EUA: Cientista que acusou manipulação em dados da Covid-19 é alvo de operação

Polícia da Flórida fez buscas na casa de Rebekah Jones, ex-funcionária do governo que acusou o estado de distorcer informações sobre a pandemia

Rebekah Jones, demitida do governo da Flórida em maio, acusou estado de distorcer informações sobre a pandemia
Rebekah Jones, demitida do governo da Flórida em maio, acusou estado de distorcer informações sobre a pandemia Foto: CNN/ Reprodução

Da CNN, em São Paulo

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Rebekah Jones, uma cientista de dados que acusou autoridades da Flórida de esconder números da Covid-19, teve sua casa inspecionada por policiais na segunda-feira (9). Para a CNN americana, ela disse temer que o material apreendido prejudique outros funcionários do estado que vazaram informações sobre a resposta à pandemia.

Jones, demitida do Departamento de Saúde da Flórida em maio, acusa desde então a administração do governador Ron DeSantis de minimizar o novo coronavírus e distorcer os dados estaduais.

Nesta semana, ela atraiu a atenção nacional depois que sua casa foi invadida por policiais armados na manhã de segunda-feira. As autoridades estaduais estão investigando se ela acessou um sistema do governo sem autorização para enviar uma mensagem instando seus ex-colegas a falarem sobre números de mortes pelo coronavírus, que ela diz terem sido divulgados incorretamente.

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De acordo com a investigação, um indivíduo não autorizado acessou ilegalmente um sistema de gerenciamento de emergência do governo estadual para enviar uma mensagem de texto em grupo a funcionários do governo no mês passado, pedindo-lhes que falassem sobre a crise do novo coronavírus.

“É hora de falar antes que outras 17.000 pessoas morram”, dizia a mensagem, segundo investigadores. “Você sabe que isso é errado. Você não tem que fazer parte disso. Seja um herói. Fale antes que seja tarde demais.”

As autoridades rastrearam a mensagem, que foi enviada na tarde de 10 de novembro para cerca de 1.750 destinatários, a um endereço IP conectado à casa de Jones.

Jones disse à CNN que não enviou a mensagem. “Não sou uma hacker”, ela afirma.

A cientista acrescentou que a linguagem na mensagem “não é a maneira como eu falo” e contém erros que ela não cometeria.

“O número de mortes que a pessoa usou não estava certo”, disse Jones. “Na verdade, eles ficaram abaixo de 430 mortes. Eu nunca arredondaria 430 mortes.”

Entre os dispositivos levados pelos policiais estavam pen drives que Jones disse à CNN que continham “provas de que (funcionários estaduais) mentiram em janeiro sobre coisas como relatórios internos e notificações do CDC”, bem como “evidências de atividades ilegais do estado”.

Ela disse que acessou esses relatórios legalmente e alguns foram enviados a ela por outras pessoas depois que ela deixou o governo estadual.

Jones disse acreditar que a invasão à sua casa foi orquestrada pelo governador Ron DeSantis, a quem ela tem acusado publicamente de lidar com a pandemia de maneira inadequada.

“Isso é o que acontece quando você desafia pessoas poderosas e corruptas”, disse Jones. “Se acha que isso vai me assustar até o silêncio, ele está errado.”

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Armas apontadas para a família

Segundo o relato de Jones, cerca de 10 policiais com armas em punho apareceram em sua casa em Tallahassee por volta das 8h30 de segunda-feira (horário local).

Um vídeo tirado de uma câmera em sua casa, que ela postou nas redes sociais, mostrou um policial apontando uma arma escada acima enquanto Jones lhe dizia que seus dois filhos estavam no andar de cima. Jones disse que o policial estava apontando a arma para seus filhos de 2 e 11 anos, além de seu marido. O vídeo não deixa isso claro.

Os policiais também “apontaram uma arma a quinze centímetros do meu rosto” e levaram todos os computadores, telefone e vários discos rígidos e pen drives, disse Jones.

Gretl Plessinger, porta-voz da ação policial, disse que os agentes bateram na porta de Jones e ligaram para ela “em uma tentativa de minimizar a perturbação para a família”. Segundo os agentes, ela se recusou a atender a porta por 20 minutos e desligou na cara dos policiais. 

 

 

Fontes secretas

Jones negou ter enviado a mensagem em questão, mas disse à CNN que teme que os computadores e telefones que a polícia estadual apreendeu em sua casa possam expor suas fontes de dentro do governo e fazer com que funcionários sofram retaliação.

“No meu telefone estão todas as comunicações que eu já tive com pessoas que trabalham para o estado, vieram até mim em sigilo e me disseram coisas que poderiam levá-los à demissão ou problemas”, disse Jones ao jornalista Chris Cuomo, da CNN.

“E eu só quero dizer a todas essas pessoas que DeSantis (o governador) vai saber em breve que elas falaram comigo. Portanto, tomem cuidado.”

A cientista alega que foi demitida em maio por se recusar a manipular os dados do novo coronavírus, mas as autoridades estaduais afirmam que ela era insubordinada e não consultou especialistas em epidemiologia.

Desde sua demissão, Jones emergiu como uma crítica pública da abordagem do governo DeSantis à pandemia, atacando o governador e publicando seu próprio painel de estatísticas sobre a pandemia. Ela afirma que recebeu vários registros internos de pessoas que trabalharam para o estado, incluindo o que disse ser a prova de que as autoridades estaduais “estavam mentindo em janeiro sobre coisas como relatórios internos e notificações do CDC”.

Segundo Jones, essas evidências estão em “um monte de pen drives” que os policiais levaram quando fizeram buscas em sua casa.

Jones, que não foi presa ou acusada criminalmente, também afirma que tinha documentos que acessou legalmente quando era funcionária do estado.

Agora, dizem os especialistas jurídicos, o material pode teoricamente ser usado para avaliar se as fontes de Jones violaram as regras sobre o compartilhamento de informações internas.

O mandado de busca permitiu que os policiais recuperassem “todo e qualquer equipamento de informática” que armazene ou transmita dados, incluindo discos rígidos, dispositivos, software e correspondência “relativos à posse, recebimento, origem ou distribuição de dados envolvendo a facilitação de crimes de informática . “

“O mandado era extremamente amplo”, disse Lawrence Walters, advogado de Jones, à CNN. “Esperamos que esta seja uma investigação direcionada para buscar o que eles afirmam estar procurando. Se a verdadeira intenção deles é investigar todas as comunicações pessoais dela e investigar suas fontes, isso demonstraria que isso é abusivo e retaliatório. “

Ainda assim, disse ele, “não podemos impedi-los de olhar para o que têm.”

Um porta-voz do Departamento de Polícia do estado disse que os agentes estão apenas investigando Jones e ainda analisando as evidências.

“No momento, estamos apenas investigando o crime cibernético”, disse o porta-voz Gretl Plessinger. “Se recebermos outras informações sobre outros crimes ou que possam levar a outro suspeito, obviamente faremos o acompanhamento.”

(Com informações de Casey Tolan e Curt Devine, da CNN)

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