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    Entenda por que o Brasil se recusou a liderar a operação da ONU no Haiti

    Governo dos EUA e secretário-geral da ONU fizeram vários apelos ao presidente Lula para que o país enviasse forças policiais para ajudar a conter a violência das gangues locais

    Haiti vive crise de segurança desde que presidente foi assassinado
    Haiti vive crise de segurança desde que presidente foi assassinado REUTERS/Ralph Tedy Erol/Arquivo

    Américo Martinsda CNN em Londres

    Pelo menos dois fatores levaram o governo brasileiro a rejeitar os insistentes apelos da ONU e do governo dos Estados Unidos para liderar forças policiais multinacionais no combate a gangues criminosas no Haiti.

    As negociações e os pedidos aconteceram ao longo de vários meses, diante do aumento da violência no país caribenho — hoje, quase totalmente dominado por gangues criminosas que já mataram mais de 2,5 mil pessoas só neste ano.

    O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, e o secretário-geral da ONU, António Guterres, chegaram a conversar sobre a missão com o presidente Lula (PT) — além de várias outras mensagens trocadas entre os diplomatas.

    O Brasil, no entanto, não demonstrou entusiasmo por liderar a operação em nenhum momento.

    Na segunda-feira (2), o Conselho de Segurança da ONU, sob a presidência do Brasil, finalmente aprovou uma resolução determinando o envio das forças policiais internacionais por um período de pelo menos um ano.

    A missão será liderada pelo Quênia, com ajuda de Antígua e Barbuda, Bahamas e Jamaica.

    Avaliação estratégica

    O primeiro e mais importante fator para a negativa brasileira foi uma avaliação estratégica e diplomática de que a comunidade internacional praticamente abandonou o país caribenho depois do fim da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah, na sua sigla em francês), que operou entre 2004 e 2017.

    A Minustah foi uma operação militar criada pelo Conselho de Segurança da ONU para restaurar a paz e a ordem no país, conflagrado por disputas entre vários grupos armados depois da deposição do presidente Jean Bertrand Aristide.

    O Brasil liderou a operação durante todos os seus 13 anos de existência, com o maior número de tropas e com um general do país sempre no comando geral.

    A avaliação do Itamaraty e do governo brasileiro, segundo a CNN apurou, é que a Minustah foi muito importante para tentar estabilizar o país, mas que os outros países viraram as costas ao Haiti depois do fim da missão – o que levou ao aprofundamento de uma crise política e de segurança.

    Uma fonte ouvida pela CNN disse que a “comunidade internacional não deu o seguimento que a Minustah precisava, e a consequência foram os dramáticos retrocessos dos últimos anos”.

    Neste contexto, segundo entenderam estrategistas do governo, voltar a liderar uma força estrangeira no Haiti poderia expor o Brasil novamente a esse risco de ver todo o seu esforço ser abandonado ao fim da operação.

    O segundo fator foi a natureza da atual missão. Ao contrário da Minustah, que foi uma operação militar, a ação agora aprovada pelo Conselho de Segurança é apenas policial.

    Vídeo — ONU vai mandar missão de segurança ao Haiti

    Este ponto muda completamente as necessidades e configurações do que precisa ser enviado ao Haiti.

    Caso aceitasse participar com tropas policiais, o governo estaria se comprometendo a enviar grandes números de profissionais e equipamentos para a ilha.

    Isso poderia, entre outras coisas, levar a críticas internas por desperdício de recursos das polícias do país, num momento em que os índices de violência estão aumentando em vários estados brasileiros.

    Um terceiro ponto chegou a ser levantado para justificar a recusa brasileira: a eventual desconfiança de algumas autoridades em relação aos militares, num momento em que o país ainda investiga o possível envolvimento de alguns membros das Forças Armadas nos atos antidemocráticos do dia 8 de janeiro.

    Fontes ouvidas pela CNN, no entanto, dão pouco peso ao tema, já que os militares teriam, no máximo, uma presença lateral na operação eminentemente policial no Haiti.

    Ao final de todas as discussões, o governo do Quênia aceitou liderar a missão e concordou em enviar cerca de mil policiais para trabalhar em conjunto com as forças haitianas.

    O objetivo não declarado do país africano é aumentar a sua presença no cenário internacional e obter créditos diplomáticos, especialmente junto aos Estados Unidos.

    Treinamento

    O Brasil se comprometeu a considerar uma ajuda com o treinamento de policiais haitianos, mas os detalhes de tal ajuda ainda não chegaram a ser discutidos com autoridades do Haiti.

    Em nota divulgada nesta terça-feira (3), o Itamaraty lembra que “o Brasil desempenhou papel significativo ao longo das negociações sobre o mandato da missão e contribuiu ativamente para a aprovação da resolução” atual no Conselho de Segurança.

    Além disso, a nota afirma que “o Brasil continuará a apoiar, em colaboração com os demais membros do Conselho de Segurança e a comunidade internacional, a estabilidade e o desenvolvimento do Haiti.”

    “O governo brasileiro salienta a importância de que a comunidade internacional intensifique seu apoio ao Haiti, de forma a fortalecer a promoção da segurança e do desenvolvimento do país.”

    A última frase do comunicado apenas reforça, em jargão diplomático, a avaliação de que a comunidade internacional virou as costas ao país do Caribe recentemente.