Em um único dia, Japão enfrentou terremoto, tsunami e desastre nuclear

Ao longo dos séculos, o país desenvolveu uma formidável capacidade de reconstrução depois de terremotos, mas após uma década o trauma permanece

Adriana Mabília e Marcelo Favalli, da CNN, em São Paulo

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O Japão relembra nesta quinta-feira (11) uma das piores tragédias que afetaram o país. Dez anos atrás, em um único dia, os japoneses tiveram que lidar com um terremoto, um tsunami e com um desastre nuclear.

O dia trágico começou às 14h46 de 11 de março de 2011 no Japão, quando o terremoto de 9 graus, o mais forte na história do país e um dos 5 mais poderosos do mundo, provocou ondas de dez metros de altura.

A população foi alertada para o tsunami, mas não deu tempo. Em 15 minutos, as ondas gigantes chegaram ao litoral, arrastando barcos, carros e até casas.

A água passou de quatro metros de altura e avançou cidade adentro por mais de 4 quilômetros, num cenário inimaginável de destruição. 

Cidades inteiras desapareceram debaixo d’água. No aeroporto de Sendai, aviões ficaram boiando, como se fossem brinquedos de plástico.

Tsunami só acontece quando o epicentro do terremoto se dá no oceano, como foi o caso desse tremor de 9 graus de magnitude que atingiu a costa nordeste do Japão. O ponto de choque entre as placas tectônicas foi a 130 quilômetros da Península de Ojika.

As ondas de um tsunami, em alto-mar, são mais baixas e muito rápidas, podendo alcançar até 800 quilômetros por hora. É a velocidade de um avião. Conforme as ondas se aproximam da praia o atrito reduz o deslocamento da água, mas em compensação, aumenta o tamanho das ondas.

Segundo os estudiosos, é possível monitorar terremotos, mas é impossível prevê-los e controlá-los. De acordo com os dados oficiais, 15.894 pessoas morreram.

Duas mil e quinhentas desapareceram e nunca foram encontradas. Outras 230 mil pessoas ficaram desabrigadas e parte delas não pôde voltar pra casa.

O terremoto e o tsunami de 11 de março de 2011 entraram para a história do Japão como a maior catástrofe no país, depois das bombas de Hiroshima e Nagasaki, em 1945, na Segunda Guerra Mundial.

Além de toda a destruição, os japoneses ainda tiveram que enfrentar o que se tornou um dos piores desastres nucleares de todos os tempos. A usina atômica de Fukushima foi gravemente danificada pelo tremor e pelas ondas. Houve vazamento de vapor e de água contaminados com material radioativo.

Fukushima

Ao longo dos séculos, o Japão desenvolveu uma formidável capacidade de reconstrução depois de terremotos. Mas uma década depois do desastre de Fukushima, parte da cidade ainda está abandonada E não se trata de contaminação, mas sim de trauma.

O cinema condensou em minutos as horas de agonia de quem estava na usina nuclear no momento da tragédia. O filme lançado este ano, no Japão, recria o que aconteceu há uma década, baseado nos relatos dos sobreviventes.

Japão 2011
Foto: CNN Brasil

O tremor causou o colapso do sistema de resfriamento do combustível atômico, que derreteu. O tsunami invadiu os tanques e espalhou resíduo altamente tóxico, bairros inteiros foram esvaziados. 160 mil pessoas tiveram de ir para abrigos.

Embora o governo tenha financiado a reconstrução da cidade e a empresa que administrava a usina continue pagando indenizações aos atingidos, muita gente não quer voltar para casa. Entre elas, Hisae Unuma, uma agricultora de 67 anos.

A idosa se mudou para os arredores da capital Tóquio. De tempos em tempos ela percorre os mais de duzentos quilômetros que separam a antiga da nova casa, para lembrar do marido que morreu há três anos, vítima de um câncer surgido por causa radiação que ficou no ar em Fukushima.

A roupa, que hoje se tornou comum por causa da pandemia, é um velho acessório de Hisae. Só assim ela se sente segura para voltar aonde passou a maior parte da vida.

Uma parte da população japonesa que não quer mais usinas atômicas no país. Mas isso é praticamente impossível, pelo menos hoje.

O Japão não tem recursos naturais suficientes para gerar a enorme quantidade de energia que consome. A eletricidade vem, basicamente, da queima de combustível fóssil. Desde a crise do petróleo em 1979, o governo passou a investir em reatores nucleares, que abastecem 30% do território.

E tem mais: embora arriscada, a energia atômica não gera dióxido de carbono, um dos gases responsáveis pelo efeito estufa. O Japão concordou em reduzir a poluição atmosférica, como parte de um esforço global contra as mudanças climáticas.

São trinta e três reatores em operação, hoje, no Japão. Dois deles na Usina de Fukushima, que voltou a funcionar. O governo admite que a energia nuclear é um “mal necessário”, no país. A única pergunta que ninguém consegue responder é se uma tragédia como a de 2011 vai se repetir.

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