Cheiro de morte persiste nas ruas devastadas da Venezuela
Número de vítimas continua a subir enquanto famílias buscam por entes queridos em meio aos escombros e à esperança de resgates

A Venezuela já estava devastada muito antes de dois terremotos consecutivos abalarem o país na última quarta-feira (24).
Os efeitos de mais de uma década de má gestão governamental e sanções econômicas são evidentes no Hospital Infantil Dr. José Manuel de Los Ríos, em Caracas, onde a Dra. Huníades Urbina-Medina só consegue atender quatro crianças por vez na unidade de terapia intensiva.
“Antes podíamos receber até 10 pacientes na UTI”, declarou Urbina-Medina. “Mas há pelo menos 10 anos não temos pessoal suficiente, não temos medicamentos suficientes, não temos respiradores mecânicos suficientes.”
Uma das quatro pacientes em tratamento é uma menina de 12 anos que ficou soterrada sob vários andares de um prédio desabado. Ela sofre dores insuportáveis e apresenta múltiplos ferimentos que colocam sua vida em risco.
Aproximadamente 100 crianças receberam atendimento médico em outras áreas do hospital desde a semana passada, uma fração dos feridos nos terremotos.
O governo venezuelano tem atualizado gradualmente o número de vítimas dos abalos sísmicos. Atualmente, o total ultrapassa 1.900 mortos e mais de 10.500 feridos.
Outros médicos que falaram com a CNN expressaram queixas semelhantes.
Muitos hospitais estão danificados, afirmou o Dr. Andrés Cortiz, voluntário da Healing Venezuela, uma organização beneficente britânica que oferece atendimento médico gratuito no país.
Cortiz indicou que oito hospitais em Caracas foram obrigados a fechar, e os que permanecem abertos estão lotados de pacientes e sem suprimentos básicos de limpeza, como água sanitária e desinfetante.
Outros problemas são anteriores ao terremoto. À medida que a Venezuela mergulhou em uma crise cada vez mais profunda durante a última década, devido à má gestão do governo socialista e às severas sanções econômicas dos Estados Unidos, Urbina-Medina viu muitos profissionais de saúde qualificados deixarem o país em busca de melhores oportunidades no exterior.
Esse mesmo êxodo de cérebros também afetou as escolas venezuelanas, que já sofriam com uma grave escassez de professores antes do terremoto.
Outros profissionais de saúde foram forçados a sair mais recentemente. Pouco depois de o então presidente Nicolás Maduro ser capturado pelos Estados Unidos em janeiro, a Venezuela encerrou a missão médica cubana, que há muito atuava no país, interrompendo assim um recurso fundamental para as comunidades mais carentes.
Mantendo a esperança
Passaram-se 24 horas desde os dois terremotos até que o cheiro de morte começou a emanar dos escombros em Caracas. O odor de decomposição agora impregna os prédios desabados por toda a cidade.
É avassalador, mas não afasta as famílias de quem ainda permanece preso sob os escombros. Muitas montaram acampamento à beira dos montes de concreto e barras de aço retorcidas, aguardando notícias de seus familiares.
Mirella Herrera é uma delas. Ela espera todos os dias em frente ao prédio de apartamentos destruído onde seu filho morava, buscando qualquer sinal dele, da esposa e dos filhos.
“É exasperante”, comentou entre lágrimas. “Da mesma forma que me sinto desesperada e angustiada, caminho, me mantenho hidratada e me pergunto como eles devem estar se sentindo. Se ainda estão vivos, devem estar desesperados para sair de lá.”
Perto do local do desastre há um quadro branco com a planta de um edifício de oito andares. Em cada andar estão escritos os nomes das famílias. Também são contabilizados os mortos, os resgatados e os desaparecidos.
Até o momento, doze pessoas morreram no edifício, três foram resgatadas e vinte permanecem entre os escombros. Nos últimos dois dias, ninguém foi encontrado.
Em geral, após um desastre como esse, os três dias seguintes constituem o período crucial para encontrar sobreviventes.
Seres humanos normalmente sobrevivem apenas três dias sem água. Cinco dias após os terremotos, Herrera afirmou que ainda mantém a esperança.
“Sinto que meu filho é forte”, afirmou. “Sinto que ele está me esperando, que sabe que estou aqui cuidando dele. Por isso, não quero desistir.”
Esperando a luz verde
Na madrugada de segunda-feira (29), a Venezuela amanheceu com outro terremoto. Foi leve, uma réplica de magnitude 4,9, mas forte o suficiente para que as pessoas saíssem de suas casas e abrigos temporários para as ruas de pijama.
O governo se apressou em declarar que a réplica não causou danos, mas isso não trouxe muito alívio.
Mesmo aqueles cujas casas não foram destruídas na semana passada não podem voltar. Rachaduras serpenteiam pelas paredes de muitos edifícios que ainda permanecem de pé.
Nas fachadas de muitos imóveis também podem ser vistos cartazes dos ex-presidentes Maduro e Hugo Chávez, um lembrete de quem construiu parte das moradias de baixa qualidade que desabaram.



