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    Em meio ao calor, mais de 560 pessoas morrem durante peregrinação na Arábia Saudita

    Multidões de peregrinos enfrentaram temperaturas de quase 52° C; não foram confirmadas as contagens de mortes relacionadas ao calor

    Peregrinos muçulmanos começaram a realizar um Tawaf final na terça-feira (18) para completar a peregrinação anual do Hajj na Arábia Saudita, circulando a Kaaba na Grande Mesquita de Meca.
    Peregrinos muçulmanos começaram a realizar um Tawaf final na terça-feira (18) para completar a peregrinação anual do Hajj na Arábia Saudita, circulando a Kaaba na Grande Mesquita de Meca. Reuters

    Gloria Dickieda Reuters Riade

    O calor extremo é o mais novo desafio para centenas de pessoas que iniciaram a peregrinação anual do Hajj na sexta-feira (14) para a Kaaba, na Arábia Saudita. Quase 2 milhões de muçulmanos completam a jornada para a Grande Mesquita de Meca, na quarta-feira (19)

    Multidões de visitantes enfrentaram durante a peregrinação um calor extremo de até 51,8° C, disse a TV estatal saudita.

    Pelo menos 562 pessoas morreram durante o Hajj, de acordo com uma contagem da Reuters baseada em declarações e fontes do Ministério das Relações Exteriores.

    Só o Egito registrou 307 mortes e outros 118 desaparecidos, disseram fontes médicas e de segurança à Reuters.

    “Foi muito duro e as pessoas não conseguem suportar esse tipo de calor”, disse Wilayet Mustafa, um peregrino paquistanês.

    Uma testemunha disse que os corpos estavam na beira da estrada perto de Mina, nos arredores de Meca, cobertos com o pano branco Ihram – um traje simples usado pelos peregrinos – até a chegada dos veículos médicos.

    Os cientistas climáticos dizem que essas mortes mostram o que está por vir para as dezenas de milhões de muçulmanos que deverão realizar o a peregrinação nas próximas décadas.

    “O Hajj tem sido conduzido de uma certa maneira há mais de mil anos e sempre foi um clima quente”, disse Carl-Friedrich Schleussner, consultor científico do instituto alemão Climate Analytics.

    “Mas a crise climática está agravando a gravidade das condições climáticas”, acrescentou o especialista.

    Durante a peregrinação à Kaaba, uma estrutura de pedra em forma de cubo na Grande Mesquita, os peregrinos realizam ritos religiosos ensinados pelo profeta Maomé aos seus seguidores há 14 séculos.

    Partes integrantes da jornada, disse o cientista, como a escalada ritual do Monte Arafat, tornaram-se “incrivelmente perigosas para a saúde humana”.

    O Ministério da Saúde do país apelou aos peregrinos para continuarem a beber água para se manterem hidratados e a usarem guarda-chuvas para evitar insolação e doenças relacionadas com o calor, à medida que as temperaturas subiam na região.

    O Hajj é considerado uma das maiores reuniões de massa do mundo, com a expectativa de que mais de 1,8 milhão de peregrinos participem este ano, de acordo com a Autoridade Geral Saudita de Estatísticas.

    A situação deve piorar

    A data do Hajj é determinado pelo ano lunar, que faz com que a peregrinação retroceda 10 dias anualmente. Embora o evento esteja agora avançando para o inverno, na década de 2040 coincidirá com o pico do verão na Arábia Saudita.

    “Será muito fatal”, disse Fahad Saeed, cientista climático da Climate Analytics, com sede no Paquistão.

    As mortes relacionadas com o calor durante o Hajj não são novas e foram registadas desde 1400.

    A falta de aclimatação a temperaturas mais elevadas, o esforço físico intenso, os espaços expostos e a população idosa tornam os peregrinos vulneráveis.

    No ano passado, mais de 2 mil pessoas sofreram de estresse térmico, segundo autoridades sauditas.

    A situação ficará muito pior à medida que o mundo aquecer, disseram os cientistas.

    Saeed e Schleussner publicaram um estudo de 2021 na revista Environmental Research Letters que descobriu que se o mundo aquecer 1,5° C  acima dos níveis pré-industriais, o risco de insolação para os peregrinos no Hajj será cinco vezes maior.

    O mundo está a caminho de atingir 1,5°C de aquecimento na década de 2030.

    “As pessoas são muito motivadas religiosamente. Para algumas delas, é um caso que acontece uma vez na vida”, disse Saeed, já que cada país recebe um número limitado de vagas. “Se eles tiverem uma chance, eles vão em frente.”, acrescentou.

    Intervenções legais

    Em 2016, a Arábia Saudita publicou uma estratégia térmica que incluía a construção de áreas sombreadas, o estabelecimento de pontos de água potável a cada 500 metros e a melhoria da capacidade de saúde.

    As autoridades de saúde sauditas alertaram os peregrinos para se manterem hidratados e evitarem estar ao ar livre entre às 11h e 15h durante o Hajj deste ano.

    O peregrino paquistanês Mustafa disse que teve que empurrar sua mãe de 75 anos em uma cadeira de rodas. Quando tentaram descansar, a polícia lhes disse para continuarem andando, ele relatou.

    “Fiquei surpreso ao ver que não houveram esforços feitos pelo governo saudita para fornecer qualquer abrigo ou água”, disse Mustafa.

    O gabinete de comunicação social do governo da Arábia Saudita não respondeu imediatamente a um pedido de comentário.

    Uma fonte médica egípcia disse à Reuters que o maior número de mortes ocorreu entre peregrinos que não estavam formalmente registrados junto às autoridades do Hajj e foram forçados a permanecer nas ruas, expostos ao calor.

    O egípcio Sameh Al-Zayni disse que recebeu água das autoridades sauditas, e uma testemunha da Reuters viu a polícia peregrina saudita distribuindo água e borrifando multidões para resfriá-las.

    A pulverização de água só é eficaz em temperaturas abaixo de 35° C, disseram os cientistas.

    Se as temperaturas forem muito elevadas, a pulverização de água não ajuda e pode aumentar o risco em condições húmidas, quando as pessoas têm dificuldade em libertar o calor através da transpiração.