Como reatar a economia após o coronavírus? Especialistas alemães têm um plano

Qual a melhor forma de reativar um sistema econômico que está parada por conta de uma pandemia? A resposta é: com muito, muito cuidado

 
  Foto: Maja Hitij / Getty Images

Charles Riley

da CNN Business

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Como reatar a economia

Sem festas e grandes eventos

Exemplo chinês

Qual a melhor forma de reativar um sistema econômico que está parado por conta de uma pandemia? A resposta é: com muito, muito cuidado.
 
Ainda que o coronavírus (COVID-19) continue se espalhando pelo mundo, autoridades europeias já pensam em como reabrir fábricas, escritórios e escolas quandoenquanto tentam conter o surto. A Áustria, por exemplo, afirmou, nessa segunda-feira (6), que começaria a abrir gradualmente suas lojas após a Páscoa, sendo o primeiro país da Europa a tomar essa atitude. 
 
Há uma pressão crescente diante dos governos para que expliquem quais os planos em relação aos gastos destinados à contenção da doença. E essa cobrança é agravada pelo medo de que o fornecimento de suprimentos como comida e serviços de saúde possa ser prejudicado se as restrições persistirem por muito tempo.
 
Enquanto a quarentena deve permanecer por mais algumas semanas – ou, em alguns países, meses – um planejamento detalhado feito, agora, pode proteger pessoas vulneráveis e ajudar economias a se recuperarem mais rapidamente quando as restrições forem reduzidas. E se isso for mal feito, a consequência é o aumento da pandemia, uma nova rodada de restrições, tanto no trabalho quanto na vida pública, e ainda mais prejuízo econômico. 
 
Na Alemanha, onde 100.000 pessoas já testaram positivo para o coronavírus (COVID-19) e cerca de 1.600 morreram, um grupo de economistas, médicos e advogados recomendam uma recuperação gradual da maior economia da Europa permitindo que indústrias e trabalhadores específicos retomem as atividades, enquanto medidas de prevenção ainda estão sendo tomadas. 
 
Doze especialistas publicaram, na semana passada, um artigo pelo Institute for Economic Research (IFO) dizendo que eles não esperam uma vacina ou tratamento eficaz para a COVID-19 disponível antes de 2021. Sendo assim, a Alemanha deve enfrentar a luta contra a doença de forma dosada e equilibrada, sem deixar que a pressa e a urgência prejudiquem seu fôlego.   
 
“Medidas futuras devem ser projetadas e preparadas para que, por um lado, garantam bons cuidados à saúde e, por outro, possam ser sustentadas durante o período de tempo necessário”, afirmam os profissionais. “O planejamento desta transição deve começar imediatamente na política, administração pública, setores de comércio e outras organizações”.
 
O país ordenou o fechamento de escolas, restaurantes, lojas e espaços públicos até pelo menos 20 de abril, levando uma economia que já estava à beira da recessão a uma profunda queda. O porta-voz do governo Steffen Seibert disse, na segunda-feira (6), que ele ainda não pode fornecer um cronograma consistente para o aumento das restrições. Enquanto isso, o Institute for Economic Research (IFO) prevê um impacto de 20% no PIB este ano caso o bloqueio dure por três meses.
 

 
O governo alemão já está lançando um pacote de resgate econômico no valor de 750 bilhões de euros (825 bilhões de dólares), que inclui medidas para estimular empréstimos, assumir dívidas de empresas e apoiar trabalhadores terceirizados. O empenho está entre os maiores já lançados em todo o mundo.
 
O relatório do Institute for Economic Research (IFO) também sugere que o país crie uma força-tarefa nacional composta por especialistas e autoridades que façam recomendações sobre como aliviar as restrições no trabalho e na vida pública, bem como quando as industrias deveriam reativar suas produções. Voltar ao trabalho seria voluntário para os funcionários.
 
Indústrias que agregam mais valor à economia, como os setores de telecomunicações e automotivo, devem ser priorizadas, diz o relatório. Enquanto o trabalho que puder ser facilmente feito de casa continue sendo remoto. Creches e escolas abririam relativamente rápido, uma vez que jovens raramente apresentam sintomas graves e seus pais não possam trabalhar se essas instituições permanecerem fechadas.
 

 
As empresas que fabricam produtos ou componentes de saúde também devem reabrir rapidamente. Já hotéis e restaurantes só poderão voltar a funcionar “controladamente”, pois é difícil para as pessoas se manterem distantes nesses estabelecimentos. Bares e casas noturnas devem permanecer fechados por enquanto, diz o relatório. Eventos com um grande número de espectadores não devem ser realizados.
 
Especialistas afirmam que é possível que diferentes ações sejam estabelecidas de acordo com determinada região. Portanto, algumas restrições podem ser facilitadas, primeiro, em locais com baixas taxas de infecção ou risco reduzido de transmissão, como comunidades rurais. Com o passar do tempo, outras regiões, onde a população já acumulou um certo grau de imunidade, poderiam operar diminuindo as restrições.
 
Isso, é claro, requer testes coordenados e em larga escala para o coronavírus (COVID-19). Assim como um treinamento abrangente sobre higiene adequada e novas regras que exijam o uso de equipamentos de proteção individual.
 
O artigo também recomenda que a Alemanha organize um aumento “maciço” na produção medicamentos, vacinas, roupas e máscaras, além de estabelecer uma plataforma digital que permita esse planejamento estratégico.
 
E embora a força-tarefa faça recomendações, políticos e líderes empresariais tomariam a decisão final sobre quando suspender as restrições. “A tentativa de controlar centralmente a retomada da produção não funcionaria na prática. Essa retomada deve ser controlada, principalmente, pelas próprias instituições e empresas”, afirma o relatório.
 

 
Países que tentam acelerar suas economias enquanto já preveem uma segunda onda de infecções podem buscar modelos já adotados pelos chineses.  
 
A China, provavelmente, sofreu sua primeira contração econômica em décadas neste primeiro trimestre, depois que o governo central de Pequim impôs medidas drásticas para conter a disseminação do novo coronavírus (COVID-19).
 
O país abraçou um plano agressivo para salvar a economia, lançando políticas e campanhas destinadas a levar pessoas de volta ao trabalho, incentivando a confiança nos negócios e, assim, evitando um maior número de falências das empresas.

Equilíbrio é fundamental

Pequim está gastando bilhões de dólares em suprimentos e tratamentos médicos, além de investir dinheiro em projetos de infraestrutura para a criação de novos empregos. A capital também está removendo os bloqueios de estradas e permitindo que as pessoas viajem com mais liberdade em áreas onde o vírus parece ter seguido seu curso.
 
Mas é muito cedo para dizer que está tudo bem. Novas questões estão sendo avaliadas, como por exemplo, se os dados de infecção relatados por Pequim podem ser confiáveis. Um outro ponto a ser levantado é o grande número de pessoas migrando para locais turísticos durante os fins de semana. 
 
Algumas empresas voltaram ao trabalho muito cedo, prejudicando os esforços de recuperação. Um dos principais produtores de titânio reiniciou suas atividades em fevereiro e logo teve que interromper o trabalho novamente porque seus trabalhadores estavam infectados.
 

 
Dr. Anthony Fauci, um dos principais especialistas em doenças infecciosas dos Estados Unidos, disse recentemente que, embora a saúde pública seja sua principal prioridade, manter a sociedade e a economia em quarentena total por muito tempo traria consequências negativas e inesperadas.
 
E o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair disse à rádio BBC, nessa segunda-feira (6), que estava “aterrorizado” com os danos econômicos que o bloqueio estava causando à economia do Reino Unido, estimada pelo Centro de Economia e Pesquisa Empresarial em 2,4 bilhões de libras (2,9 bilhões de dólares) por dia . “Se continuarmos por um longo período de tempo, isso também afetará a capacidade de operação dos sistemas de saúde de maneira eficaz”, disse Blair.
 
Como encontrar um equilíbrio adequado, disse Fauci, é uma questão que está sendo enfrentada por países de todo o mundo, à medida que o coronavírus (COVID-19) continua se espalhando.
 
“As pessoas dependem de cadeias de fornecimento e abastecimento de alimentos”, disse ele ao New York Times. “Elas podem morrer de fome. As pessoas têm doenças. Se você interromper drasticamente essa produção a ponto dela não existir mais,  o desmembramento da sociedade poderá ser realmente bastante catastrófico. Precisamos garantir que fiquemos atentos ao equilíbrio”, acrescentou.
 
 — Laura He e Stephanie Halasz contribuíram com esta reportagem. 

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