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    Em um ano de governo, Lula visita 24 países e busca diplomacia presidencial

    Presidente visitou 24 países no primeiro ano do seu terceiro mandato, mas foi criticado pela oposição por passar cerca de dois meses no exterior

    Lula em discurso na COP28
    Lula em discurso na COP28 CNN

    Américo Martinsda CNN

    As numerosas viagens do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em 2023 foram fundamentais para recolocar o Brasil na mesa dos grandes debates internacionais.

    Lula fez 15 viagens ao exterior e passou por 24 países no primeiro ano do seu terceiro mandato. Em comparação, ele visitou apenas 18 estados brasileiros.

    No total, o presidente passou mais de 60 dias no exterior, sendo criticado pela oposição por estar fora do país em momentos importantes. No início de setembro, por exemplo, Lula embarcou para Nova Delhi, na Índia, quando um ciclone extratropical deixou um rastro de destruição e dezenas de mortos no Rio Grande do Sul.

    Na ocasião, o presidente despachou o vice Geraldo Alckmin para uma visita às regiões afetadas, mas nem isso reduziu as críticas.

    Do ponto de vista dos objetivos da política externa, no entanto, as viagens foram muito bem sucedidas e reconstruíram, de fato, as relações do Brasil com praticamente todas as regiões do mundo –afetadas pelo flerte do governo do ex-presidente Jair Bolsonaro com o isolacionismo.

    Lula representou o Brasil presencialmente nas mais importantes reuniões de cúpula do ano. No total, ele participou de 17 cúpulas, mas os principais destaques foram a Assembleia Geral da ONU, em Nova York; e as reuniões dos líderes do G7, em Hiroshima, no Japão, e do G20, em Nova Delhi.

    Além disso, o presidente liderou o relançamento da Comunidade dos Países Latino Americanos e do Caribe (Celac), numa reunião em Buenos Aires, e participou ativamente das discussões para ampliar os Brics, o bloco dos grandes países em desenvolvimento, em Joanesburgo, na África do Sul.

    Já no fim do ano, Lula foi uns dos cinco oradores escolhidos para abrir a COP28, a conferência mundial do clima, nos Emirados Árabes Unidos, refletindo a importância do país para a questão.

    Ele foi muito aplaudido ao defender mais seriedade e ações concretas dos líderes mundiais para combater as mudanças climáticas. No entanto, a posição brasileira acabou sendo manchada pelo anúncio, durante a própria conferência, de que o país entraria como observador na OPEP+, um grupo ampliado do cartel do petróleo liderado pela Arábia Saudita, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo.

    Os ativistas do clima não perdoaram, lembrando que os combustíveis fósseis são os maiores causadores das mudanças climáticas. Eles falaram também em hipocrisia do governo federal, ao fazer um leilão para exploração de poços de petróleo, alguns em plena Amazônia, logo no dia seguinte ao fim da COP.

    Diplomacia presidencial

    A chamada diplomacia presidencial (quando o chefe do Executivo se envolve diretamente nas relações internacionais do país) foi um dos marcos do ano, trazendo bons dividendos para o Brasil.

    Segundo o Itamaraty, Lula se reuniu com chefes de governo ou de Estado de 57 países diferentes. Entre eles, alguns dos principais líderes mundiais como o chinês Xi Jinping, que recebeu o brasileiro numa visita de Estado a Pequim, o americano Joe Biden, o Rei Charles 3, do Reino Unido, e o presidente francês Emmanuel Macron.

    Em quase todos esses encontros, Lula usou habilmente uma das principais credenciais internacionais do Brasil: a defesa do meio-ambiente, especialmente da Amazônia. Por um lado, o presidente mostrou os dados de diminuição do desmatamento na região e, por outro, cobrou mais ajuda financeira dos países ricos.

    Conseguiu, por exemplo, ampliar significativamente as contribuições internacionais para o Fundo Amazônia, que foram travadas pelos governos da Alemanha e da Noruega durante o governo Bolsonaro.

    O líder brasileiro também insistiu, em praticamente todos os discursos que fez, num tema caro a ele e ao Itamaraty: a reforma das instituições internacionais, especialmente da ONU, e de órgãos multilaterais como o FMI e o Banco Mundial.

    Lula recebeu o apoio de diversos líderes para essa empreitada, especialmente os dos grandes países em desenvolvimento –muitos interessados nas mudanças por considerarem desproporcional o peso dos Estados Unidos e da Europa no sistema internacional. No entanto, os poderes de veto dos países ocidentais indicam que esse será um objetivo muito difícil de alcançar, assim como o sonho brasileiro de ter um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU.

    Além de todo o esforço do presidente, é importante destacar também o grande nível de engajamento do Itamaraty no processo de reconstrução de pontes com o mundo durante o ano de 2023.

    O chanceler Mauro Vieira, por exemplo, teve 180 encontros de trabalho de alto nível com outros ministros do Exterior, chefes de Estado ou Governo, e dirigentes de organismos internacionais.

    Segundo o Itamaraty, ele se encontrou com 84 chanceleres diferentes e presidiu cinco sessões do Conselho de Segurança da ONU.

    Frustração e críticas

    Aliás, a presidência brasileira do Conselho Segurança, em novembro, foi um dos pontos altos de toda essa movimentação.

    O Brasil teve que lidar, entre outras coisas, com a questão da guerra entre Israel e o Hamas.

    A diplomacia brasileira foi muito hábil e conseguiu avanços nas conversas com todos os lados, mas sofreu a frustração de ver uma resolução sobre o conflito proposta pelo Itamaraty acabar sendo vetada pelos Estados Unidos.

    Entre outros problemas, o presidente Lula não conseguiu avançar com suas propostas de ajudar na mediação de outro conflito, a guerra na Ucrânia.

    O presidente insistiu na tese de que russos e ucranianos deveriam interromper o conflito e sentar numa mesa de negociações, mesmo sabendo que nenhum dos dois lados está interessado em conversas neste momento.

    Lula foi também criticado pelo ocidente por ter dado a entender que os dois lados eram culpados pelo conflito, que começou com a invasão russa, não provocada, de um país soberano.

    Porta-vozes do governo americano e da União Europeia foram muito críticos, em especial, de uma declaração dada pelo presidente brasileiro na China afirmando que a ajuda ocidental para a Ucrânia estaria prolongando a guerra. A posição foi interpretada como um apoio tácito a Moscou e ao presidente russo, Vladimir Putin.

    A polêmica continuou no segundo semestre, quando Lula criticou, na Índia, o Tribunal Penal Internacional, que emitiu um mandado de prisão contra Putin por crimes de guerra.

    Em entrevista a um canal de TV indiano, ele disse que o Brasil não teria porque prender Putin caso ele visite o país, apesar de Brasília aceitar a jurisprudência da corte internacional. A declaração, mais uma vez, foi vista como um apoio do governo brasileiro ao autocrata russo.

    O fim do ano reservou ainda um dissabor extra, quando o presidente Macron se posicionou contra o acordo de livre comércio com o Mercosul poucas horas depois de ter se encontrado pessoalmente com Lula, às margens da COP28. Sem o apoio do presidente francês, o acordo fica mais difícil