Dados de observatório da democracia mostram piora da liberdade de imprensa na Rússia
Principais indicadores da base de dados registram piora desde que Putin se tornou o homem mais poderoso do país, em 1999
Dados do Instituto V-Dem (Varieties of Democracy), com sede na Universidade de Gotemburgo, mostram o quanto a Rússia tem restringido o trabalho da imprensa e atuado na disseminação de desinformação tanto em seu território quanto no exterior. Desde a queda da União Soviética até 2021, os principais indicadores da base de dados registram piora desde que o presidente Vladimir Putin se tornou o homem mais poderoso do país, em 1999.
Os casos de assédio contra jornalistas e as ações de censura por parte do governo contra veículos de imprensa e na internet têm crescido significativamente, de acordo com o modelo estatístico elaborado pelos pesquisadores do V-Dem, o mais completo banco de dados de um observatório da democracia no mundo.
A censura está presente em pelo menos 42 governos atualmente, de acordo com o Democracy Report 2022, divulgado nesta semana. É o segundo indicador de declínio da democracia mais presente no mundo, atrás apenas da repressão a organizações da sociedade civil. O assédio a jornalistas é o sexto fator de preocupação rumo a autocracias, com mais de 35 países registrando casos do tipo.
No caso da Rússia, o indicador que mede se o governo tenta, direta ou indiretamente, censurar veículos de mídia impressa ou emissoras de rádio e televisão deixou um patamar de casos específicos e de maior sensibilidade, em 1999, para uma atuação direta e rotineira contra a imprensa livre. O dado, que varia entre 0 e 4 e representa mais liberdade quanto maior for o número, caiu de 2,270 quando Putin chega ao poder para 0,252 em 2021.
Cenário semelhante, ainda que com menos intensidade, se repete no aspecto do assédio aos jornalistas. Se, em 1999, o ambiente era mais próximo de uma situação em que parte dos profissionais críticos aos poderosos era impedida de continuar seu trabalho, mas outros preservavam alguma liberdade de ação, atualmente o indicador mostra que são exceções os casos em que reportagens negativas aos governantes não são proibidas pelo governo e que seus autores não são ameaçados ou alvo de práticas ainda piores. De 1999 a 2011, o indicador não ficou abaixo de 1,5, mas hoje está no nível mais baixo da série, com 1,265.
Em uma situação de guerra como a vivida atualmente na Ucrânia, por iniciativa da Rússia, a tendência é de aumento das restrições à atividade jornalística, como tem sido registrado desde a invasão do país, em 24 de fevereiro.
Desinformação deliberada
O relatório também aponta para o aumento do uso de desinformação por parte dos governos para influenciar a opinião pública dentro e fora dos territórios. Nesse ponto, a Rússia também vem apresentando piora constante desde que Putin chegou ao poder. Os indicadores do V-Dem quantificam e tornam comparável com outras nações o que a conjuntura de guerra contra a Ucrânia e o suporte ao governo de Belarus materializam.
No principal indicador do V-Dem, o Índice de Democracia Liberal (LDI, na sigla em inglês), a Rússia está na 151ª posição entre 179 países listados – a Ucrânia ficou no 99º lugar, na metade inferior das nações, mas considerada uma democracia eleitoral. O regime de Putin é tratado pelos estudiosos como uma autocracia eleitoral.


