Entenda os altos e baixos da relação entre Estados Unidos e Cuba desde 1959

Acusações contra Raúl Castro e derrubada de Nicolás Maduro na Venezuela marcam a mais nova escalada nas tensões bilaterais

Germán Padinger, da CNN em Espanhol
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No centro da história recente da América Latina está, pelo menos desde 1959, a tensa relação do tipo Davi e Golias entre Cuba e os Estados Unidos: um vínculo que tem mantido o continente em suspense e que agora voltou a monopolizar a atenção, à medida que aumentam as ameaças à ilha vindas da Casa Branca, após a queda de Maduro na Venezuela.

Washington e Havana, de fato, compartilham uma história muito mais longa de colonialismo, independência e revolução.

Mas é especialmente desde a ascensão dos Castros ao poder que a inimizade ideológica e o atrito geopolítico parecem ter ditado o tom para toda a América.

Figuras como Fidel Castro e Raúl Castro — que foi recentemente indiciado pelos EUA —, Ernesto "Che" Guevara e Fulgencio Batista cruzaram o caminho de John F. Kennedy e Nikita Khrushchev no passado, abrindo caminho para figuras como Miguel Díaz-Canel e Donald Trump nos dias atuais.

Nesse contexto, eventos como o “êxodo de Mariel”, a crise dos mísseis e a Lei Helms-Burton passaram a fazer parte do vocabulário popular.

Os Estados Unidos e a Independência de Cuba

A primeira vez que Washington voltou suas atenções para Cuba, a ilha ainda fazia parte do Império Espanhol e estava envolvida em uma guerra de independência desde 1895 para acabar com o domínio colonial.

Os Estados Unidos, que começavam a se expandir para além de suas fronteiras, entraram em guerra com a Espanha em 1898, em apoio aos revolucionários.

Após vencer o conflito, ocupou a ilha até vários anos depois da proclamação da República de Cuba em 1902, embora posteriormente tenha mantido uma forte presença no país, manifestada mais claramente na construção de uma base naval na Baía de Guantánamo em 1903, que ainda mantém.

A Revolução Cubana

Os EUA mantiveram sua presença militar e seus investimentos na ilha durante as décadas seguintes, marcadas pela instabilidade política e pelos frequentes golpes de Estado.

Mas o equilíbrio mudou quando os revolucionários liderados por Fidel Castro derrubaram, em 1959, o general Fulgencio Batista — ele próprio no poder após um golpe de Estado em 1952 — e impuseram, com o tempo, um regime comunista naquilo que os Estados Unidos consideram seu “quintal” e zona de influência e segurança mais evidente.

A imposição de amplas sanções e de um embargo comercial a Cuba a partir de 1960, e a fracassada invasão de insurgentes cubanos apoiados pelos Estados Unidos na Baía dos Porcos em 1961, não fizeram mais do que agravar a relação e deixar claro que tudo iria piorar dali em diante.

A crise dos mísseis e a Guerra Fria

A primeira grande crise entre Washington e Castro não demorou a surgir: em 1962, Cuba e a União Soviética, que se tornara sua protetora após a revolução, concordaram com a instalação de mísseis nucleares na ilha, ou seja, a curta distância dos Estados Unidos, supostamente para evitar outra invasão.

Mas tal decisão não pode ser compreendida sem considerar o confronto global entre Washington e Moscou, popularmente conhecido como Guerra Fria.

Os mísseis foram instalados, pelo menos em parte, como resposta à implantação de armas nucleares pelos EUA na Turquia, a curta distância da União Soviética.

Essa “Crise dos Mísseis” tornou-se o episódio que resume toda a Guerra Fria: durante 13 dias de extrema tensão, que incluíram o bloqueio naval de Cuba pelos EUA, o mundo esteve à beira de uma guerra nuclear.

Felizmente, o presidente americano John F. Kennedy e o líder supremo da URSS, Nikita Khrushchev, chegaram a um acordo para evitar o conflito, retirando os mísseis de Cuba e da Turquia.

Mas a crise deixou um legado que persiste: desde então, os Estados Unidos e Cuba são inimigos ferrenhos, quase existenciais, e representantes no continente de duas formas antagônicas de conceber o mundo.

Milhares de cubanos abandonam a ilha

No início da década de 1980, o governo de Fidel Castro permitiu que seus cidadãos deixassem o país pelo porto de Mariel, o que até então era impossível e só podia ser feito ilegalmente em pequenas embarcações.

Pelo menos 125 mil cubanos abandonaram a ilha e entraram nos Estados Unidos, somando a tensão migratória ao coquetel explosivo das relações entre Washington e Havana (quase 650 mil cubanos deixariam a ilha nas décadas seguintes graças à política de “pés secos, pés molhados”, que concedia residência automática a quem chegasse aos EUA).

Já em 1994, os dois países assinaram um acordo para tentar reduzir a imigração ilegal pela metade, em um momento de grave crise econômica e deterioração em Cuba provocada pela queda da União Soviética em 1991, seu principal benfeitor.

Esse momento histórico é conhecido como “período especial” e sua simples menção em Cuba evoca lembranças amargas de privações, apagões, fome e grandes protestos conhecidos como o “Maleconazo”, situação que muitos têm comparado à crise atual na ilha após a derrubada de Maduro pelos EUA e a interrupção dos envios de petróleo venezuelano para a ilha.

A Lei Helms-Burton

Em meio ao “período especial”, foi aprovada nos Estados Unidos a Lei Helms-Burton, que intensificou o embargo a Cuba ao restringir as operações comerciais de outros países na ilha.

A lei, que teve impacto na economia cubana logo no início, surgiu em meio a fortes tensões entre Washington e Havana após o ataque de dois aviões civis pertencentes ao grupo anticastrista “Hermanos al rescate” pela Força Aérea de Cuba em 1996, no qual morreram três americanos.

A aproximação de Barack Obama

Durante a presidência de Barack Obama nos Estados Unidos, as relações com Cuba entraram em um dos períodos de maior distensão e as tensões diminuíram.

Em 2014, após uma troca de prisioneiros, Washington e Havana declararam suas intenções de restabelecer relações diplomáticas e reabrir suas respectivas embaixadas, e em 2015 foram anunciadas facilidades para viajar entre os Estados Unidos e Cuba.

Naquele mesmo ano, Obama se reuniu com Raúl Castro, irmão de Fidel e presidente desde 2008, no Panamá. Essa foi a primeira cúpula entre líderes dos dois países em mais de 50 anos.

E, em 2016, ano da morte de Fidel Castro, algumas sanções foram suspensas, os voos diretos foram restabelecidos e Obama visitou Cuba, a primeira visita de um presidente americano em 88 anos.

Mas, por mais espetacular que parecesse aquele descongelamento, ele não poderia durar.

Trump e sua turnê militar pelo Caribe

Durante o primeiro mandato de Donald Trump, iniciado em janeiro de 2017, as relações entre Cuba e os Estados Unidos voltaram rapidamente a se deteriorar.

Naquele mesmo ano, foram reimpostas parte das sanções que haviam sido suspensas por Obama e restabelecidas as restrições às viagens, em parte como consequência do que Washington classificou como “ataques acústicos” contra sua embaixada em Havana.

E, em 2019, as restrições às viagens dos EUA para Cuba foram endurecidas ainda mais, e o país voltou a ser declarado Estado patrocinador do terrorismo, um rótulo que Obama havia retirado durante sua presidência.

Pouca coisa mudou durante a presidência do democrata Joe Biden, que sucedeu o republicano sem incluir Cuba em sua agenda de prioridades, mas, após o retorno de Trump à Casa Branca em janeiro de 2025, a relação entre Washington e Havana sofreu mais uma reviravolta para pior.

O republicano partiu primeiro para a Venezuela, o último aliado de Cuba, e, em 3 de janeiro, derrubou seu ditador, Nicolás Maduro, e o levou para Nova York, onde ele enfrenta um julgamento por suposto narcoterrorismo, acusação que o líder nega.

A queda de Maduro apertou o cerco a Cuba, com a suspensão dos envios de petróleo para a ilha, o que aumentou o número de apagões em massa e provocou uma deterioração ainda maior das condições de vida.

E na quarta-feira (20), o Departamento de Justiça dos EUA apresentou acusações formais contra Raúl Castro, irmão de Fidel, pelo abate de aviões da organização de exilados cubano-americanos Hermanos al Rescate em 1996, um fato que marca uma escalada nunca vista até o momento.

Cuba será a próxima”, afirmou Trump no final de março, deixando clara sua vontade de pôr fim à Revolução iniciada por Castro.

Se ele fizer isso, será o momento mais dramático de uma relação entre dois países que já passou por tudo, inclusive uma iminência de guerra nuclear, e que marcou o ritmo de todo um continente.

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