Documentos secretos ligam assassinos de jornalista a empresa de príncipe saudita

Documentos oficiais apontam que aviões usados por assassinos de Jamal Khashoggi pertenciam a uma empresa que foi confiscada pelo príncipe herdeiro em 2017

O jornalista saudita Jamal Khashoggi foi morto em Istambul
O jornalista saudita Jamal Khashoggi foi morto em Istambul Foto: Twitter/ Reprodução

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Os dois jatos particulares usados pelo esquadrão de assassinos da Arábia Saudita que matou e supostamente esquartejou o jornalista Jamal Khashoggi eram de propriedade de uma empresa que há menos de um ano havia sido confiscada pelo poderoso príncipe herdeiro do reino, Mohammed bin Salman, segundo documentos oficiais apresentados recentemente e que foram acessados pela CNN.

Os documentos, apresentados como parte de uma ação civil canadense no início deste ano, são classificados como ultrassecretos e assinados por um ministro saudita, que transmitiu as ordens do príncipe herdeiro, que é quem, de fato, governa a Arábia Saudita. 

“De acordo com as instruções de Sua Alteza, o Príncipe Herdeiro”, escreveu o ministro em texto que foi traduzido pelos canadenses, “aprove imediatamente a conclusão dos procedimentos necessários para isso”.

Empresa transferida

O processo descreve como a propriedade da Sky Prime Aviation foi transferida para o fundo soberano de US$ 400 bilhões (aproximadamente R$ 2,1 trilhões) do país no final de 2017. Os aviões da empresa foram usados posteriormente no assassinato de Khashoggi, em outubro de 2018.

O fundo de riqueza soberana da Arábia Saudita, conhecido como Fundo de Investimento Público, é controlado pela coroa saudita e presidido pelo príncipe herdeiro, também nomeado como MBS. 

Os documentos que estabelecem a ligação entre os aviões e o príncipe foram apresentados por um grupo de empresas estatais sauditas como parte de um processo de peculato, aberto no mês passado no Canadá, contra um ex-funcionário de alto escalão da inteligência saudita, Saad Aljabri.

As acusações de apropriação indébita contra Aljabri surgiram após uma ação que ele ajuizou no ano passado, em Washington, na Corte Distrital, contra o príncipe saudita. 

Aljabri acusou o príncipe herdeiro de enviar uma equipe de assassinos para matá-lo no Canadá poucos dias após o assassinato de Khashoggi. Salman foi intimado pelo WhatsApp, mas, em dezembro, um advogado do príncipe pediu ao tribunal que encerrasse o caso.

A evidência de que a propriedade da frota de aviões privados foi transferida para o Fundo de Investimento Público da Arábia Saudita não havia sido apresentada anteriormente. Ela pressupõe outro elo entre a morte de Khashoggi e Salman. 

Em outubro de 2018, depois do assassinato de Khashoggi, o Wall Street Journal, citando fontes familiarizadas com o assunto, relatou que os jatos Gulfstream usados pelos assassinos pertenciam a uma empresa controlada pelo príncipe. 

“Ele estaria rastreando [a empresa] e sabendo como ela era usada”, disse Dan Hoffman, ex-diretor da divisão do Oriente Médio da CIA, sobre o poderoso príncipe herdeiro. “Essa é apenas mais uma potencial evidência de que ele estava por dentro disso. O que sempre foi o ponto controverso. Essa é apenas mais uma evidência disso.”

Já na próxima quinta-feira (25), a inteligência americana deve divulgar um relatório bastante aguardado com os novos detalhes públicos sobre os responsáveis pela morte de Khashoggi. 

Logo depois de o jornalista saudita ser morto no consulado saudita em Istambul, a CIA estava convicta que o príncipe havia ordenado pessoalmente o assassinato, mas os funcionários da inteligência nunca falaram publicamente ou apresentaram provas. Um investigador das Nações Unidas avaliou, em junho de 2019, ser “inconcebível” que Salman não tivesse conhecimento da operação.

As autoridades sauditas em Washington e Riad não responderam imediatamente às novas revelações. Salman negou que ele tenha ordenado o assassinato de Khashoggi, mas disse que ele assume a responsabilidade. Oito suspeitos foram condenados à prisão em ato que o investigador da ONU comparou a uma “paródia”.

Evidências

O secretário de imprensa da Casa Branca, Jen Psaki, disse, na semana passada, que o presidente Joe Biden está trabalhando para “recalibrar” a relação americana com a Arábia Saudita e pretende se comunicar com o rei saudita Salman bin Abdulaziz Al-Saud e não com seu filho, o príncipe herdeiro.

Faisal Gill, advogado da ex-noiva de Khashoggi, e uma organização sem fins lucrativos que abriu um processo federal contra o príncipe e mais de 20 corréus, disse que sua cliente ficou “agradavelmente surpresa” que as evidências do controle da Sky Prime Aviation por Salman foram reveladas.

“Qualquer evidência que basicamente ligue o MBS e outros, especialmente de forma direta, é extremamente importante”, disse Gill.

“[Salman] queria usar uma empresa que ele controla, de um fundo que ele controla totalmente, na esperança de que aquilo não vazasse”, acrescentou Gill. “Isso, para mim, não é apenas uma linha direta para a morte de Jamal, mas também uma linha direta dele tentando encobrir isso, usando uma companhia de aviação sobre a qual ele tem total controle.”

A Sky Prime Aviation opera os dois jatos corporativos da Gulfstream que fizeram o voo de ida e volta a Istambul com a maior parte de uma equipe de 15 homens, de acordo com dados da aviação pública e um relatório das Nações Unidas sobre a morte de Khashoggi.

De acordo com o relatório da ONU, depois que Khashoggi foi morto dentro do consulado saudita em Istambul, em 2 de outubro, os assassinos fugiram rapidamente e seguiram para os aviões. 

Um jato, com a cauda número HZ-SK1, tinha acabado de pousar naquela noite. Uma hora e 15 minutos após o pouso, ele estava de volta ao ar com seis membros da equipe saudita. Quatro horas e meia depois, o segundo avião, cauda número HZ-SK2, decolou do aeroporto Ataturk com mais sete homens a bordo, disse o relatório da ONU.

No caminho de volta a Riad, o primeiro jato voou pelo Cairo e o segundo por Dubai. Os dois últimos membros da equipe de assassinos voaram comercialmente de Istambul para Riad.

Urgência

A Sky Prime Aviation era comandada pelo genro de Aljabri, Salem Almuzaini. De acordo com uma denúncia alterada apresentada este mês por Aljabri contra Salman, em Washington DC, Almuzaini foi sequestrado em Dubai em setembro de 2017 e devolvido à força para a Arábia Saudita.

Por vários meses, Aljabri disse que Almuzaini foi torturado e abusado, de acordo com a denúncia, inclusive por um importante assessor do príncipe herdeiro, implicado no assassinato de Khashoggi. 

Por fim, Almuzaini foi transferido para o Ritz-Carlton de Riad, onde Salman deteve cerca de 200 membros da realeza saudita, funcionários e executivos em nome de uma campanha anticorrupção. O estado afirma ter confiscado cerca de US$ 100 bilhões (cerca de R$ 540 bilhões) em acordos.

Os documentos que ordenam a transferência da Sky Prime Aviation, em dezembro de 2017, incluem o selo da palmeira do reino saudita, com espadas cruzadas e as palavras “MUITO SECRETO, NÃO CIRCULAR E MUITO URGENTE”, de acordo com a tradução fornecida ao tribunal. Outro documento de transferência de ações é assinado por Almuzaini, cujo paradeiro atual é desconhecido.

As cartas ordenando a transferência são assinadas por Mohammed Al-Alsheikh, outro membro do conselho do fundo, que faz parte do Conselho de Ministros, de acordo com o website do fundo.

Dois outros funcionários graduados do fundo receberam as notas, uma das quais é manuscrita e inclui instruções “para fazer o que for necessário o mais rápido possível para fazer a transferência da propriedade das empresas”.

A Sky Prime Aviation, três de suas afiliadas da Sky e outras 16 empresas foram transferidas para o controle do fundo por Alsheikh.

Era tão importante para o príncipe herdeiro que o fundo assumisse o controle das empresas que “Sua Alteza deve ser mantido a par do que está sendo feito”, escreveu Alsheikh. 

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