.
Trump não pode escapar das consequências de suas decisões
Abandonar as negociações pode deixar um rastro de turbulência. Mas seria coerente com a metodologia de Donald Trump, que na prática tem se mostrado mais eficaz em destruir o status quo do que em construir novos sistemas.
Também ampliaria o princípio "America First" (América primeiro, em português), que propaga que o país deve agir sempre dentro dos limites de seus interesses nacionais exclusivos, e atenderia à raiva de Trump em relação aos aliados da Otan (Organização das Nações Unidas) que ele considera se aproveitarem das garantias de segurança americanas.
Mas os Estados Unidos não existem em um vácuo definido pela retórica de Trump. Ele teria dificuldades para escapar das repercussões econômicas e políticas de manter o estreito sob o controle de um Irã revigorado. O presidente americano pode até conseguir criar uma narrativa política para justificar sua saída, mas é improvável que os mercados sejam tão fáceis de convencer.
“Embora os Estados Unidos sejam o maior produtor mundial de petróleo, isso não protege os consumidores americanos dos preços do petróleo, porque os preços do petróleo são globais”, afirmou Rosemary Kelanic, diretora do programa de estudos do Oriente Médio do think tank Defense Priorities, a Zain Asher na CNN International nesta terça-feira (1°).
“Portanto, todos nos Estados Unidos e em todo o mundo são afetados por esse choque de oferta"
Esse golpe econômico ameaça desencadear uma recessão global que atingiria em cheio os EUA, possivelmente meses antes das eleições de meio de mandato, nas quais os democratas esperam obter uma grande vitória que os ajude a conter o poder de Trump em um segundo mandato.
De forma mais ampla, as repercussões da guerra com o Irã agora ameaçam outro desfecho: uma ruptura ainda mais profunda na aliança transatlântica.
Isso apenas reforçaria a necessidade de os aliados europeus — e aqueles que o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, chama de “potências médias” — investirem mais em suas próprias forças armadas, entendendo que a proteção de segurança americana do pós-Segunda Guerra Mundial se tornou pouco confiável.
Os alarmes soaram por toda a Europa quando o secretário de Estado Marco Rubio, um dos integrantes mais pró-Otan do círculo de convivência de Doanld Trump, disse à Al Jazeera esta semana que a resposta dos aliados dos EUA à guerra foi "muito decepcionante" — e insinuou que Trump "reexaminaria" os compromissos americanos com eles quando a guerra terminar.
Como a Europa poderá pagar o preço
Os líderes aliados estão aprendendo, na era imprevisível de Donald Trump, que não podem mais confiar nas garantias de segurança dos Estados Unidos, visto que um presidente americano parece estar prestes a condicioná-las ao apoio irrestrito às suas ações.
Alguns, como o Reino Unido, inicialmente negaram permissão para que Washington utilizasse bases aéreas para missões ofensivas no Irã. Outros, como a Espanha, foram muito além.
Como resultado, o líder americano criticou duramente a “relação especial” com Londres e ameaçou cortar todo o comércio com Madri.
Mas Trump colocou esses líderes em uma posição impossível. Seu ano de repreensões aos aliados, incluindo suas exigências para que a Dinamarca entregasse a Groenlândia; os ataques tarifários; e o desprezo pelos sacrifícios dos amigos dos EUA nas guerras pós-11 de setembro, significavam que eles tinham pouco espaço para ajudá-lo e, ao mesmo tempo, salvar suas próprias carreiras políticas.
Mas ficar fora da guerra não os livrará de pagar seus custos.
Os altos preços da energia e a inflação crescente ameaçam esmagar economias frágeis e causar um efeito dominó político entre os eleitores contra governos centristas já fragilizados na Europa.
Já se fala em racionamento de gasolina e diesel em alguns países da União Europeia. Há receios também no continente de que um colapso da autoridade do governo central em Teerã possa desencadear mais um êxodo em massa de refugiados em direção às suas fronteiras e testar as fragilidades fiscais e culturais.
E não é crível que esses países simplesmente — nas palavras de Trump — consigam seu próprio petróleo. As forças armadas europeias, já reduzidas, foram expostas pela guerra.
A Marinha Real Britânica levou várias semanas para posicionar um destróier antimíssil perto de Chipre para proteger os ativos do Reino Unido.
A França conseguiu enviar um grupo de batalha de porta-aviões para zelar pelos seus interesses e pelos de seus aliados no Oriente Médio.
Mas sem o apoio dos Estados Unidos, não há chance de as potências da Otan conseguirem abrir o estreito e mantê-lo aberto. Até mesmo a poderosa Marinha dos EUA considera atualmente muito perigoso se aventurar no alcance dos drones e mísseis iranianos.
Como sempre acontece com Trump, é prudente não aceitar tudo o que ele diz sem questionar. Os indícios de que os EUA poderiam se retirar da guerra surgiram um dia depois do líder americano ter alertado que destruiria usinas elétricas iranianas e até mesmo instalações de dessalinização em uma escalada violenta do conflito, caso Teerã não atendesse às suas exigências de paz.
As declarações públicas de Donald Trump são, por vezes, um artifício para pressionar os líderes mais fracos. O secretário de Estado Marco Rubio insinuou que esse poderia ser o caso quando afirmou, na sexta-feira (27), que “países na Ásia e em todo o mundo têm muito a perder e deveriam contribuir significativamente” para um esforço de reabertura do Estreito de Ormuz.
Pode não haver uma saída clara para o Irã e os EUA — mas talvez haja uma para os aliados americanos em seu confronto com Trump.
A Europa tem capacidade para ser útil. Alguns países possuem capacidade de desminagem que os EUA não têm. A França se declarou disposta a participar de uma missão internacional com outras marinhas para proteger a navegação no estreito — mas somente após o fim dos combates.
“Acho que eles ainda estão trabalhando para evitar que essas divergências com os Estados Unidos sobre o Irã causem uma ruptura permanente na relação transatlântica”, disse Stephen Flanagan, ex-diretor sênior de política e estratégia de defesa do Conselho de Segurança Nacional, em uma reunião informativa do Middle East Institute nesta terça-feira (1°).
“Mas isso tem se tornado cada vez mais difícil diante das duras críticas de Trump à forma como os europeus têm respondido até agora", acrescentou.
Os EUA parecem querer mais.
“(Trump está) apontando que esta é uma via navegável internacional que usamos menos do que a maioria; na verdade, dramaticamente menos do que a maioria. Portanto, o mundo deveria prestar atenção e estar preparado para se posicionar”, falou o secretário de Defesa, Pete Hegseth, na terça-feira (31).
Mas não há interesse na Europa em ser arrastada para mais uma guerra americana no Oriente Médio com o que os críticos consideram uma justificativa questionável e sem perspectivas de uma situação melhor após o conflito.
“O que (...) Donald Trump espera que um punhado de fragatas europeias faça no Estreito de Ormuz que a poderosa Marinha dos EUA não possa fazer?” O ministro da Defesa alemão, Boris Pistorius, disse no mês passado.
“Esta não é a nossa guerra; não a começamos", pontuou Pistorius.
Mas essa posição não poupará os aliados das consequências da guerra — uma realidade que reflete o que está se tornando uma característica definidora do segundo mandato de Trump.
Centenas de milhões de pessoas da Ásia à Europa, da África ao Oriente Médio não votaram nele e não têm voz sobre o que ele faz.
Mas suas decisões estão mudando suas vidas de maneiras profundas.



