Eliminar a oposição de Hong Kong pode ter custado à China uma geração em Taiwan

Aumento da repressão contra ativistas pró-democracia em Hong Kong chama a atenção dos jovens em Taipei para que Taiwan não termine com o mesmo destino

Sombras de jatos militares sobre bandeiras da China e de Taiwan em foto de ilustração
Sombras de jatos militares sobre bandeiras da China e de Taiwan em foto de ilustração Dado Ruvic - 9.abr.2021/Reuters

Eric Cheungda CNN

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Em apenas cinco anos, Lin Fei-fan deixou de invadir e ocupar o prédio da legislatura de Taiwan com centenas de estudantes para um cargo sênior no partido governante da ilha.

Sua história, no entanto, poderia ser outra se ele vivesse em Hong Kong, onde os ativistas estudantis uma vez paralisaram o centro financeiro ao tomarem as ruas para exigir democracia e liberdade.

O resultado, porém, foi diferente. Quase todas as figuras pró-democracia da região foram presas ou fugiram para o exterior desde que a China impôs uma polêmica lei de segurança nacional em resposta aos protestos em massa na cidade.

“Se eu estivesse em Hong Kong, acho que provavelmente estaria na prisão”, disse Lin, vice-secretário-geral do Partido Democrático Progressivo (DPP) de Taiwan, de apenas 33 anos.

Os recentes acontecimentos em Hong Kong deram a Lin maior determinação em defender a soberania de Taiwan, segundo ele.

Enquanto as autoridades em Hong Kong prendiam apoiadores pró-democracia, incluindo políticos da oposição e editores de jornais, um número crescente de pessoas em Taiwan refletia sobre o futuro relacionamento da ilha com a China continental.

Desde que os protestos de Hong Kong estouraram em 2019, mais de 32% dos entrevistados em Taiwan preferiram um movimento em direção à “independência” formal, de acordo com uma pesquisa da Universidade Nacional Chengchi de Taiwan, em junho. O número equivale ao dobro do que foi relatado em 2018.

Menos de 8% dos entrevistados são a favor da “unificação” com a China, enquanto a maioria deseja manter o status quo — um acordo pelo qual Taiwan permanece autogovernado, sem uma declaração oficial de independência.

Samuel Li, estudante da cidade de Kaohsiung, no sul de Taiwan, disse que a repressão de Pequim a Hong Kong aumentou sua desconfiança em relação ao regime comunista.

“Isso reforçou meus pensamentos sobre o governo chinês de (que) eles realmente não fazem o que dizem. Eles sempre quebram suas promessas”, disse. “Eu realmente gostaria que Taiwan pudesse permanecer como é hoje”, acrescentou.

Tensões crescentes

A China continental e Taiwan são governados separadamente desde o fim da guerra civil chinesa, há mais de 70 anos, quando os nacionalistas derrotados se retiraram da ilha.

Taiwan é uma democracia multipartidária desde então, mas o Partido Comunista Chinês continua a ver a ilha como uma parte inseparável de seu território — apesar de nunca tê-la controlado.

Atualmente, as relações entre Taipei e Pequim estão em seu ponto mais baixo em décadas. Em outubro, militares chineses enviaram um número recorde de aviões de guerra para o redor de Taiwan, enquanto diplomatas locais e a mídia estatal alertavam sobre uma possível invasão, a menos que a ilha seguisse a linha de Pequim.

Mas nem sempre foi assim. Na verdade, durante grande parte dos últimos 30 anos, a possibilidade de conflito parecia remota. No início da década de 1990, muitas empresas taiwanesas mudaram suas operações de manufatura para a China, onde a mão-de-obra era mais barata e as autoridades estavam famintas por investimentos externos para impulsionar o crescimento econômico.

Os laços floresceram ainda mais após a virada do século. A música pop taiwanesa e a televisão tornaram-se extremamente populares no continente, e turistas chineses se aglomeraram para visitar Taiwan, que era promovida pela mídia estatal como a “ilha do tesouro” da China.

Em 2015, o então presidente de Taiwan, Ma Ying-jeou, teve um encontro histórico com o presidente chinês Xi Jinping em Cingapura — mas apenas como líderes de seus respectivos partidos políticos, os nacionalistas e comunistas.

Eles prometeram reduzir a hostilidade, e o partido de Ma concordou que Taiwan e a China “pertencem ao mesmo país” e é favorável a uma cooperação econômica mais estreita.

No entanto, as relações se deterioraram rapidamente após 2016, quando Tsai Ing-wen, membro do tradicionalmente partido pró-independência DPP, venceu a eleição presidencial de forma esmagadora em Taiwan.

A nova presidente destacou e defendeu repetidamente a soberania da ilha, conclamando Pequim a respeitar os desejos do povo taiwanês. Em entrevista à CNN no mês passado, Tsai disse que a ameaça de Pequim está aumentando “a cada dia”.

“O plano da China para a região é muito diferente de antes”, disse ela. “É mais ambicioso, mais expansionista e, portanto, coisas que eram aceitáveis ​​para eles antes podem não ser aceitáveis agora.”

Em 2019, Pequim propôs uma fórmula “Um país, dois sistemas” para Taiwan, semelhante à usada para governar Hong Kong desde a transferência da Grã-Bretanha para a China em 1997.

Segundo o acordo, Hong Kong tinha a garantia de manter um alto grau de autonomia. No entanto, ativistas de direitos humanos acusam Pequim de trair sua promessa e erodir a democracia e as liberdades civis na cidade, especialmente na esteira dos protestos de 2019 e da imposição da lei de segurança.

Falando à CNN em outubro, Tsai disse que seus cidadãos rejeitaram o modelo. “O povo taiwanês disse claramente que não aceita ‘Um país, dois sistemas’ como a fórmula que pode resolver os problemas”, disse.

Em janeiro de 2020, a presidente foi reeleita por uma margem significativa sobre seu oponente nacionalista Han Kuo-yu, que defendia laços econômicos mais estreitos com Pequim. Observadores políticos atribuíram sua vitória em parte ao apoio aos protestos em Hong Kong.

Austin Wang, professor assistente da Universidade de Nevada, em Las Vegas, especializado em política taiwanesa, disse que a repressão de Pequim em Hong Kong desempenhou um papel importante na maneira como a geração mais jovem de Taiwan vê a China.

“No passado, muitos taiwaneses concordavam com ‘Um país, dois sistemas’ porque a China prometia que a vida cotidiana das pessoas permaneceria a mesma. Mas a situação em Hong Kong sugere o contrário”, disse o professor.

“Acho que a questão é confiança. Quando os taiwaneses consideram a China não confiável, todas as promessas ou incentivos feitos pelos chineses são desconsiderados”, afirmou.

Interdependência econômica

Apesar do aumento das tensões no Estreito de Taiwan nos últimos anos, Pequim e Taipei não podem se dar ao luxo de cortar totalmente os laços.

No ano passado, a China foi o maior parceiro comercial de Taiwan e respondeu por 26% do volume total de comércio da ilha, de acordo com o Bureau de Comércio Exterior de Taiwan.

Enquanto isso, as empresas do continente também dependem de Taiwan — particularmente da Taiwan Semiconductor Manufacturing Company (TSMC) — para seus chips semicondutores superavançados, enquanto a China compete com os EUA em uma corrida de tecnologia.

Embora a atenção do mundo frequentemente se concentre na crescente ameaça militar de Pequim sobre Taipei, Wang disse que muitos taiwaneses também reconhecem que a economia da ilha depende de seu relacionamento com o continente.

“Os taiwaneses realmente percebem a importância da cooperação econômica através do Estreito, e a economia de Taiwan depende muito da China”, ressaltou o professor.

“No entanto, os taiwaneses também estão cautelosos sobre o quanto a China pode explorar essa dependência para obter ganhos políticos”, ponderou.

Em 2013, o então presidente de Taiwan, Ma, propôs o Acordo de Comércio de Serviços de Cross-Strait, que abriria as principais indústrias taiwanesas — incluindo bancos, saúde e comunicações — ao investimento da China continental. O pacto comercial gerou preocupações de que uma integração econômica mais estreita com Pequim poderia prejudicar a autonomia de Taipei.

“A integração econômica regional é uma tendência global imparável. Se não enfrentarmos isso e nos juntarmos ao processo, será apenas uma questão de tempo antes de sermos eliminados da competição”, disse Ma.

Isso nos leva de volta a Lin, então um estudante de pós-graduação na National Taiwan University que posteriormente liderou o Movimento Girassol 2014, que forçou o governo de Ma a cancelar o acordo comercial.

O protesto de três semanas organizado pelo estudante viu ativistas estudantis ocuparem o prédio legislativo de Taiwan nas maiores manifestações da ilha em décadas.

Hoje, Lin aconselha regularmente a presidente Tsai sobre as principais políticas. Ele disse que Taiwan deveria reduzir sua dependência econômica da China, construindo mais parcerias com os Estados Unidos, Japão e o resto do mundo.

“Devemos estar cientes de que a China é um país que costuma usar meios econômicos para interferir na política de outras nações”, afirmou. “Continuaremos a interagir economicamente com eles no futuro, mas também devemos manter distância para minimizar o impacto da reestruturação da cadeia de suprimentos ou da instabilidade interna em Taiwan”, concluiu.

 

Will Ripley e Gladys Tsai, da CNN, contribuíram com a reportagem

(Texto traduzido. Leia o original aqui)

 

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