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    Análise: especialistas criticam táticas da defesa de Trump em julgamento

    Advogados buscam destruir a credibilidade da testemunha ao invés de tentar provar que Trump não cometeu um crime

    Ex-advogado do ex-presidente dos EUA Donald Trump, Michael Cohen, em Nova York
    Ex-advogado do ex-presidente dos EUA Donald Trump, Michael Cohen, em Nova York 24/11/2023 REUTERS/Jeenah Moon

    Stephen Collinsonda CNN

    Não seria nenhuma surpresa se o júri do primeiro julgamento criminal de Donald Trump visse agora o seu ex-intermediário, Michael Cohen, como um troll profano das redes sociais e um mentiroso vingativo que sonha em ver atrás das grades o chefe que outrora ele adorou.

    Mas os jurados não precisam gostar de Cohen. Eles apenas precisam acreditar nele.

    O autodenominado ex-“capanga” de Trump foi alvo de um ataque contínuo do advogado de defesa Todd Blanche na terça-feira (14), em um interrogatório que pretendia destruir sua credibilidade como a principal testemunha do comportamento supostamente criminoso do ex-presidente. Ainda assim, ele não perdeu a compostura no depoimento. Até agora, o ex-assessor evitou armadilhas que prejudicariam fatalmente o caso.

    Cohen teve tempo para fazer um balanço na quarta-feira (15), dia de folga normal do julgamento, o que também deu à equipe de Trump a oportunidade de aprimorar sua abordagem.

    Cohen já implicou diretamente Trump no pagamento à estrela de cinema adulto Stormy Daniels para encobrir o um suposto caso amoroso e aparentemente corroborou as provas da acusação de que o esquema pretendia influenciar as eleições de 2016. Trump negou que teve um caso com ela e se declarou inocente.

    A tarefa da defesa no interrogatório era, portanto, minar de tal forma a credibilidade de Cohen que semeasse dúvidas razoáveis nas mentes de pelo menos um jurado sobre o caso como um todo.

    Blanche conduziu Cohen através de uma longa lista de insultos que ele lançou contra Trump desde que se afastou de seu ex-mentor, destacando sua propensão para mentiras em série. Ele chamou a atenção dos jurados para uma postagem nas redes sociais em que Cohen usava uma camiseta que mostrava Trump na prisão, enquanto tecia uma narrativa enviesada e de obsessão.

    Blanche também fez com que a testemunha dissesse que havia construído um negócio lucrativo, especialmente em livros focados nas críticas ao ex-presidente. Ele perguntou se Cohen havia chamado Trump de “misógino grosseiro de desenhos animados”. Cohen respondeu: “Parece algo que eu diria”. Então o advogado de Trump perguntou se ele havia zombado do ex-presidente como um “vilão de desenho animado coberto de Cheetos”.

    Blanche também procurou extrair o rancor de Cohen contra Trump, que ele poderá mais tarde destacar ao júri nos argumentos finais, perguntando-lhe sobre uma postagem no TikTok em abril, na qual ele disse que Trump deveria estar em uma “jaula, como um animal” e pediu-lhe que confirmasse que também havia chamado o candidato republicano de “ditador idiota”.

    Michael Cohen após sair do tribunal em Nova York / 13/5/2024 REUTERS/Mike Segar

    Michael Moore, ex-procurador dos EUA no Distrito Médio da Geórgia, disse que a defesa fez alguns progressos nos ataques à credibilidade de Cohen. “Eu realmente percebi que o júri provavelmente está vendo e pensando agora que Cohen é um vigarista e um hesitante”, disse Moore, analista jurídico da CNN. “Ele claramente está ganhando dinheiro com isso, ele claramente é alguém que está trabalhando no caixa para vender seus livros”.

    Grandes questões do julgamento entrando em foco

    Mas, notavelmente, Blanche concentrou-se principalmente no seu esforço para manchar o caráter, os motivos e a credibilidade de Cohen, e não na questão central do caso – se Trump falsificou os registos comerciais como parte de um encobrimento expressamente concebido para enganar os eleitores em 2016, em um dos primeiros casos de interferência eleitoral.

    Como sempre, quando um subordinado de Trump atua diante do chefe, havia uma sensação de que o histrionismo de Blanche era tanto para o benefício de seu cliente quanto para o caso. E em uma curiosa estreia no interrogatório, Blanche recebeu uma advertência do juiz Juan Merchan por fazer isso ser sobre ele, quando notou que Cohen o chamou de “chorão de m***a” no TikTok.

    As questões que pairam sobre o caso após a folga do tribunal na quarta-feira (15) começam com o quanto Blanche conseguiu prejudicar o testemunho de Cohen e o caso da acusação com o seu ataque frontal.

    Dado que a acusação já sinalizou que não planeja mais testemunhas após o depoimento de Cohen, a atenção está voltada para a abordagem que a defesa irá adotar. Os advogados de Trump trarão várias testemunhas? Ou poderiam adotar uma estratégia ousada, simplesmente argumentando que a acusação ficou lamentavelmente aquém de provar o seu caso para além de qualquer dúvida razoável e acabar de maneira drástica?

    Depois, há a indicação inicial de Trump de que gostaria de testemunhar em sua própria defesa. O ex-presidente adora um palco e se considera seu melhor defensor – mesmo que a história muitas vezes sugira o contrário. Mas muitos advogados acreditam que, dado o seu temperamento volátil e a dificuldade em dizer a verdade, colocá-lo no banco dos réus representaria um desastre potencial para a defesa.

    Candidato republicano à Presidência dos EUA, Donald Trump, em Nova York / 03/05/2024 Mark Peterson/Pool via REUTERS

    Um enigma jurídico fundamental é se os procuradores conseguiram até agora validar a teoria jurídica por trás do caso. “Acho que a contravenção de falsificação de registros comerciais foi provada além de qualquer dúvida razoável”, disse Shira Scheindlin, juíza aposentada do tribunal distrital dos EUA, à CNN na terça-feira (14).

    “O crime é um pouco mais difícil porque é preciso dizer que Trump pretendia, consciente e deliberadamente, violar a lei eleitoral no estado de Nova York por meios ilegais e os meios ilegais são violar a lei federal de financiamento de campanha”. Scheindlin acrescentou: “Cohen percorreu um longo caminho para defender esse caso”.

    À medida que o processo da acusação se aproxima do fim, cresce também a sensação de que se aproxima o momento fatídico em que Trump terá que ouvir de um júri se ele se tornará o primeiro presidente da história dos EUA condenado por um crime.

    Esse pressentimento foi exacerbado por um novo grupo de apoiadores de Trump no tribunal na terça-feira (14), incluindo o presidente da Câmara, Mike Johnson. O republicano da Louisiana usou todo o peso simbólico do seu cargo em uma aparente tentativa de deslegitimar o julgamento, para reforçar a alegação de Trump de que ele é vítima de uma justiça armada e para se proteger contra uma potencial condenação com uma rodada inicial de reviravolta política.

    “Esses são julgamentos com motivação política e são uma vergonha”, disse Johnson do lado de fora do tribunal. “É uma interferência eleitoral”.

    Táticas de defesa surpreendem

    É impossível saber como um júri interpreta o testemunho até que um veredito seja dado – e mesmo assim, os jurados muitas vezes optam por não explicar os seus vereditos em detalhe em entrevistas à imprensa em casos de grande repercussão como este.

    Alguns juristas questionaram o tom e as táticas adotadas por Blanche no tribunal. Embora a relutância de Cohen em oferecer respostas sim e não parecesse por vezes irreverente e conflituosa, ele não pareceu dizer ou fazer nada para implodir o argumento da acusação.

    Donald Trump e advogado Todd Blanche em Nova York / 18/4/2024 Jabin Botsford/Pool via REUTERS

    Ele não explodiu com Blanche, apesar das insistências incessantes do advogado e da tentativa de desviá-lo do jogo, saltando erraticamente de um assunto para outro. “Ainda não há desastres massivos”, disse o ex-vice-diretor do FBI, Andrew McCabe, à CNN.

    Mas Moore, o analista jurídico da CNN, defendeu a abordagem de Blanche de confundir o cronograma das provas para tentar abalar a preparação pré-julgamento de Cohen. “Você quer que eles contem a história nos seus termos e não sigam o roteiro”, disse Moore.

    A promotoria sabia que o ataque de Blanche estava por vir e trabalhou durante toda a manhã de terça-feira (14) para elaborar uma narrativa sobre o pagamento a Daniels e seu propósito. A promotora de Manhattan, Susan Hoffinger, tentou minar uma alegação da defesa de que os reembolsos de Trump a Cohen faziam parte de uma remuneração por serviços jurídicos e não para reembolsá-lo pelo pagamento do dinheiro de suborno a Daniels.

    Em um momento chave do julgamento, que ressoou fora do tribunal dadas as obrigações que Trump impõe a muitos dos seus assessores e subordinados, Cohen descreveu o momento em que rompeu com o seu ex-chefe.

    “Minha família, minha esposa, minha filha, meu filho, todos me disseram: ‘Por que você está mantendo essa lealdade, o que você está fazendo?’”, disse Cohen, acrescentando que chegou a um ponto em que era hora de ouvi-los. “Eu não mentiria mais pelo presidente Trump”.

    Este conteúdo foi criado originalmente em inglês.

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