Como partido populista do Japão ganhou força nas eleições?

Sohei Kamiya, líder do Sanseito, ganhou popularidade durante a pandemia após espalhar teorias da conspiração sobre vacinas

Jessie Yeung, da CNN
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Sohei Kamiya é um ex-gerente de supermercado que criou seu partido político no YouTube em plena pandemia da Covid-19. Ele fez uma campanha com toques "trumpistas", como a frase "Japanese First".

Agora, o Sanseito, crescente partido populista de direita japonês, saiu como um vencedor improvável nas eleições parlamentares deste fim de semana.

Inspirado por outros grupos populistas de direita que surgiram nos últimos anos, o Sanseito conquistou 14 cadeiras na Câmara Alta do Japão, de acordo com a emissora pública NHK – um aumento drástico em relação à única cadeira que ocupava anteriormente.

Isso pode não parecer muito para uma Câmara de 248 cadeiras, mas mostra que a mensagem do partido está repercutindo entre diversos setores da população japonesa.

O sucesso surpreendente aumenta a pressão sobre o primeiro-ministro Shigeru Ishiba e o Partido Liberal Democrata, que, após as eleições de domingo (20), perdeu a maioria tanto na Câmara Baixa quanto na Alta.

Ishiba enfrenta pedidos de renúncia, aos quais tem resistido até agora.

Partido formado online

A ascensão do Sanseito é particularmente notável devido às origens incomuns.

Sohei Kamiya fundou o grupo em 2020 "reunindo pessoas na internet" e, gradualmente, começou a conquistar assentos em assembleias locais, disse ele em um discurso no início deste mês.

Até esta segunda-feira (21), seu canal no YouTube tinha mais de 460 mil inscritos.

O grupo ganhou força durante a pandemia da Covid-19, durante a qual espalhou teorias da conspiração sobre vacinas e uma conspiração de elites globais, informou a Reuters.

Mas, na preparação para as eleições para a Câmara Alta, o Sanseito se tornou mais conhecido pela campanha "Japanese First" – que se concentrou em reclamações sobre o turismo excessivo e a concentração de residentes estrangeiros.

A questão tem se tornado cada vez mais sensível. A quarta maior economia do mundo tradicionalmente tem sido rigorosa em relação à imigração, mas nos últimos anos tem se esforçado para atrair mais turistas internacionais e trabalhadores estrangeiros para combater o rápido envelhecimento da população e a queda nas taxas de natalidade.

Turismo como principal divisor de águas

A população de residentes estrangeiros no Japão saltou de 2,23 milhões para 3,77 milhões na última década, embora isso ainda represente apenas 3% da população total, que é de mais de 120 milhões de pessoas.

O número de turistas também continua quebrando novos recordes. Mas isso causou problemas em cidades lotadas de visitantes, alguns dos quais não sabem se comportar, e esgotou recursos como as famosas águas termais do país.

Agora, alguns acreditam que há estrangeiros demais no Japão – a ponto de o governo recentemente ter formado uma nova força-tarefa para lidar com a questão.

A Sanseito explorou essas frustrações em sua plataforma "Japanese First", juntamente com outras críticas sobre salários estagnados, alta inflação e custo de vida.

"Neste momento, a vida dos japoneses está cada vez mais difícil", disse Kamiya em discurso em julho. Ele citou a falta de crescimento econômico e o aumento da desigualdade de renda.

“Cada vez mais estrangeiros estão vindo (para o Japão)”, comentou.

Ele destacou que não se importa com os turistas, mas afirmou que depender de mão de obra estrangeira barata prejudicaria os salários japoneses e que trabalhadores estrangeiros que não conseguissem encontrar um bom emprego aumentariam a criminalidade.

O partido apoia limites para o número de residentes estrangeiros em cada cidade, mais restrições à imigração e aos benefícios disponíveis para estrangeiros, além de dificultar a naturalização.

O Sanseito também pressiona por medidas de segurança mais rigorosas e leis antiespionagem, maiores cortes de impostos, energia renovável e um sistema de saúde que se afaste das vacinas.

Ele pediu maiores capacidades de defesa, alertando que o Japão está "cercado" por países com armas nucleares e, portanto, precisa de uma "força dissuasora" enquanto busca a desnuclearização a longo prazo.

Comparações com o MAGA (Make America Great Again)

Kamiya também fez comparações com outros grupos como o movimento MAGA de Donald Trump nos Estados Unidos, o partido AfD (Alternativa para a Alemanha) e o Reform UK.

"Sanseito se tornou o assunto do momento, especialmente aqui nos Estados Unidos, devido a todo o sentimento populista e 'antiestrangeiro'", disse Joshua Walker, chefe da organização sem fins lucrativos Japan Society, com sede nos EUA, segundo a Reuters.

"É mais uma fraqueza do Partido Liberal Democrata e de Ishiba do que qualquer outra coisa", acrescentou Walker.

Muitos criticaram a plataforma de Sanseito como xenófoba e discriminatória. Antes da eleição, ele tentou suavizar algumas das ideias mais controversas do partido e atrair mais eleitoras, segundo a Reuters.

Mas ele adotou um tom triunfante após os resultados das eleições, informou a Reuters. "O público passou a entender que a mídia estava errada e Sanseito estava certo", disse Kamiya.

O que vem a seguir para o premiê do Japão?

Os resultados deixaram a coalizão do primeiro-ministro Ishiba em um terreno extremamente instável.

Ele já havia perdido o controle da Câmara Baixa, que é mais poderosa, em outubro, com o Partido Liberal Democrata perdendo a maioria pela primeira vez em 15 anos – uma dura crítica dos eleitores japoneses ao partido no poder há muito tempo.

Em uma entrevista coletiva nesta segunda-feira (21), Ishiba classificou os resultados da Câmara Alta como um julgamento severo sobre o Partido Liberal Democrata e pediu desculpas ao partido.

Ele disse que o partido continuaria governando com seu parceiro de coalizão e a trabalhar com outros partidos para cooperar em questões-chave.

Mais cedo no domingo (20), após o encerramento das urnas, Ishiba havia dito à NHK que pretendia permanecer como primeiro-ministro e líder do partido, citando as negociações tarifárias com os EUA.

O Japão está entre os vários países que enfrentarão uma tarifa de 25% a partir de 1º de agosto, sob as novas medidas de Trump – a menos que consigam chegar a um acordo.

Na coletiva de imprensa, Ishiba disse que queria falar com Trump o mais rápido possível para encontrar uma solução.

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