Israel: coalizão pela saída de Netanyahu deve ser decidida nos próximos dias

Poucos israelenses parecem querer um líder da direita como primeiro-ministro; Naftali Bennett, no entanto, já está definido como possível sucessor de Netanyahu

Naftali Bennett, líder partido de direita Yamina, anunciou neste domingo (30) que está trabalhando em prol de um acordo de coalizão com Yair Lapid
Naftali Bennett, líder partido de direita Yamina, anunciou neste domingo (30) que está trabalhando em prol de um acordo de coalizão com Yair Lapid Foto: Kristy Sparow/Getty Images

Rob Picheta, CNN

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Após as eleições de 2019, o partido de direita de Naftali Bennett não conseguiu ultrapassar o limiar eleitoral e não tinha assentos no parlamento de Israel. No entanto, dois anos depois, ele está prestes a se tornar o próximo primeiro-ministro do país.

Ex-chefe de gabinete do então líder da oposição Benjamin Netanyahu, Bennett agora pode destituir seu ex-chefe do poder, encerrando os 12 anos de Netanyahu como o primeiro-ministro – o mais antigo do país. A votação que deve definir o novo governo acontecerá no Knesset, o Parlamento de Israel, e pode ser realizada até 14 de junho.

Bennett assinou um acordo de coalizão histórico com o líder centrista Yair Lapid, que reúne uma ampla faixa de partidos políticos como parte de uma coalizão de mudança para derrubar Netanyahu, incluindo um partido de extrema esquerda e, pela primeira vez na história de Israel, um partido árabe-israelense. 

Se o parlamento israelense aprovar o acordo nos próximos dias, Bennett assumirá o cargo mais alto nos primeiros dois anos de um mandato de quatro anos, seguido por Lapid, em uma espécie de governo rotativo. Bennett se sentará ao lado de políticos com ideologias completamente opostas às suas.

Bennett está à direita até de Netanyahu em várias áreas cruciais. Sendo eleito, ele levará consigo ao cargo uma série de comentários incendiários sobre os palestinos e uma ambição bem documentada de anexar parte da Cisjordânia ocupada.

Poucos israelenses votaram no partido Yamina de Bennett nas eleições de março e, com isso, o partido conseguiu apenas sete cadeiras em comparação aos 30 assentos de Netanyahu. Mas Bennett se viu como um “criador de reis”, cortejado por Netanyahu e Lapid, que precisavam do apoio de seu partido para formar a maioria.

O quanto de sua agenda Bennett pode alcançar enquanto primeiro-ministro limitado em uma coalizão estranhamente montada é algo a ser visto no futuro. Mas se o acordo for mantido, o líder Yamina, que por tanto tempo foi um personagem coadjuvante no espetáculo político de alto risco de Israel, pode se tornar um jogador importante em cenário mundial.

Quem é Bennett na política israelense 

Nascido em Haifa, filho de imigrantes de São Francisco, Bennett serviu em uma unidade de elite das Forças de Defesa de Israel, antes de estudar Direito na Universidade Hebraica. Ele então se tornou um empresário, lançando uma start-up de tecnologia em 1999, que mais tarde vendeu por US$ 145 milhões.

Ele entrou na política israelense sob as asas de Netanyahu anos depois, embora os dois tenham se desentendido depois que ele foi demitido do cargo de chefe de gabinete em 2008. 

Bennett fez seu próprio nome nacionalmente em 2013 como o líder do partido Jewish Home, tornando seu desejo impedir a formação de um estado palestino um ponto central de sua campanha para os eleitores. Após uma fusão com outro partido, o nome escolhido em 2019 foi “Yamina”.

Nos anos seguintes, Bennett ocupou vários cargos nos vários governos de Netanyahu, incluindo ministro da Defesa, enquanto continuava a flanquear Netanyahu em questões relacionadas aos territórios palestinos.

“Os velhos modelos de paz entre Israel e os palestinos não são mais relevantes. Chegou a hora de repensar a solução dos dois Estados”, escreveu ele em um artigo de opinião de 2014 no The New York Times. “A era dessas negociações acabou”, disse ele à CNN no mesmo ano. “A abordagem que temos tentado há vinte anos claramente atingiu o seu fim.”

Bennett tem se mantido firme em sua oposição a uma resolução de dois estados desde então, citando segurança e preocupações ideológicas como seu principal raciocínio.

Yair Lapid
Yair Lapid discursa na sede de seu partido, o Yesh Atid, em Tel Aviv
Foto: Amir Cohen/Reuters

Em 2018, ele disse que se fosse ministro da Defesa, iria decretar uma política de “atirar para matar” na fronteira com Gaza. Questionado se isso se aplicaria a crianças que estão rompendo as barreiras, o Times of Israel relatou que ele respondeu: “Elas não são crianças, são terroristas. Estamos nos enganando”.

Durante o conflito mais recente entre Israel e Hamas em Gaza, Bennett disse que os palestinos poderiam ter transformado Gaza “em um paraíso”. “Eles decidiram transformá-lo em um estado terrorista”, disse Bennett a Becky Anderson, da CNN, no mês passado, antes de um cessar-fogo ser fechado. “No momento em que eles decidirem que não querem nos aniquilar, tudo acaba.”

Lapid e Bennett: companheiros improváveis com um objetivo

Bennett protestou contra a regulamentação governamental do setor privado e dos sindicatos trabalhistas. “Se há uma coisa que eu gostaria de alcançar nos próximos quatro anos, é quebrar os monopólios aqui e quebrar o domínio que os grandes sindicatos têm sobre a economia israelense”, disse ele ao The Guardian, em 2013.

Em um punhado de outras questões, ele é considerado relativamente liberal. Apesar de sua formação religiosa, durante a campanha eleitoral mais recente, ele disse que os gays deveriam “ter todos os direitos civis de uma pessoa heterossexual em Israel”, relatou o Times of Israel – embora ele também tenha dito que isso não significava tomar medidas para garantir a igualdade legal.

Nos últimos meses, Bennett se tornou um crítico severo de Netanyahu, abordando suas ações durante a pandemia, bem como o impasse político interminável do país.

Quatro eleições em dois anos deixaram o país sem respostas, com Netanyahu parecendo obstinadamente inabalável, mas ao mesmo tempo perpetuado a perder o poder.

Bennett disse à CNN no mês passado que, em comparação com seu tempo no setor de tecnologia e nas Forças Armadas, a política de Israel era “uma bagunça e tanto”.

“Depois de quatro eleições e mais dois meses, foi provado a todos nós que simplesmente não há governo de direita possível liderado por Netanyahu”, disse Bennett em um discurso no último domingo, pouco antes de chegar a um acordo com Lapid, um homem a quem agora se refere como seu “amigo”.

Os dois são companheiros improváveis. Carismático ex-âncora de TV, Lapid expressou apoio a uma solução de dois estados com os palestinos, bem como medidas para reduzir a influência da religião em Israel, incluindo a criação de casamentos civis.

Quanto de sua ideologia pessoal Bennett pode cumprir, caso consiga se tornar primeiro-ministro, é uma questão em aberto. Ele já deu a entender que o governo dependeria muito de concessões para funcionar. “A esquerda está fazendo concessões difíceis para permitir que eu me torne primeiro-ministro”, disse ele no último domingo. “Todos terão que adiar a realização de alguns de seus sonhos.”

Mas nos próximos dias, Bennett se concentrará em realizar um sonho mais imediato. O acordo de coalizão deve passar por votação no Knesset, o Parlamento de Israel, antes que um novo governo e primeiro-ministro sejam empossados.

De acordo com a lei israelense, o Knesset também deve ter um voto de confiança dentro de uma semana após ser formalmente notificado da formação de um novo governo. A votação pode ser realizada até 14 de junho.

Isso significa que ainda há tempo para Netanyahu e seus aliados convencerem os membros do Parlamento a desertar da coalizão ou de alguma forma amarrar as coisas processualmente no Parlamento. Um colapso do cessar-fogo com o Hamas em Gaza ou outro evento externo também pode derrubar o novo governo ainda em formação.

Mas se a coalizão de Bennett e Lapid puder se manter firme, eles encerrarão semanas (ou anos) de manobras políticas – e fecharão um acordo, antes visto como improvável, que elevaria Bennett ao cargo mais alto de Israel.

Hadas Gold, da CNN, contribuiu com a reportagem. Informações adicionais da Reuters.

(Esse texto é uma tradução. Para ler o original, em inglês, clique aqui)

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