Trump e Biden lutam pelo centro-oeste dos EUA em plena piora da pandemia

Entenda por que a região centro-oeste dos Estados Unidos é decisiva para as eleições presidenciais da próxima semana

Maeve Reston, CNN
30 de outubro de 2020 às 19:41 | Atualizado 30 de outubro de 2020 às 21:12

 

 O ex-vice-presidente Joe Biden e o presidente Donald Trump moveram o campo de batalha para a região crítica do centro-oeste dos EUA na última sexta-feira (30) antes da eleição presidencial. Os dois estiveram em Wisconsin e Minnesota num momento em que Biden expande o mapa eleitoral, cortejando os eleitores operários que apoiaram Trump em 2016.

Trump fez sua primeira parada em Waterford Township, Michigan, na sexta, jogando bonés com a inscrição “MAGA” (de “Make America Great Again”) para a multidão, horas depois que os EUA ultrapassaram um recorde diário com mais de 88 mil novos casos de coronavírus na quinta-feira (29).

Depois de minimizar o aumento do número de infecções, Trump reclamou que as restrições em Minnesota reduziriam seus planos para o comício final do dia em Rochester, Minnesota, onde autoridades democratas do estado, aderindo às regras da secretaria estadual de saúde, insistiram que a multidão deve ser limitada a 250 pessoas.

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“Estamos tendo problemas com algumas pessoas em Minnesota”, disse o presidente a repórteres ao deixar a Casa Branca na sexta-feira de manhã. A campanha culpou “os ditames sufocantes da liberdade de expressão” que não permitiriam que a reunião de 25 mil pessoas que Trump afirmara que iriam ao local.

Os republicanos obtiveram uma vitória em Minnesota na noite de quinta, quando um tribunal federal de apelações determinou que as cédulas enviadas pelo correio no estado devem ser recebidas pelos agentes eleitorais até o dia da eleição. Embora não tenha havido tantas pesquisas em Minnesota, a pesquisa do Washington Post/ABC News, no mês passado, mostrava Trump abaixo em dois dígitos.

Os dois candidatos estão se cruzando no centro-oeste no momento em Biden tenta fortalecer sua liderança nesses estados e estabelecer sua conexão com os eleitores da classe trabalhadora que Hillary Clinton negligenciou nos últimos dias de sua corrida contra Trump, quatro anos atrás. O ex-vice-presidente está gastando muito tempo em estados vencidos por Trump em 2016, já que sua equipe contempla vários caminhos para que ele conquiste os 270 votos eleitorais necessários para a vitória, com democratas garantindo também assentos na Câmara e no Senado.

Se Biden não for capaz de virar o jogo nos campos de batalha conquistados por Trump há quatro anos, como Flórida, Carolina do Norte e Geórgia, ele poderia abrir caminho para a Casa Branca reconstruindo a parede azul dos democratas nessa região (conhecida como Cinturão da Ferrugem), capturando Wisconsin, Michigan e Pensilvânia e mantendo Minnesota na coluna democrata.

Trump venceu esses três estados do centro-oeste por menos de um ponto percentual em 2016. O parentesco de Biden com os eleitores operários que vivem em cidades da classe trabalhadora como Scranton, Pensilvânia, onde viveu quando menino, foi um dos principais argumentos nas primárias democratas, momento em que ele cultivava a imagem de “Joe da classe média”.

Enquanto Trump fazia e faz campanha, tanto em 2016 quanto em 2020, como sendo uma voz para os “homens e mulheres esquecidos” que vivem nessas comunidades, Biden argumenta que o presidente ignorou suas necessidades enquanto ajudava seus aliados ricos. A imagem recorrente evocada pelos democratas é a de uma disputa entre Scranton (a cidade classe média de Biden) contra Park Avenue (a avenida dos magnatas de Manhattan, como Trump). Por sua vez, Trump argumentou que Biden favoreceu políticas comerciais que enviaram empregos para o exterior e abriram a fronteira em detrimento dos eleitores da classe trabalhadora.

Biden conseguiu cortar as margens de Trump com eleitores brancos que não possuem diploma universitário – uma tendência que ele espera acelerar nos últimos dias da campanha ao visitar estados do centro oeste que incluem Iowa, Michigan e Wisconsin.

Mas Trump atacou os esforços de Biden na sexta-feira ao insistir que os eventos da campanha democrata não têm energia e dizendo ao povo de Michigan, enganosamente, que “ainda estamos dobrando a esquina” no que diz respeito ao coronavírus.

“Daqui a quatro dias vamos ganhar este estado e vamos ganhar mais quatro anos na Casa Branca”, bradou Trump em Michigan. “Vai ser uma vitória como nenhuma outra”.

Trump divulgou números econômicos positivos esta semana, prometendo que continuaria a criar “empregos, empregos, empregos” após o dia das eleições. No discurso em Waterford Township, o presidente disse que o histórico de Biden nos acordos comerciais demonstrava que ele não se importa com “trabalhadores”.

“A cada passo, Biden cravou a faca nas costas dos trabalhadores de Michigan”, afirmou Trump na sexta-feira.

Durante a semana final de gastos com publicidade, o esforço conjunto de Biden e do Comitê Nacional Democrata está investindo mais na Flórida do que em qualquer outro estado (US$ 8,6 milhões). Do outro lado da disputa, Trump e o Comitê Nacional Republicano estão gastando mais em Michigan (US$ 7,2 milhões) do que em qualquer outro estado.

Biden manteve uma grande vantagem na arrecadação de verbas sobre Trump nos meses finais da campanha. O esforço democrata está a caminho de superar o esforço de gastos do Partido Republicano em quase US$ 20 milhões na semana final, de acordo com uma análise dos dados da CMAG/Kantar Media obtida por David Wright da CNN.

Batalha pela Flórida

Poucos estados indecisos são tão importantes quanto a Flórida, valorizada por seus 29 votos eleitorais e seu papel como barômetro nacional. Foi lá que os dois candidatos se enfrentaram na quinta-feira (29), dia em que os casos de coronavírus aumentavam imensamente. O caminho de Trump para a reeleição é virtualmente impossível sem uma vitória ali.

Ressaltando a importância do estado, a visita de Biden à Flórida nesse dia foi precedida por eventos nas vésperas trazendo o ex-presidente Barack Obama, que ganhou no estado duas vezes. Já a candidata a vice-presidente Kamala Harris fará campanha no sábado nos condados de Miami-Dade, Broward e Palm Beach para tentar levar os eleitores às urnas no fim de semana final da votação antecipada.

Numa época em que milhões de eleitores já depositaram suas cédulas na Flórida, a campanha de Biden despachou o candidato para estimular a participação no confiável reduto democrata do condado de Broward e, em seguida, reuniu os eleitores com um megafone em um centro de ativação eleitoral em Fort Lauderdale. O dia terminou no corredor crítico de Tampa, onde o presidente Trump havia parado poucas horas antes.

No comício socialmente distante no condado de Broward, no sul da Flórida (onde Biden agradeceu aos participantes por usarem máscaras e ficarem a dois metros de distância), o ex-vice-presidente pediu aos moradores do estado que mudassem o curso da pandemia e escolhessem “a ciência em vez da ficção”, usando seu estado para bloquear o caminho de Trump para a reeleição.

“O coração e a alma deste país estão em jogo na Flórida. Vocês decidem. Vocês têm a chave”, disse Biden a um grupo diversificado de eleitores. “Se a Flórida ficar azul, acabou. Acabou”.

Trump, que venceu a Flórida com pouco mais de 100 mil votos na campanha contra Hillary Clinton, argumentou que eleger Biden levaria a um lockdown nacional e ao subsequente colapso econômico por causa de sua abordagem mais conservadora do vírus.

Ele previu que os EUA veriam “a maior onda vermelha” (a cor dos republicanos) da história na terça-feira, dia da eleição: “Daqui a cinco dias, vamos vencer a Flórida e ganhar mais quatro anos na Casa Branca”, disse Trump durante o comício de Tampa, onde apareceu com sua esposa, a primeira-dama Melania Trump.

Embora Biden tenha tido que interromper seu comício final em Tampa por causa de uma chuva torrencial, ele continuou atacando as falsas alegações de Trump sobre a fraude eleitoral desenfreada. Biden vê essa tática como um esforço de Trump para suprimir a votação, particularmente em comunidades não brancas.

“Ele sabe que se, vocês votarem, ele não pode vencer. Ele sabe que quando os Estados Unidos votam, rejeitam pessoas como ele”, afirmou Biden em Coconut Creek na manhã de quinta-feira. “Escolhemos a esperança ao invés do medo. Escolhemos unidade em vez de divisão e escolhemos ciência em vez de ficção. E, sim, nós escolhemos a verdade em vez de mentiras”.

Mas, apesar de todo o otimismo de Trump sobre uma potencial “onda vermelha”, a pesquisa Poll of Polls da CNN mostra Biden liderando Trump na Flórida de 49% a 46%, sem contar a margem de erro de amostragem.

Na sexta-feira, o cenário parecia ainda mais sombrio para o presidente em Wisconsin, estado onde ganhou por menos de um ponto percentual em 2016 e onde Biden está à frente de Trump por uma margem de 9 pontos na pesquisa de opinião da CNN.

Trump zomba dos cuidados de Biden

Um dos perigos para Trump na Flórida é seu apoio em declínio entre os idosos, motivado em parte pela ampla desaprovação de seu tratamento ao coronavírus e pelo fato de que os eleitores mais velhos foram desproporcionalmente afetados pela Covid-19.

Apesar dessa vulnerabilidade, o presidente minimizou o aumento do número de casos de coronavírus durante seu grande comício em Tampa, no qual poucos apoiadores usavam máscaras e não havia distanciamento social. Em um momento, Trump disse aos participantes do comício: “Nós conhecemos a doença. Nós nos distanciamos socialmente. Fazemos todas as coisas que é preciso fazer... Se você chegar perto, use uma máscara”.

No entanto, Maegan Vazquez e Donald Judd, da CNN, relataram que a maioria da multidão de Trump em Tampa estava ombro a ombro, tão apertados que vários participantes necessitaram de atenção médica devido ao calor.

Trump também elogiou o governador da Flórida, Ron DeSantis, pela velocidade com que reabriu seu estado. A CNN noticiou esta semana que o governador republicano viajou com o médico Scott Atlas, o polêmico conselheiro de pandemia de Trump, por toda a Flórida no final de agosto, momento em que Atlas defendia a limitação dos testes do Covid-19 apenas para as pessoas que apresentavam sintomas. O impulso dos dois aliados de Trump para reduzir o número de testes coincidiu com uma queda abrupta nos testes na Flórida, e o estado agora está lutando com um novo pico de outono.

Na quinta-feira, Trump também zombou de Biden por seguir as diretrizes dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA e fez troça dos eventos de Biden onde os participantes são separados por círculos, bem como de seus comícios drive-in, onde os eleitores são solicitados a ficar em seus carros para garantir o distanciamento.

Enquanto se gabava de que seus próprios comícios poderiam atrair dezenas de milhares de pessoas (em um momento em que todos os especialistas médicos de renome pedem aos norte-americanos que evitem grandes reuniões), Trump afirmou que o menor comparecimento nos eventos de campanha de Biden é motivado pela falta de entusiasmo .

“Agora eles tentam dizer que é por causa da Covid”, disse Trump. “Dizem que o fato de ele não ter aparecido é por causa da Covid. Não, é porque ninguém aparece”, afirmou Trump, arrancando risadas em Tampa. “E eu acho que essa é a pesquisa final. E com base nos números que estamos obtendo, vamos nos sair muito bem na terça-feira”.

Biden criticou a exibição de diretrizes de segurança de Trump: “Donald Trump acaba de realizar um evento supercontagiante aqui novamente. Ele está espalhando mais do que apenas o coronavírus. Ele está espalhando divisão e discórdia”, disse Biden também em Tampa.

Anteriormente, no condado de Broward, Biden repreendeu Trump por se recusar a ouvir ciência e atribuiu a dor, o sofrimento e a perda de mais de 225 mil americanos à “negligência” de Trump.

“Milhões de pessoas estão sem trabalho, no limite. Não consigo ver a luz no fim do túnel e Donald Trump desistiu”, bradou. “Donald Trump acenou com a bandeira branca, abandonou nossas famílias e se rendeu ao vírus. Mas o povo norte-americano não desiste. Nós não nos entregamos. E certamente não nos acovardamos, nem eu irei em nenhuma circunstância”.

(Texto traduzido, clique aqui para ler o original em inglês).