Domesticamente, imagem de Biden já sofreu um abalo significativo, diz professor

À CNN, especialista em política americana analisa que saída dos EUA do Afeganistão marca o fim da era do 11 de Setembro

Produzido por Renata Souzada CNN

em São Paulo

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Na última semana, o Estado Islâmico de Khorasan realizou um ataque em Cabul que deixou 13 militares americanos mortos. Os corpos dos soldados chegaram aos Estados Unidos neste domingo (28) e foram recebidos em cerimônia pelo presidente Joe Biden. Hoje, os Estados Unidos realizaram um novo ataque contra o Estado Islâmico de Khorasan nos arredores do aeroporto internacional Hamid Karzai, onde estava localizado um carro-bomba do grupo, que planejava um novo ataque terrorista.

Para o especialista em política americana Carlos Gustavo Poggio, doutor em Relações Internacionais e professor da Faap, a saída apressada dos Estados Unidos vem sendo criticada internamente e o líder democrata já vem sofrendo queda de popularidade. “Se a questão do Afeganistão vai se tornar um legado negativo para o Biden, ou se isso será esquecido, não se sabe, mas agora, neste momento, no curto prazo, o impacto político é muito ruim, ele está inclusive sendo criticado por membros do próprio partido”, disse Poggio à CNN.

O professor explica que os países aliados aos Estados Unidos, como França, Alemanha e Reino Unido, também criticaram a maneira como foi feita a retirada. “A saída parece que foi feita de forma um pouco apressada e sem a articulação com aliados. Essa é a impressão que a gente tem e, inclusive, vem de comentários importantes, como o do Reino Unido.”

Carlos enfatiza que, para além da empatia que vem sendo observada no gesto de Biden na cerimônia com os familiares dos soldados mortos, outro tema de destaque em sua campanha para presidente foi a “competência” dos Estados Unidos.

De acordo com o professor, este é o momento do democrata “redefinir o seu legado” e, em sua avaliação, chegou o fim da “era 11 de Setembro”. Carlos quer dizer com isso que, a partir da saída das tropas americanas do Afeganistão, os EUA estão redirecionando sua política externa para outras pautas.

“Biden parece absolutamente decidido a sair do Afeganistão. A visão do Biden de política externa me parece uma visão que marca o início de uma nova era da política externa norte-americana. É o fim da era do 11 de Setembro. Ele parece, agora, querer focar na disputa de grandes potências, na questão geopolítica com a China e outras questões que ele julga mais importantes.”

Os drones, ferramenta muito utilizada na administração Obama, deverão passar a ser mais utilizados com o objetivo de proteger a vida dos militares norte-americanos durante os ataques. “Ele deve manter um tipo de envolvimento no Afeganistão que não dependa de tropas em terras. Uma questão que não havia 20 anos atrás era este desenvolvimento bastante alto dos drones, veículo que não necessita de piloto, você consegue com uma distância bastante grande, com pouquíssimo risco para vidas americanas — mas muito risco para a vida civis dos lugares que são atacados –, você consegue fazer ataques bastante focados.”

População afegã

Carlos Gustavo Poggio acredita que a governança dos Talibãs dependerá de como eles se prepararam para a retomada do poder, já que desde que eles deixaram de atuar no início dos anos 2000, mudanças estruturais na sociedade foram firmadas.

Um dos desafios será o enfrentamento de facções internas que vão querer desafiar o Talibã e um dos principais grupos é justamente o Estado Islâmico-K. “O Estado Islâmico ao fazer este atentado, ele tem como alvo não apenas os Estados Unidos, mas também o próprio Talibã. Eles querem mostrar que o Talibã está fraco. Ou seja, se o Talibã é o responsável pela segurança no aeroporto e não foram capazes de garantir essa segurança, eles querem demonstrar que o Talibã está fraco e portanto querem voltar a ganhar alguma relevância na população.”

Em relação aos direitos civis, o especialista explica que a maior parte da população é jovem e não viveu sob o regime talibã, além disso, houve um aumento da participação civil, sobretudo das mulheres afegãs, na política. “Você tinha mulheres deputadas e, se não me engano, as duas últimas embaixadoras em Washington, do Afeganistão, eram mulheres. Houve um avanço do ponto de vista educacional. Na Universidade de Cabul metade dos estudantes são mulheres. A grande preocupação agora é como essa sociedade que é ligeiramente educada e mais participativa na vida política do país, vai reagir ao governo Talibã.”

Carlos Gustavo Poggio, doutor em Relações Internacionais (professor da FAAP), especialista em política americana (29-08-2021) / CNN / Reprodução

*(sob supervisão de Elis Franco)

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