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    Chefe de agência nuclear diz que lançar água radioativa de Fukushima no oceano é seguro

    Países vizinhos limitam importação de produtos japoneses como sal e frutos do mar com temor de contaminação radioativa

    O diretor-geral da AIEA, Rafael Grossi, conversa com autoridade do Japão sobre a liberação de água de Fukushima
    O diretor-geral da AIEA, Rafael Grossi, conversa com autoridade do Japão sobre a liberação de água de Fukushima Hiro Komae - Pool/Getty Images

    Jessie YeungMarc StewartEmiko Jozuka

    Tóquio

    O plano de liberar água radioativa tratada no oceano é seguro e não há melhor opção para lidar com o acúmulo massivo de águas residuais coletadas desde o desastre nuclear de Fukushima em 2011, disse à CNN o chefe da agência nuclear das Organização das Nações Unidas (ONU).

    O Japão irá liberar as águas residuais em algum momento nas próximas semanas, uma ação controversa 12 anos após o colapso da usina nuclear de Fukushima. As autoridades japonesas e a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) insistiram que o plano deve seguir as normas internacionais de segurança: a água será tratada primeiro para remover os poluentes mais nocivos e será liberada gradualmente ao longo de muitos anos em quantidades altamente diluídas.

    Mas a ansiedade pública segue alta, inclusive em países próximos, como a Coreia do Sul, a China e as Ilhas do Pacífico, que manifestaram preocupação com potenciais danos ao ambiente ou à saúde humana.

    Na sexta-feira (7), autoridades aduaneiras chinesas anunciaram que manteriam uma proibição das importações de alimentos de dez prefeituras japonesas, incluindo Fukushima, e fortaleceriam inspeções para monitorar “substâncias radioativas, para garantir a segurança das importações de alimentos japoneses para a China”.

    Em uma entrevista durante uma visita a Tóquio na sexta-feira, o diretor-geral da AIEA, Rafael Grossi, disse que, embora os temores sobre o plano reflitam um “senso muito lógico de incerteza” que deve ser levado a sério, ele está “completamente convencido da base sólida de nossas conclusões”.

    “Estamos analisando essa medida básica há mais de dois anos. Nós a balizamos com os padrões mais rigorosos que existem”, afirmou. “E estamos bastante certos do que estamos dizendo, e do esquema que propusemos”.

    Diretor-geral da AIEA, Rafael Grossi, durante entrevista em Tóquio / 07/07/2023 REUTERS/Kim Kyung-Hoon

    Grossi disse à CNN que se reuniu com grupos do setor pesqueiro, prefeitos locais e outras comunidades afetadas pelo desastre de 2011 –e cujos meios de subsistência podem ser prejudicados pela libertação das águas– para ouvir essas preocupações.

    “Minha disposição é a de ouvir, e explicar de uma forma que aborda todas essas preocupações”, contou.

    “Ao visitar Fukushima, é bastante impressionante, eu diria até ameaçador, olhar para todos esses tanques, com mais de um milhão de toneladas de água que contém radionuclídeos, imaginando que isso vai ser despejado no oceano. Assim, surgem todos os tipos de medos, e é preciso levá-los a sério para entender e explicar”.

    “É por isso que estou aqui, para ouvir todos aqueles de boa-fé que têm perguntas, críticas e pontos de interrogação, e para entendê-los”.

    No início da semana, Grossi apresentou formalmente a revisão de segurança da AIEA ao primeiro-ministro japonês, Fumio Kishida. O relatório concluiu que o plano de liberação de águas residuais terá  impactos “insignificantes” nas pessoas e no meio ambiente, acrescentando que foi uma “revisão independente e transparente”, não uma recomendação ou endosso.

    Sem alternativas melhores

    As autoridades japonesas disseram que a liberação é necessária porque o local está ficando sem espaço para conter a água contaminada e, além disso, a ação permitirá o desmantelamento total da fábrica de Fukushima.

    O desastre de 2011 causou o superaquecimento dos núcleos do reator da fábrica e contaminou a água dentro da instalação com material altamente radioativo. Desde então, novas águas foram bombeadas para resfriar detritos de combustível nos reatores. Ao mesmo tempo, o solo e a água da chuva vazaram, criando mais águas residuais radioativas que agora precisam ser armazenadas e tratadas.

    As águas residuais agora medem 1,32 milhão de toneladas métricas – o suficiente para encher mais de 500 piscinas olímpicas.

    O Japão já disse que não havia “outras opções” à medida que o espaço se esgota – um problema que Grossi mencionou na sexta-feira. Quando perguntado se havia melhores alternativas para descartar as águas residuais, o chefe da AIEA respondeu de forma sucinta: “Não”.

    Não é que não haja outros métodos, acrescentou – o Japão havia considerado cinco opções, incluindo liberação de hidrogênio, enterro subterrâneo e liberação de vapor, na qual as águas residuais seriam fervidas e liberadas na atmosfera.

    Mas várias dessas opções são “consideradas industrialmente imaturas”, disse Grossi. Por exemplo, a liberação de vapor pode ser mais difícil de controlar devido a fatores ambientais como vento e chuva, que podem levar o lixo de volta à terra, disse ele. Conforme salientam autoridades japonesas e alguns cientistas, a liberação controlada de água para o mar é feita frequentemente em centrais nucleares em todo o mundo, incluindo as dos Estados Unidos.

    A AIEA também permanecerá no local durante os próximos anos, com um novo escritório permanente instalado em Fukushima para ajudar a monitorar o progresso.

    “Temos o benefício da ciência”, afirmou Grossi. “Ou se tem um certo radionuclídeo em uma amostra de água ou não se tem; é algo mensurável. Temos a ciência e temos os laboratórios para garantir a credibilidade e a transparência do processo”.

    Ceticismo internacional

    Entretanto, alguns críticos lançaram dúvidas sobre as conclusões da AIEA. A China argumentou recentemente que a avaliação do grupo “não é prova da legalidade e legitimidade” da liberação de águas residuais.

    Muitos países se opuseram abertamente ao plano. Autoridades chinesas alertaram que poderia causar “danos imprevisíveis” e acusaram o Japão de tratar o oceano como um “esgoto”. O secretário-geral do Fórum das Ilhas do Pacífico, um grupo intergovernamental de nações insulares do Pacífico que inclui Austrália e Nova Zelândia, também publicou um artigo em janeiro, expressando “sérias preocupações” e dizendo que mais dados eram necessários.

    Na Coreia do Sul, os moradores tomaram as ruas para protestar contra o plano. Muitos consumidores coreanos têm armazenado sal e frutos do mar por medo de que esses produtos sejam contaminados quando as águas residuais forem liberadas – mesmo que a Coreia do Sul já tenha proibido importações de frutos do mar e alimentos da região de Fukushima.

    Cientistas internacionais também expressaram preocupação à CNN de que não há evidências suficientes de segurança a longo prazo, argumentando que a liberação poderia fazer com que o trítio – um isótopo radioativo de hidrogênio que não pode ser removido das águas residuais – se acumule gradualmente em ecossistemas marinhos e cadeias alimentares, um processo chamado bioacumulação.

    Embora o chefe da AIEA tenha dito que leva essas objeções a sério, ele acrescentou que “não pode excluir” a possibilidade de alguns serem mais movidos pela política do que pela ciência.

    “Entendemos que há um ambiente político, o que é tenso. As divisões geopolíticas são fortíssimas hoje em dia, por isso não podemos excluir esse tema”, opinou.

    Grossi também negou relatos da mídia de que a AIEA havia compartilhado um rascunho de seu relatório final com o governo japonês antes de sua publicação. “Absurdo”, disse. “Este é o DNA da AIEA: ser o órgão de vigilância nuclear para operações nucleares, o órgão de vigilância nuclear para a segurança nuclear. Quando chegamos a uma conclusão, é nossa conclusão independente”.

    Olhando mais a fundo, o futuro da tecnologia nuclear como fonte de energia alternativa depende do sucesso da liberação de Fukushima, disse ele. Embora tenha havido um aumento da preocupação em relação às centrais nucleares recentemente – por exemplo, por causa da usina de Zaporizhzhia ocupada pela Rússia  –“o problema é a guerra, e não é a energia nuclear”, continuou.

    “Se o acidente de Fukushima deixou uma lição clara, é que os padrões de segurança nuclear devem ser observados no detalhe”, aconselhou. “Se fizermos isso, a probabilidade de ter o que aconteceu em Fukushima é extremamente baixa”.

    Este conteúdo foi criado originalmente em inglês.

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