China eleva tensão com Taiwan e mira longo prazo

Para tentar forçar a reação de Taiwan, a China passou os últimos 40 anos tentando isolar a ilha

Sombra de caça militar sobre bandeiras da China e de Taiwan em foto de ilustração
Sombra de caça militar sobre bandeiras da China e de Taiwan em foto de ilustração Reuters

Ben Westcott e Eric Cheungda CNN

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O ministro da Defesa de Taiwan, o ex-general Chiu Kuo-cheng, discursou no parlamento da ilha na semana passada e fez uma terrível previsão: em 2025, a China poderá conduzir uma invasão “em grande escala” de Taiwan.

A declaração dramática veio depois que a China enviou seu maior número de aviões de guerra até agora para os céus acima do mar a sudoeste da ilha. Mas, apesar da retórica e do afiar de espadas, analistas concordam que a China não deve invadir Taiwan tão cedo.

Um especialista acrescenta que a chance de invasão nos próximos 12 meses é “próxima de zero”.

O governo da China vem lançando ondas de ataque à ilha desde que o ex-governo nacionalista fugiu da China continental no final da guerra civil chinesa em 1949 e se instalou na ilha.

No início dos anos 2000, por exemplo, especialistas disseram que o governo chinês poderia  incorporar Taiwan naquela década. Já em 2013, o Ministério da Defesa de Taiwan estimou que o governo chinês teria a capacidade de invadir a nação em 2020. Nenhuma das duas previsões se concretizou.

Apesar das manobras aéreas mais recentes de Pequim, a vida continua normalmente na capital de Taiwan, Taipei. O povo não está preocupado com a ameaça de invasão, e as incursões regulares chinesas mal garantem uma menção na primeira página dos jornais.

Mas isso não significa que não haja motivo para alarme.

O governo chinês em Pequim está pressionando militar, econômica e diplomaticamente Taiwan para atingir seu objetivo de longo prazo de “Uma China”: um único país unificado, incluindo a ilha.

Além disso, os especialistas temem que, se os líderes do Partido Comunista Chinês acreditarem que não têm esperança de uma “reunificação” pacífica, podem recorrer a medidas mais drásticas para cumprir suas ambições.

“Linhas vermelhas”

Nos primeiros cinco dias de outubro, mais de 150 aviões da Força Aérea do Exército de Libertação do Povo da China entraram na Zona de Identificação de Defesa Aérea de Taiwan, a área ao redor da ilha onde Taipei diz que responderá a qualquer incursão.

As manobras começaram no Dia Nacional da China (1º de outubro), feriado em comemoração à fundação da República Popular e momento natural para atos de exibição militar. Mas essa não foi a única razão para os exercícios, que coroaram meses de tensões aumentadas entre a China e Taiwan.

Especialistas disseram que a deterioração das relações se deve a duas coisas: uma Taiwan cada vez mais assertiva e confiante, posição desencadeada pela melhora das relações entre os governos em Taipei e Washington e pela política interna chinesa.

Embora Taiwan e China tenham sido governados separadamente por mais de 70 anos, o governo chinês vê a ilha democrática de 24 milhões de pessoas como parte de seu território e tem regularmente declarado seu objetivo de “reunificação”, apesar do fato de Taiwan nunca ter sido governada pelo Partido Comunista Chinês.

Para tentar forçar a reação de Taiwan, a China passou os últimos 40 anos tentando isolar a ilha, destruindo seus aliados diplomáticos com ofertas de apoio. O resultado é que Taiwan agora só tem relações diplomáticas completas com 15 países.

No entanto, apesar dos esforços de Pequim, Taiwan ganhou mais influência global desde o início de 2020.

Os países da região estão defendendo o direito de Taiwan à autogovernança como nunca. O ministro da Defesa do Japão, Nobuo Kishi, disse à CNN que o governo de seu país “responderia à altura” a qualquer tentativa da China de tomar Taiwan à força.

Já a ministra das Relações Exteriores da Austrália, Marise Payne, se comprometeu a forjar laços mais fortes com a ilha.

O apoio se estende além da Ásia-Pacífico. Em setembro, por exemplo, a Lituânia se tornou a primeira nação europeia em décadas a permitir que Taiwan tivesse uma missão diplomática em seu próprio nome.

As relações mais estreitas de Taiwan com os Estados Unidos encorajaram a nação no cenário mundial. Sob o governo de Donald Trump em 2020, Taiwan deu as boas-vindas a alguns visitantes norte-americanos do mais alto escalão em décadas e, para a frustração de Pequim, o governo de Joe Biden não reverteu essa tendência.

Michael Cole, pesquisador sênior do Global Institute Taiwan, disse que as tensões crescentes entre os EUA e a China também ajudaram Taiwan a aumentar sua visibilidade.

“Taiwan percebe que a comunidade internacional está se tornando um pouco mais adaptável a ela, mais compreensiva do papel que a nação, como uma democracia liberal, tem a desempenhar neste crescente conflito de ideologias”, afirmou.

Em vez de um prelúdio para uma invasão, o aumento dos sobrevoos chineses são um símbolo da frustração de Pequim e um lembrete a Taiwan e aos EUA de não cruzarem as “linhas vermelhas” da China, segundo Bonnie Glaser, diretora do Programa para a Ásia do German Marshall Fund dos Estados Unidos.

Ela disse que as tais linhas vermelhas – que, se cruzadas, podem desencadear uma escalada militar a partir do governo da China – incluem a campanha pela independência formal de Taiwan ou a decisão de enviar um grande número de soldados norte-americanos para a ilha.

“A China quer manter Taiwan em uma caixa e está usando cada vez mais coerção contra Taiwan. Eles querem intimidar Taiwan”, comentou.

Mas a plateia que ouve o que acontece em Pequim não está apenas em Taiwan e nos Estados Unidos, e sim também na própria China.

Ao pressionar Taiwan, o presidente Xi Jinping está tentando obter apoio antes do Congresso do Partido Comunista Chinês de 2022. É quando termina o segundo mandato de Xi, embora seja quase certo que ele permanecerá como presidente.

Wen-Ti Sung, pesquisador do Australian Centre on China in the World na Universidade Nacional Australiana (ANU), acha que Xi também quer angariar apoio antes de uma reunião do Partido Comunista em novembro, onde uma lista de candidatos a cargos mais altos será finalizada.

Uma política forte para Taiwan pode determinar quantos aliados ele pode colocar em posições de liderança nos próximos cinco anos.

“Em um momento como este, usar alguma demonstração de força para estimular o sentimento nacionalista, criar um efeito de apoio popular em meio a uma tensão pré-conflito, geralmente é uma coisa boa para o titular, para o comandante-chefe”, disse.

Além disso, o Partido Comunista tem grandes prioridades para o próximo ano que se complicariam dramaticamente no caso de uma invasão a Taiwan: uma tranquila Olimpíada de Inverno de Pequim 2022 em fevereiro e o iminente 20º congresso do partido.

Objetivo da “reunificação pacífica”

Um dos sinais mais claros da relutância de Pequim em invadir Taiwan veio de uma fonte incomum: o próprio Xi.

Em discurso em 9 de outubro, o presidente chinês enfatizou seu desejo de “reunificação pacífica” com Taiwan, e parecia implicar que ele estava preparado para esperar que a ilha o cumprisse voluntariamente.

“Quando leio o que Xi Jinping diz sobre Taiwan, fico surpresa com a falta de urgência no discurso”, opinou Glaser, diretora do Marshall Fund.

O objetivo de uma solução pacífica para o impasse sobre o Estreito de Taiwan faz sentido. Há tempos especialistas dizem que qualquer tentativa de Pequim de tomar a ilha à força seria um empreendimento extremamente caro, com um resultado incerto.

Em extensos jogos de guerra realizados pelos EUA no início deste ano, as forças norte-americanas foram capazes de impedir uma invasão simulada pelos chineses de Taiwan no ano de 2030 – e só isso. De acordo com a publicação “Defense News”, os exercícios estimaram que seria uma vitória de Pirro, com grande perda de vidas.

Mas os especialistas dizem que é difícil ver qual caminho resta para a visão de unificação do governo da China.

O apoio popular para buscar a “independência” de Taiwan, ou seja, um futuro formalmente separado da China continental, está em seu ponto mais alto em décadas, de acordo com pesquisas do Centro de Estudos Eleitorais da Universidade Nacional de Chengchi de Taiwan.

Em junho, uma pesquisa com 4.717 taiwaneses revelou que 25,8% desejam avançar em direção à independência, enquanto menos de 10% desejam a “unificação” com a China continental. A opinião da maioria era manter o status quo por enquanto.

O sentimento de um movimento em direção à independência mais do que dobrou desde 2018, revelou a pesquisa.

Sung, da Universidade Nacional Australiana, atribuiu a ascensão ao tratamento brutal chinês em Hong Kong, um importante centro financeiro que recebeu a promessa de ter 50 anos de governo semiautônomo e viu suas liberdades civis severamente restringidas por Pequim após grandes protestos pró-democracia em 2019.

“À luz da crise de Hong Kong, acho que o apelo de uma unificação pacífica sob um cenário de ‘Um país, dois sistemas’ em Taiwan é muito, muito baixo”, afirmou.

O governo da China tem várias razões para esperar que Taiwan acabe se unificando voluntariamente. Eric Chu, recém-eleito líder do partido de oposição Kuomintang (KMT) de Taiwan, concorda que a China continental e Taiwan pertencem ao mesmo país. Ele prometeu reiniciar os canais de comunicação com Pequim se o KMT for eleito em 2024.

Invasão contraproducente

Qualquer invasão chinesa a Taiwan não viria sem aviso, dizem os especialistas.

Antes de qualquer ação militar contra a ilha principal de Taiwan, provavelmente haveria um ataque às ilhas administradas por Taiwan no Mar da China Meridional ou potencialmente um bloqueio de comércio com a ilha.

Enquanto isso, o governo chinês está determinado a aumentar a pressão sobre Taiwan.

A China se opõe regularmente ao envolvimento de Taiwan em quaisquer fóruns internacionais, às vezes indo a extremos para dissuadir os países de incluir a ilha.

Mesmo no auge da pandemia, Pequim se recusou a permitir a participação de Taiwan na Organização Mundial da Saúde, temendo que isso pudesse dar a impressão de que a ilha não fazia parte da China.

Quando surgiu a questão da adesão de Taiwan em uma reunião em maio, o embaixador da China na ONU, Chen Xu, disse que os países deveriam parar de “politizar as questões de saúde e usar as questões de Taiwan para interferir nos assuntos internos da China”.

Tanto a China quanto Taiwan fizeram pedidos de adesão ao Acordo Abrangente e Progressivo para a Parceria Transpacífica (Parceria Transpacífica ou TPP), um acordo de livre comércio entre os países do Círculo do Pacífico iniciado pelos EUA. O governo da China se manifestou fortemente contra a adesão de Taiwan ao pacto.

Até mesmo formas de coerção econômica estão sendo postas em prática. Frutas de Taiwan, incluindo os famosos abacaxis do país,  foram banidas dos mercados chineses, com o governo dizendo que “criaturas nocivas” poderiam representar um risco de biossegurança para o país.

Mas alguns especialistas disseram que é possível que Taiwan já tenha ultrapassado o ponto sem volta para Pequim e qualquer “reunificação” é improvável, exceto por uma mudança massiva na posição do Partido Comunista sobre as liberdades civis ou na posição de Taiwan sobre a China.

Cole, do Global Institute Taiwan, disse que isso por si só pode ser a coisa mais preocupante. Se ficar claro que não há chance de unificação e a reputação ou a manutenção do poder de Xi estiverem em jogo, o presidente chinês poderá recorrer a medidas drásticas.

“Nesse ponto, temo que ele possa ser compelido a recorrer à força ou outro curso de medidas contra Taiwan, mesmo que apenas para se manifestar mais uma vez ao  povo chinês que ele tem tudo sob controle”, comentou.

O professor Sung disse que toda a coerção diplomática, econômica e militar pode sair pela culatra contra Pequim e minar seu próprio objetivo de “reunificação pacífica” com Taiwan.

Em vez de criar uma atmosfera de medo e impotência, como pretendido, o Partido Comunista Chinês está construindo um senso mais forte de identidade e comunidade para Taiwan.

“Não é preciso ser um gênio para descobrir que, quanto mais você destaca essa experiência, mais acentua a identidade nacional taiwanesa. E mais diminui o apoio à unificação com a China”, disse Sung.

Ben Westcott, da CNN, fez a reportagem de Hong Kong e Eric Cheung, de Taipei.

(Texto traduzido. Clique aqui para ler o original em inglês).

 

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