“Descansando”, demitido, dado como morto: sumiço de generais mostra declínio do exército russo
País enfrenta problemas na linha de frente de combate em solo ucraniano
Perder um general durante uma guerra que vai mal pode ser lamentável, mas perder dois em 24 horas parece descuido. Mas foi isso que aconteceu com o comando russo no sul da Ucrânia – e os dois casos ilustram outras deficiências e divergências entre a liderança militar da Rússia.
Na manhã da terça-feira (11), um míssil ucraniano atingiu um hotel em Berdyansk, cidade costeira que havia sido tomada por militares russos.
Uma das vítimas russas reportadas foi o tenente-general Oleg Tsokov, vice-comandante do Distrito Militar do Sul e uma figura-chave na defesa russa das áreas ocupadas no sul da Ucrânia. Acredita-se que ele tenha sido o militar de mais alta patente entre os cerca de 10 generais russos mortos na Ucrânia até o momento.
Aparentemente, não era segredo que o 58º Batalhão de Armas Combinadas tinha transformado o hotel Dune em seu quartel-general – mas Tsokov se mudou mesmo assim. E isso depois de ter sido gravemente ferido no outono passado, num ataque ucraniano perto de Svatove.
O 58º Batalhão é um componente essencial na defesa das linhas de frente na região ocidental de Zaporizhzhia, onde as forças ucranianas estão tentando avançar com sua contraofensiva.
Mas o pior estava por vir.
No final da quarta-feira (12), foi divulgada uma mensagem de áudio de quatro minutos do major-general Ivan Popov, comandante do 58º Batalhão, na qual ele protestava contra o que chamou de traição da liderança militar russa e as insuficiências que estão causando baixas em massa entre seus homens.

Sua mensagem afirmava que as defesas russas apresentavam grandes deficiências, algo que os ucranianos estão claramente tentando agravar com uma abordagem recalibrada que dá ênfase a um sistema de fogo de longo alcance contra as posições da retaguarda russa.
Popov disse que levantou questões sobre "a falta de fogo de contrabateria", a ausência de estações de reconhecimento de artilharia e as mortes e ferimentos em massa de irmãos por artilharia inimiga. Levantei também uma série de outros problemas e expressei tudo no mais alto nível".
As queixas de Popov, de acordo com o Instituto para o Estudo da Guerra, podem expor problemas para os russos – que "carecem de reservas operacionais que lhes permitam efetuar rotações de pessoal para se defenderem das contraofensivas ucranianas, e que as linhas de defesa russas podem ser frágeis".
Mas Popov ainda não tinha terminado. Ele prosseguiu com o que parece ter sido um ataque amargo ao chefe de estado-maior das forças armadas russas, Valery Gerasimov.
"As forças armadas da Ucrânia não conseguiram romper nosso exército pela frente, [mas] nosso comandante mais antigo nos atingiu pelas costas, decapitando o exército de forma traiçoeira e vil no momento mais difícil e tenso".
Popov ainda incluiu o ministro da Defesa, Sergei Shoigu, em sua crítica. "Aparentemente, os comandantes seniores sentiram o perigo que eu representava e rapidamente, num só dia, elaboraram uma ordem para o ministro da Defesa, me retiraram da ordem e se livraram de mim", declarou.
"Apoio colossal"
Blogueiros militares russos sugeriram que tanto Tsokov quanto Popov eram soldados capazes que inspiravam lealdade entre seus homens. Tsokov, 51, parece ter sido uma estrela em ascensão nas forças armadas russas. Em 2021, discursou para cadetes militares numa cerimônia no Kremlin, com a presença do presidente Vladimir Putin.
O blogueiro militar Rybar observou em um longo comentário que "Popov goza de apoio colossal das tropas: os combatentes na linha de frente ficaram muito desmoralizados com a notícia sobre a demissão do 'simples', 'claro' e honesto general Popov".
As últimas palavras de Popov como comandante foram de fato dedicadas às suas tropas. "Boa noite, meus queridos gladiadores, parentes amados, uma só família", exaltou. "Estarei sempre disponível para vocês. É uma honra para mim lutar a seu lado nas mesmas linhas".
Perder comandantes que inspiram lealdade não é apenas descuido. É potencialmente perigoso.
E as dificuldades do 58º Batalhão não são exemplos isolados. O motim do grupo Wagner no fim de junho questionou a eficácia e a lealdade de várias figuras de alto escalão, várias das quais não foram vistas desde então.
Durante a rebelião, o general Oleg Surovikin, chefe das Forças Aeroespaciais da Rússia, apareceu em um vídeo com um ar desalinhado e apelando ao chefe do grupo Wagner, Yevgeny Prigozhin, para que parasse com sua revolta. Surovikin tinha boas relações com Prigozhin, que havia manifestado sua admiração pelo general.
De fato, foi Surovikin quem organizou uma retirada ordenada de Kherson em novembro passado e recebeu elogios por isso, depois de ter sido nomeado chefe das forças russas na Ucrânia.
Mas, em janeiro, foi substituído. E ele não foi visto desde o motim do grupo Wagner. Em meio a intensas especulações sobre seu estado, o chefe do Comitê de Defesa da Duma, Andrei Kartapolov, disse na quarta-feira (12) que estava "descansando" e que não estava disponível – uma situação curiosa para se estar no meio de uma guerra que não está indo bem. O Kremlin encaminhou as perguntas sobre Surovikin para o Ministério da Defesa.
Na quinta-feira (13), Kartapolov se viu respondendo a mais perguntas, desta vez sobre Popov.
"Tenho certeza de que eles vão resolver [os problemas]", afirmou. "Popov devia servir no exército. É um general promissor. Ele tem tudo pela frente". (Kartapolov chegou a comandar o 58º Batalhão de Armas Combinadas.)
Mas Kartapolov também tinha o que pode ser visto como uma mensagem velada para o Ministério da Defesa, acrescentando no Telegram: "A competência mais importante de qualquer chefe é a capacidade de enxergar os problemas e de ouvir seus subordinados. Por isso, penso que aqueles que deveriam fazer isso ouviram, viram e tomarão uma atitude".
Incerteza e confusão
A ecosfera de blogueiros militares russos é menos reticente.
Não é a primeira vez que eles levantam o espectro de que a hierarquia está mergulhada num acerto de contas. Um dos blogueiros mais proeminentes, Rybar, disse que o destino de Popov ilustra uma "caça às bruxas" que começou após o motim de Prigozhin.
Um meio de comunicação não oficial – VChK-OGPU – afirmou na quarta-feira (12) que uma "guerra" no seio do Ministério da Defesa continua. O veículo alegou que foi Gerasimov quem exigiu o afastamento de Popov, acusando-o de "alarmismo e chantagem contra a liderança".
O VChK-OGPU argumentou que Popov ameaçou dirigir-se diretamente ao presidente Vladimir Putin com seu protesto – e que Gerasimov "o destituiu de seu posto e o enviou para a linha de frente".
O paradeiro de Popov é desconhecido.
Em meio a toda a incerteza e confusão, o Ministério da Defesa mantém um silêncio monástico. Nenhuma palavra sobre Tsokov dois dias depois de ter sido morto; nenhuma contenção de danos sobre a demissão dramática de Popov. Nenhum comentário sobre o paradeiro de Surovikin.
O que o Ministério da Defesa apresenta, quando sua liderança é questionada, são aparições bem coreografadas do ministro da Defesa, Sergei Shoigu, e do normalmente invisível Gerasimov. Pouco tempo depois do motim, Shoigu foi visto em uma visita de inspeção em algum lugar da Ucrânia (embora a data exata do vídeo permaneça em aberto).
Enquanto corriam boatos sobre Surovikin, Gerasimov foi visto com destaque em uma teleconferência com o vice de Surovikin: uma demonstração de que estava no comando e talvez uma indicação de que Surovikin havia caído em desgraça.
Dara Massicot, especialista em assuntos militares russos da RAND Corporation, disse na época: "A escolha de destacar apenas uma atualização bastante monótona da VKS [forças aéreas e espaciais], dados os rumores que circulam sobre o estado de Surovikin, é muito provavelmente deliberada".
Em um tuíte no dia 10 de julho, Massicot acrescentou: "O road show do 'está tudo bem, sou um bom ministro da Defesa' continua, com Shoigu de repente visitando um campo de treinamento neste fim de semana".
O blogueiro Rybar ressaltou o mesmo assunto, dizendo na quarta-feira (12) que "é muito difícil negar o fato de que agora a liderança do Ministério da Defesa russo se baseia em relatórios positivos, que deveriam interromper o negativo".
Rybar então fez uma reflexão final. “O conflito entre Popov e Gerasimov põe em evidência o essencial: a falta de unidade das Forças Armadas russas. E o inimigo vai certamente tirar partido disso. E, claro, a Rússia vai sofrer com isso. E isso é o mais triste".
Especialistas ocidentais afirmam que uma cultura de rivalidades mesquinhas, em parte impulsionada pela corrupção endêmica, permeia o Ministério da Defesa e muitos escalões das forças armadas, apesar das necessidades urgentes da campanha na Ucrânia.
Há também relatos em série de incompetência e crueldade entre os comandantes seniores. Um exemplo: o fiasco de um ataque à cidade de Vuhledar em janeiro, o segundo desastre presidido pelo mesmo comandante.
No ano passado, houve a tentativa caótica de atravessar um rio no leste da Ucrânia, que terminou com a perda da maior parte do grupo tático de um batalhão.
E ainda houve a surreal saga de Prigozhin. No início de seu motim, o líder do grupo Wagner repreendeu (em vídeo) dois oficiais militares de alto escalão e também deixou claro que seu objetivo era a demissão de Shoigu e Gerasimov, a quem ele detestava visceralmente.
Cinco dias depois, de acordo com o Kremlin, Prigozhin e seus comandantes seniores tiveram uma reunião de três horas com o presidente Putin (que havia equiparado o motim a uma traição) para discutir seus problemas. A expressão "sinais contraditórios" vem à mente.
Qualquer campanha militar sofrerá contratempos e confusão. Mas a invasão russa na Ucrânia raramente foi caracterizada por uma liderança ágil e coerente.
E a perda de comandantes mais capazes é outro sinal de que a "operação militar especial" da Rússia está parecendo menos especial a cada semana.



