Entenda como funcionam as negociações de artilharia de guerra entre os países

Invasão da Ucrânia pela Rússia gerou discussões entre os países sobre o fornecimento de armas

Tanques em Mariupol após o presidente da Rússia, Vladimir Putin, ordenar a invasão da Ucrânia
Tanques em Mariupol após o presidente da Rússia, Vladimir Putin, ordenar a invasão da Ucrânia 24/02/2022 REUTERS/Carlos Barria

Anna Gabriela Costada CNN*

em São Paulo

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A invasão da Ucrânia pela Rússia, iniciada há pouco menos de um mês, trouxe à tona discussões entre as nações sobre a negociação de artilharia de guerra. Segundo especialistas, a Ucrânia surpreendeu por seu preparo militar diante do avanço das tropas russas. Entretanto, o país ainda solicita ajuda às principais potências mundiais, principalmente quando se trata do suprimento de armas.

Os Estados Unidos estão em “discussões contínuas” com outros países para fornecer à Ucrânia “defesas aéreas de longo alcance, que sabemos que eles estão confortáveis ​​em usar”, conforme disse o porta-voz do Pentágono, John Kirby, durante um pronunciamento nesta segunda-feira (21).

Mas, por que os Estados Unidos lideram as discussões sobre armamentos? O professor de Relações Internacionais da ESPM Gunther Rudzit explica o motivo.

“Os EUA são os maiores vendedores de armas do mundo e os maiores fornecedores de armas dentro da Otan [Organização do Tratado do Atlântico Norte]”, lembra o especialista. Sendo assim, é normal que os norte-americanos tenham protagonismo nessa área.

Negociações com a Eslováquia

A Eslováquia concordou preliminarmente em fornecer à Ucrânia um importante sistema de defesa aérea da era soviética para ajudar na defesa contra ataques aéreos russos, de acordo com três fontes familiarizadas com o assunto. Mas os EUA e a Otan ainda estão lutando para preencher as capacidades defensivas do país.

Isso ocorre porque, ao ceder armas à Ucrânia, a Eslováquia solicita “imediatamente” que os EUA substituam a munição doada por novos equipamentos.

Se um país enviar seus S-300 (um sistema de mísseis terra-ar), o país fornecedor provavelmente receberá o sistema de mísseis de defesa aérea Patriot, fabricado nos EUA, para preencher a capacidade que estaria abrindo mão, de acordo com duas outras fontes familiarizadas com as negociações da Eslováquia.

A Alemanha e a Holanda já anunciaram publicamente que estão enviando Patriots para a Eslováquia. Mas integrar um novo e complexo sistema de defesa aérea à arquitetura militar existente de um país, bem como treinar suas forças para usá-lo, pode levar tempo.

O Departamento de Estado dos EUA já informou que está trabalhando para identificar quais países atualmente possuem sistemas do tipo S-300 e determinar como eles podem ser transferidos para a Ucrânia.

O secretário de Defesa dos Estados Unidos, Lloyd Austin, está programando uma viagem para a Eslováquia no fim desta semana, após participar da Reunião Ministerial de Defesa da Otan em Bruxelas.

“A pedido do presidente [Volodymyr] Zelensky, identificamos e estamos ajudando a Ucrânia a adquirir sistemas antiaéreos de longo alcance e munições adicionais para esses sistemas”, disse o presidente Joe Biden no dia 16 de março, como parte do pronunciamento detalhando a nova assistência de segurança ao país.

Alguns aliados dos EUA também estão receosos em tornar públicas suas contribuições para a Ucrânia, segundo afirmaram várias fontes à CNN.

A Bulgária e a Grécia também têm sistemas mais modernos de artilharia antiaérea. O sistema da Grécia é um modelo diferente dos atualmente operados pela Ucrânia, levantando, porém, questões sobre a necessidade de treinamento adicional para que seja útil ao conflito.

Acordo entre os países

Não há regras claras estabelecidas sobre as negociações de armas entre os países, conforme explica o professor Gunther Rudzit. Mas ele esclarece que não é mandatário que o país que doe munições deva receber imediatamente um novo aparato, como foi solicitado pela Eslováquia.

“A artilharia é mais uma negociação de equipamento militar. Portanto, não há regras claras que ficam estabelecidas. Ou seja, o governo que decide vender para quem quer comprar e governo que quer comprar decide para quem está disposto a vender. Dentro do comércio internacional de armas não há nenhuma regra específica para a parte de artilharia”, disse Rudzit.

“Não é mandatário um país doar para outro e depois receber. Isso está sendo feito dentro do escopo da Otan porque alguns países podem já fornecer para a Ucrânia –mais rapidamente– equipamentos que a Ucrânia já tenha e que seus soldados estão acostumados a usar”, acrescentou.

Ele destaca que o senso de urgência se faz necessário, neste momento, devido à tensão proporcionada após o desencadeamento da guerra entre Rússia e Ucrânia, que faz os países vizinhos se sentirem ameaçados.

“O problema da ameaça da Rússia hoje cresceu tanto que os países europeus que vão doar querem receber essa ajuda americana de equipamento novo para eles não se sentirem desprotegidos. Por isso que eles estão exigindo isso”, disse.

A percepção de ameaça dos países, principalmente do Leste Europeu, em relação à Rússia tem feito com que a pressão que eles estão exercendo sobre Washington seja de que eles ajudam a Ucrânia, mas que precisam receber também novos equipamentos dentro desse processo de rearmamento da Otan

Gunther Rudzit, professor de Relações Internacionais da ESPM

 

“Tradicionalmente, o Brasil não tem papel nenhum em guerras”

Durante reunião do Conselho de Segurança da ONU na última sexta-feira (18), o Brasil destacou a importância da convenção que proíbe a utilização de armas biológicas, mas disse ser a favor da revisão dos protocolos de verificação mundiais sobre o assunto.

“O Brasil está a favor há tempos de um protocolo multilateral de verificação, de acordo com a convenção, com as medidas necessárias para garantir a segurança contra o surgimento de armas biológicas. O encontro do Conselho só mostra como é urgente o desenvolvimento de um mecanismo desse tipo”, afirmou o embaixador brasileiro, Ronaldo Costa Filho.

Para Rudzit, o Brasil “só fornece equipamento militar aos vendedores em tempos de paz”, destacando que o país procura, como parte da sua política externa, não se envolver em conflitos e, no máximo, enviar ajuda humanitária.

“Tradicionalmente, o Brasil não tem papel nenhum em guerras. A não ser que seja um cliente de equipamento militar brasileiro que esteja precisando de peças de reposição ou mais munição”, disse.

Com informações da CNN Internacional*

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