EUA dizem que energia eletromagnética pode ter causado "Síndrome de Havana"
Comitê de especialistas analisou diversos incidentes que afetaram dezenas de autoridades e diplomatas americanos no mundo todo

Um comitê de inteligência que investiga a causa de uma série de incidentes misteriosos que afetaram dezenas de autoridades dos Estados Unidos em todo o mundo informou que alguns dos episódios podem “plausivelmente” terem sido causados por “energia eletromagnética pulsada” emitida por uma fonte externa, de acordo com um resumo executivo das conclusões do comitê divulgado na última quarta-feira (2).
No entanto, o comitê não chegou a fazer uma determinação definitiva, dizendo apenas que tanto a energia eletromagnética quanto, em circunstâncias limitadas, o ultrassom poderiam explicar os principais sintomas — destacando o grau em que a enfermidade, conhecida como "Síndrome de Havana”, tem permanecido um dos principais mistérios mais complicados da equipe de inteligência.
“Aprendemos muito”, disse um oficial de inteligência familiarizado com o trabalho do comitê, falando sob anonimato nos termos estabelecidos pelo Gabinete do Diretor de Inteligência Nacional. “Embora não tenhamos o mecanismo específico para cada caso, o que sabemos é que, se você relatar rapidamente e obter atendimento médico, a maioria das pessoas está melhorando”.
A descoberta confirma amplamente um relatório da National Academies of Science, do final de 2020, que descobriu que “energia de radiofrequência direta e pulsada” era “o mecanismo mais plausível para explicar esses casos” — mas também não chegou a fazer uma determinação firme.
O chamado comitê de especialistas é formado por peritos médicos, científicos e de engenharia que têm acesso a informações sigilosas sobre os incidentes. As autoridades enfatizaram que seu trabalho estava focado apenas em descobrir o mecanismo potencial por trás do que o governo chama de “incidentes anômalos de saúde” e não examinou quem, se houver, poderia ser responsável.
Um relatório provisório divulgado no mês passado por uma força-tarefa separada da CIA, examinando quem pode estar por trás dos episódios, descobriu que era improvável que a Rússia ou qualquer outro adversário estrangeiro estivesse conduzindo uma campanha global generalizada destinada a prejudicar as autoridades americanas. Mas a agência também não descartou que um Estado-nação — incluindo a Rússia — possa ser responsável por cerca de duas dúzias de casos que os investigadores não conseguiram explicar por qualquer outra causa conhecida.
Casos ‘genuínos e convincentes’
O comitê científico enfatizou que os casos estudados eram “genuínos e convincentes”, observando que alguns incidentes afetaram várias pessoas no mesmo espaço e amostras clínicas de algumas vítimas mostraram sinais de “lesão celular no sistema nervoso”.
Um resumo executivo do trabalho do comitê forneceu novos detalhes sobre como o governo está categorizando os casos como possível Síndrome de Havana, uma doença clinicamente vaga que há muito tempo frustra diagnósticos firmes porque as vítimas sofrem de uma gama diversificada de sintomas.
Embora as autoridades se recusassem a dizer quantos casos o comitê examinou como parte de sua investigação, eles disseram que estudaram casos que atenderam a quatro “características principais”: o início agudo de sons ou pressão, às vezes em apenas um ouvido ou em um lado da cabeça ; sintomas simultâneos de vertigem, perda de equilíbrio e dor de ouvido; “um forte senso de localidade ou direcionalidade”; e a ausência de quaisquer condições ambientais ou médicas conhecidas que possam ter causado os outros sintomas.
As vítimas relataram ter sido atingidas por essa confluência de sintomas em embaixadas e residências pessoais em todo o mundo e, em pelo menos um caso, em semáforos ao ar livre em um país estrangeiro.
Tanto a energia eletromagnética pulsada, “particularmente na faixa de radiofrequência”, quanto as matrizes ultrassônicas, podem causar os quatro sintomas principais, descobriu o comitê. Ambos podem se originar de “uma fonte ocultável”. Mas o ultrassom não pode atravessar paredes, descobriu o comitê, “restringindo sua aplicabilidade a cenários em que a fonte está próxima do alvo”.
Fontes de energia de radiofrequência, por outro lado, são conhecidas, “podem gerar o estímulo necessário, são ocultáveis e têm requisitos moderados de energia”, disse o comitê. “Usando antenas e técnicas não padronizadas, os sinais podem ser propagados pelo ar com baixa perda por dezenas a centenas de metros, e com alguma perda, pela maioria dos materiais de construção”.
Mas oficiais de inteligência familiarizados com o trabalho do comitê enfatizaram que importantes lacunas de informação permaneciam, impedindo-os de chegar a conclusões mais firmes.
“É frustrante, mas somos também persistentes para ajudar a entender e elucidar o que está acontecendo”, disse um funcionário.
Parte do desafio, disse essa pessoa, é que os casos não apenas variam, mas a combinação das quatro características principais é única na literatura médica.
“Quando nos concentramos nas características principais, é apenas uma combinação única com a qual não temos muita experiência nas áreas médica e clínica”, disse o funcionário.
E por razões éticas, há estudos limitados sobre o impacto da energia de radiofrequência ou ultrassom no corpo humano. O comitê de especialistas se limitou aos relatos de pessoas que foram expostas “inadvertidamente” e estavam dispostas a descrever seus sintomas.
“Há uma escassez de pesquisas sistemáticas sobre os efeitos dos sinais eletromagnéticos relevantes em humanos”, afirmou o resumo executivo do relatório.
Relatório do Departamento de Estado
Um relatório encomendado pelo Departamento de Estado feito por um grupo separado de cientistas externos, concluído no final do ano passado, também começou a circular na quarta-feira.
O grupo de consultores analisou cerca de 200 casos, descobrindo que cerca de 15% dos incidentes relatados que eles estudaram não podem ser explicados. A maioria dos casos é consistente com sintomas causados por fatores fisiopatológicos ou ambientais, concluiu o comitê, confirmando amplamente a avaliação da CIA. O relatório concluiu que nenhum mecanismo que eles estudaram pode explicar todos os incidentes.
“O grupo encontrou explicações naturais e críveis para esses incidentes em todos, exceto em 20-30 dos aproximadamente 200 casos, porque os incidentes e os sintomas se enquadram no domínio das ocorrências comuns do dia-a-dia ou os sintomas podem ser explicados de maneiras que não estão relacionadas aos incidentes percebidos”, dizia o relatório.
Tomados como um todo, os três conjuntos de descobertas deixam claro que a maioria dos incidentes relatados pode ser explicada. Mas os estudos até agora não apresentam uma imagem clara do que está por trás dos incidentes que permanecem um mistério.
Autoridades federais enfatizaram que as descobertas não sinalizam a conclusão dos esforços do governo dos EUA para chegar ao fundo dos misteriosos incidentes de saúde.
“Embora este estudo seja um elemento valioso dos esforços do Departamento para entender o AHI [na sigla em inglês para incidente anômalo de saúde], ele não representa uma conclusão para esse esforço: não é uma resposta final. Junto com nossos colegas das interagências, continuamos nossa pesquisa científica sobre as causas do AHI”, escreveu o vice-secretário de administração e recursos do Departamento de Estado, Brian McKeon, aos funcionários na quarta-feira.
McKeon também disse que as descobertas “não questionam o fato de que nossos colegas estão relatando experiências reais e estão sofrendo sintomas reais”.
Vitória para os defensores das vítimas
Em uma vitória para os defensores das vítimas, os especialistas descartaram uma causa para essas quatro características: os chamados fatores psicossociais. Algumas das vítimas há muito reclamam que a CIA não levou a sério os sintomas relatados no passado, descartando os casos como um episódio psicossomático ou histeria em massa.
Essas quatro características principais não podem ser explicadas por fatores psicossociais “sozinhos”, segundo o relatório - embora um oficial de inteligência tenha explicado que, em alguns casos, os sintomas de uma vítima podem ser “compostos” por uma reação de estresse ou outra resposta psicossocial.
O comitê também descartou “radiação ionizante, agentes químicos e biológicos, infrassom, som audível, ultrassom propagado a longas distâncias e aquecimento em massa por energia eletromagnética”.
O comitê fez sete recomendações, incluindo o desenvolvimento de melhores biomarcadores que sejam “mais específicos e mais sensíveis para diagnóstico e triagem” de casos. Também recomendou a utilização de “detectores” e a obtenção de “dispositivos para auxiliar a pesquisa”. Os detalhes dessas recomendações foram fortemente redigidos no resumo executivo do comitê.
Finalmente, os oficiais pediram uma ação rápida das autoridades médicas sempre que um caso é relatado, enfatizando que os indivíduos que foram tratados imediatamente após um evento melhoraram.
“Acho que algo que o funcionário pode fazer para ajudar a si mesmo é relatar imediatamente e obter assistência médica”, disse o oficial de inteligência.
Nem o Departamento de Estado, nem o relatório da comunidade de inteligência ofereceram novas pistas sobre a possibilidade de um adversário estrangeiro estar por trás dos incidentes inexplicáveis.
“Não é possível concluir neste momento que os eventos analisados pelo JASON são o resultado de ataques intencionais que causam danos físicos”, diz o relatório de Estado. “No entanto, também não é possível descartar mecanismos que não causem nenhum dano físico, mas que possam constituir assédio e levar a condições de saúde e distúrbios funcionais, por exemplo, através de sons desagradáveis ou sensações de pressão”.
As autoridades enfatizaram que a comunidade de inteligência continuará investigando.
“Continuamos a buscar esforços complementares para chegar ao fundo dos incidentes anômalos de saúde – e fornecer acesso a cuidados de classe mundial para os afetados”, disseram o diretor de inteligência nacional, Avril Haines, e o diretor da CIA, Bill Burns, em um comunicado conjunto. “Estamos fazendo progressos em ambas as áreas”.



