Dez anos depois, Líbia se depara com uma estranha saudade de Gaddafi

Líder cruel morreu em 2011 e país, desde então, vive uma divisão caótica, que não existia sob a mão de ferro do ditador que mantinha a nação unida

Muammar Gaddafi assiste à parada militar de 30 anos da revolução, em 1999: crueldade com que o ditador governou só é comparável com a com que foi brutalmente assassinado
Muammar Gaddafi assiste à parada militar de 30 anos da revolução, em 1999: crueldade com que o ditador governou só é comparável com a com que foi brutalmente assassinado Georges MERILLON/Gamma-Rapho via Getty Images

Lourival Sant'Annada CNN

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No dia 20 de outubro de 2011, Muammar Gaddafi foi brutalmente morto, numa explosão de ódio e com um requinte de crueldade só comparável à forma como ele próprio governara a Líbia durante quatro décadas.

Dez anos depois, os líbios se preparam para eleger um novo presidente, e um dos favoritos é Seif al-Islam, o filho que Gaddafi preparava para sucedê-lo. O que aconteceu para que muitos líbios quisessem voltar a um regime do qual tiveram que derramar tanto sangue para se livrar?

Ao ser encontrado em uma tubulação de esgoto em Sirte, sua cidade natal, armado com a pistola de ouro que simbolizava seu poder absoluto, Gaddafi, visivelmente confuso, foi arrastado pela rua, enquanto um rebelde enfiava um objeto, provavelmente a baioneta de um fuzil, em seu ânus, na terrível tradição da Antiguidade da sodomização forçada, a execução com a perda da dignidade. Por mais chocante, essa cena não me surpreendeu.

Em duas idas à Líbia naquele ano, que somaram seis semanas, eu cobri o início da guerra civil, no leste do país, e depois a deposição do regime, em Trípoli, em agosto. Os líbios me contaram histórias do regime que criaram dentro de mim a imagem de um hospício em que todos os internos — os 4 milhões de líbios — eram mentalmente sãos, mas tinham de se comportar como loucos, para satisfazer o delírio dos “diretores” do hospital, Gaddaffi, seus filhos e auxiliares próximos.

Alguns me levaram às celas do presídio de Abu Salim, em Trípoli, e mostraram o sangue com que eles próprios escreveram mensagens nas paredes, depois das sessões de tortura. Uma história que ouvi repetidas vezes, foi que eles suplicavam aos torturadores “por Deus”, e ouviam a resposta: “Deus? Aqui não existe Deus. Só existe Gaddafi”.

Exatamente como em outras ditaduras árabes — Egito, Tunísia, Síria e Iraque — que eliminaram toda oposição secular, restando a resistência religiosa, para ser preso era suficiente ir à mesquita cinco vezes ao dia, como prevê a tradição islâmica, e deixar a barba crescer.

Mas nada marcou mais a população do que as punições coletivas do regime. Os moradores de Benghazi, a segunda maior cidade do país, com 1 milhão de habitantes, e epicentro da oposição, contavam sobre os castigos impostos por Gaddafi: a inoculação do vírus da aids em 400 bebês em um hospital, a derrubada de um avião comercial na rota para Trípoli, com 200 passageiros mortos, o despejo do esgoto no Lago de Benghazi.

Os jovens combatentes com os quais eu convivi na linha de frente da guerra civil me explicavam assim a sua decisão de arriscar a vida em combate desigual, no qual enfrentavam mísseis e tanques com fuzis que nunca tinham empunhado antes: “Não vale a pena viver sem dignidade. É melhor morrer lutando do que ser escravo”.

Mas o sonho de liberdade, democracia e justiça não se materializou depois da queda de Trípoli, que eu presenciei, em mais uma batalha sangrenta, embora curta, ao redor do dia 20 de agosto. A Líbia deixou de existir como país, e voltou a ser um aglomerado de alianças de tribos e de cidades. Já estava claro que isso aconteceria nas semanas que se seguiram à queda de Trípoli. Eu perguntava aos líderes das brigadas, se eles não entregariam as armas e voltariam para suas cidades de origem, e eles respondiam: “Precisamos ficar em Trípoli para a divisão do poder”.

Essa divisão acabou resultando em dois grandes grupos rivais: o governo do primeiro-ministro Fayez Sarraj, instalado em Trípoli em dezembro de 2015 mediante um acordo mediado pela ONU, e a frente comandada pelo general Khalifa Haftar, no leste do país. Isso depois que o resultado das eleições de outubro de 2014 não foi aceito.

Sarraj tem o apoio da Turquia e de grupos islâmicos radicais. Khalifa, contrário à mistura entre política e religião, é apoiado pela França, Rússia, Egito e Emirados Árabes Unidos.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, foi a Trípoli em abril de 2019, tentar mediar uma saída negociada do conflito. No entanto, foi ele que teve que sair às pressas da capital líbia, quando as forças de Haftar, que cercavam a cidade, começaram a bombardeá-la. É essa violência e caos que leva muitos líbios a sentir saudade do tempo em que Gaddafi mantinha o país unido e estável, sob sua mão de ferro.

Em fevereiro deste ano, Sarraj deixou o cargo e o país, abrindo caminho para um acordo com o grupo de Haftar, que culminou na decisão do Parlamento, no início deste mês, de realizar as eleições no dia 24 de dezembro. Pode ser uma chance de um novo começo para os líbios. Ou a volta a um passado sombrio.

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