Entenda o que é o Cartel de los Soles, que Maduro é acusado de chefiar
Governo Trump acusa ditador da Venezuela de ser o líder de organização criminosa, mas há divergências sobre atuação e até sobre existência do grupo

A crescente mobilização militar dos Estados Unidos na região costeira da Venezuela elevou o clima de tensão entre os países. No centro das acusações do governo americano sobre a ligação do ditador venezuelano, Nicolás Maduro, com o narcotráfico está o "Cartel de los Soles".
Apesar de não haver informações oficiais sobre o cartel, a tese do governo americano é que ele surgiu junto à chegada de Hugo Chávez ao poder, em 1999, e foi responsável por uma espécie de "estatização do tráfico de drogas" no país, transformando a Venezuela em um narcoestado.
Nesta segunda-feira (24), o Cartel de los Soles foi oficialmente designado pelo Departamento de Estado dos EUA como uma “Organização Terrorista Estrangeira”, ou FTO, na sigla em inglês ("Foreign Terrorist Organization"). A medida já havia sido anunciada pelo secretário de Estado Marco Rubio.
As autoridades americanas acusam o Cartel de los Soles de trabalhar com a organização criminosa Tren de Aragua para enviar narcóticos aos Estados Unidos.
.@StateDept intends to designate Cartel de los Soles as a Foreign Terrorist Organization (FTO). Headed by the illegitimate Nicolás Maduro, the group has corrupted the institutions of government in Venezuela and is responsible for terrorist violence conducted by and with other…
— Secretary Marco Rubio (@SecRubio) November 16, 2025
Ao designar um grupo como terrorista, os Estados Unidos passam a ter base legal para criminalizar qualquer tipo de apoio ao grupo e usar força militar contra ele.
No caso da Venezuela, isso significa que os EUA poderiam agora justificar ataques ao país afirmando que estão mirando alvos do cartel e usando a narrativa de que estão combatendo terroristas e não um Estado.
O nome Cartel de los Soles, em português Cartel dos Sóis, faz alusão às insígnias dos generais venezuelanos, que usam sóis em vez de estrelas.
Em março de 2020, ainda no primeiro mandato de Donald Trump, os Estados Unidos acusaram Maduro formalmente por narcoterrorismo, corrupção e tráfico de drogas.
Na denúncia, o governo americano afirmou que Maduro liderou o Cartel de los Soles desde a sua criação e o utilizou para corromper instituições venezuelanas - como as Forças Armadas, o aparato de inteligência, o Legislativo e o Judiciário - para facilitar a exportação de toneladas de cocaína aos Estados Unidos.
À época, Maduro negou as acusações e as classificou como uma ação "escandalosamente extremista, vulgar e miserável". Ele afirmou ainda que Trump era um "caubói, racista e supremacista", que "maneja as relações internacionais como um extorsor das máfias nova-iorquinas".
Junto à denúncia de 2020, Washington ofereceu 15 milhões de dólares por informações que levassem o líder venezuelano à prisão. As acusações continuam em aberto e, no último dia 7 de agosto, o governo americano subiu a recompensa para US$ 50 milhões.

Definições divergentes
Gabriela Reyes, criminóloga boliviana e especialista em segurança regional da América Latina, afirma que fontes confiáveis divergem sobre o Cartel de los Soles e não há um consenso sobre a sua atuação ou até mesmo sobre a sua existência.
“É importante ter um equilíbrio sobre a informação objetiva que existe a respeito, principalmente sobre sua caracterização", pontua.
Enquanto os EUA classificam o cartel como uma rede de quadrilhas organizada, liderada por Maduro e entranhada no governo venezuelano, investigações independentes o definem como uma rede descentralizada.
O Insight Crime e o Wilson Center, organizações reconhecidas internacionalmente por investigações sobre segurança na América Latina, reconhecem a existência do Cartel de los Soles, mas como uma rede fragmentada de militares envolvidos no tráfico.
Já organismos internacionais como a ONU não mencionam o Cartel de los Soles, mas classificam a Venezuela como um país de trânsito da cocaína.
Reyes resume que o que está documentado desde 1999 é uma dinâmica que envolve altos funcionários do governo em cooperação com as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia).
Ela também acrescenta que a admissão de culpa de Hugo Carvajal, ex-general que chefiou a inteligência militar no governo Hugo Chávez, é mais um indício da colaboração contínua entre atores estatais de alto nível e redes de tráfico de cocaína.
"O que não existe é uma evidência sólida dessa ideia de uma 'estatização' total ou de um cartel monolítico dirigido desde a cúpula do Estado. Pelo contrário, o Insight Crime, que estuda de perto essa dinâmica, caracteriza a existência de múltiplos nós e rendas fragmentadas, mais do que uma estrutura rígida e vertical", afirma a criminóloga.
A especialista diz que não há evidências de que a Venezuela tenha uma produção significativa de cocaína, conforme avaliação do UNODC (Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime), o país funcionaria mais como um corredor estratégico do narcotráfico, favorecido pela corrupção e pela sua geografia, do que como produtor.
Em sua visão, o Cartel de los Soles não é um cartel clássico, mas uma rede de militares, policiais e atores ligados ao Estado venezuelano que oferecem proteção e logística ao tráfico internacional.
"Seu papel é garantir passagem, complementando a atuação dos grandes cartéis mexicanos e colombianos, que controlam de fato a produção e a distribuição global", diz Reyes.
Ligação com as Farc, da Colômbia
O governo americano afirma que no início dos anos 2000 os líderes das Farc fizeram um acordo com o Cartel de los Soles para realocar algumas de suas operações para a Venezuela, sob a proteção do cartel, e passaram a despachar cocaína processada da Venezuela para os Estados Unidos por meio de pontos de transbordo no Caribe e em Honduras.
De acordo com o Departamento de Estado dos EUA, as drogas eram despachadas pelo mar e pelo ar, usando a rota de cocaína conhecida como "ponte aérea" entre a Venezuela e Honduras.
Toda essa estrutura, segundo o governo americano, teria sido negociada por Maduro, por meio do Cartel de los Soles.
Possíveis revelações de general chavista preso
Gabriela Reyes avalia que, embora exista um caso judicial robusto sobre a participação de altos níveis do Estado no Cartel de los Soles, até hoje não existe uma sentença contra Nicolás Maduro que o vincule judicial e conclusivamente.
A acusação de 2020 dos EUA atribui a Maduro liderança e coordenação com as Farc para “inundar” os EUA com cocaína, mas ainda não há um veredito. "Ainda falta ver o que Hugo Carvajal declarará sobre Maduro no contexto de sua admissão de culpa", diz Reyes.
Carvajal foi extraditado da Espanha para os EUA em 2023, após anos de disputas judiciais. Em junho, o ex-general se declarou culpado nos tribunais de Nova York, por crimes de narcotráfico relacionados ao envio de cocaína das Farc pela Venezuela.
Ele é considerado um delator-chave sobre as ligações entre o alto comando venezuelano, as Farc e o narcotráfico. Sua eventual cooperação judicial nos EUA poderia trazer provas sobre o envolvimento de Maduro no Cartel de los Soles.
Cartel como organização terrorista
No dia 25 de julho, os EUA já haviam classificado o Cartel de los Soles como "Specially Designated Global Terrorist" (SDGT) ou, em tradução livre, "Terrorista Global Especialmente Designado" e reiteraram que o grupo é liderado por Maduro.
Organização Terrorista Estrangeira ou FTO é a mesma designação usada para grupos terroristas clássicos, como o Estado Islâmico. Já a classificação como Terrorista Global Especialmente Designado ou SDGT tem natureza mais financeira, usada para indivíduos, empresas e grupos que financiam terrorismo ou operam como redes criminosas.
A nova classificação, como organização terrorista, eleva a gravidade das acusações dos EUA sobre Maduro e o principal, garante uma justificativa legal ao governo Trump para realizar ataques militares.
Em julho, o comunicado do Escritório de Assuntos do Hemisfério Ocidental do Departamento de Estado também afirmou que o cartel apoia quadrilhas como Tren de Aragua e o Cartel de Sinaloa, do México, também classificadas como organizações terroristas estrangeiras.
Maduro rejeitou as alegações na ocasião e disse que os EUA coordenam uma campanha de difamação.
Quando os EUA dobraram a recompensa por informações sobre Maduro, a procuradora-geral Pam Bondi afirmou que a DEA, agência de combate a drogas do governo americano, apreendeu quase sete toneladas de cocaína ligadas diretamente a Maduro e o Departamento de Justiça já confiscou mais de US$ 700 milhões em ativos ligados ao líder venezuelano, incluindo dois jatos, nove veículos e outros bens.
"Ainda assim, o reinado de terror de Maduro continua. Ele é um dos maiores narcotraficantes do mundo e uma ameaça à nossa segurança nacional", disse a procuradora.
No último dia 15 de agosto, o presidente do Equador, Daniel Noboa, próximo a Trump, também declarou o cartel venezuelano como grupo terrorista, alegando ameaça ao seu país.
Ainda que as normas sejam diferentes para cada país, quando um governo designa um grupo como “terrorista” abre caminho legal para ações mais duras, como sanções, bloqueio financeiro e até mesmo medidas militares, como no caso dos EUA.



