Entenda a história da Groenlândia e por que Trump quer a ilha
Território dinamarquês no Ártico, a Groenlândia tem autonomia, presença militar dos EUA e importância estratégica que voltou ao centro do debate após declarações do presidente americano

A Groenlândia voltou ao centro do debate internacional depois que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, retomou a ideia de assumir o controle da ilha por razões de segurança nacional. A proposta reacendeu discussões sobre a história do território, sua relação com a Dinamarca e o interesse estratégico americano na região.
Habitada por povos inuítes há milhares de anos, a Groenlândia recebeu assentamentos vikings por volta do ano 985, liderados por Erik, o Vermelho. Esses grupos desapareceram séculos depois, enquanto os inuítes se tornaram a cultura dominante. A colonização dinamarquesa começou em 1721, marcando o início de um longo período colonial.
Em 1916, os Estados Unidos compraram as Índias Ocidentais Dinamarquesas — hoje Ilhas Virgens Americanas — por US$ 25 milhões em ouro. Como parte do acordo, Washington declarou que não se oporia à ampliação dos “interesses políticos e econômicos” da Dinamarca sobre toda a Groenlândia, reconhecendo formalmente a soberania dinamarquesa.
Em 1953, a ilha deixou de ser colônia e passou a integrar oficialmente o Reino da Dinamarca.
Desde 2009, a Groenlândia tem amplo autogoverno e pode declarar independência por meio de um referendo, com aval do Parlamento dinamarquês. A autonomia, no entanto, não inclui política externa e defesa. A ilha tem cerca de 57 mil habitantes, infraestrutura limitada e depende economicamente de subsídios da Dinamarca.
Os Estados Unidos mantêm presença militar permanente na Base Aérea de Pituffik, no noroeste da Groenlândia, com base em um acordo firmado em 1951, que permite a construção de bases com notificação às autoridades dinamarquesas e groenlandesas.
A Dinamarca historicamente aceita essa presença porque não tem capacidade militar para defender a Groenlândia sozinha e se beneficia das garantias de segurança dos EUA por meio da Otan.
Por que Trump quer a Groenlândia?
A localização estratégica e os recursos da Groenlândia poderiam beneficiar os EUA.
A região fica na rota mais curta da Europa para a América do Norte, o que é vital para o sistema de alerta de mísseis balísticos dos EUA.
Os Estados Unidos expressaram interesse em expandir sua presença militar na ilha ártica, incluindo a instalação de radares para monitorar as águas entre a ilha, a Islândia e a Grã-Bretanha, utilizadas por navios da marinha russa e submarinos nucleares.
Dados de navegação mostram que a maior parte da navegação chinesa em águas árticas ocorre no Ártico do Pacífico e na Rota Marítima do Norte, perto da Rússia.
A maior parte da navegação russa no Ártico ocorre ao longo da costa da Rússia, embora analistas afirmem que submarinos russos frequentemente navegam pelas águas entre a Groenlândia, a Islândia e o Reino Unido.
O que a Groenlândia deseja?
As relações entre a Groenlândia e a Dinamarca têm sido tensas após revelações de maus-tratos históricos aos groenlandeses sob o domínio colonial.
Pesquisas indicam que a maioria da população apoia a independência em princípio. No entanto, muitos alertam para os riscos de um processo acelerado, devido à dependência econômica da Dinamarca e ao receio de ficar excessivamente exposta à influência dos Estados Unidos.
A pesca responde por mais de 90% das exportações, enquanto subsídios dinamarqueses cobrem cerca de metade do orçamento público, financiando hospitais, escolas e infraestrutura em um território vasto e pouco povoado.
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A independência poderia permitir um acordo de associação com os Estados Unidos por meio de um Compacto de Livre Associação (COFA), modelo usado por países como Micronésia, Palau e Ilhas Marshall.
Esses acordos geralmente garantem serviços e proteção militar dos EUA em troca de acesso estratégico, mas os benefícios para a Groenlândia dependeriam do volume de apoio e da diversificação econômica além da pesca.


