Floresta da Bela Adormecida está morrendo e se torna desafio climático para Alemanha

Mudanças climáticas são tema central das eleições no país, que acontecem neste domingo (26), e serão o principal desafio do substituto de Angela Merkel

Castelo que teria inspirado o conto da Bela Adormecida, em Sababurg, na Alemanha
Castelo que teria inspirado o conto da Bela Adormecida, em Sababurg, na Alemanha Helena Schätzle / CNN

Sheena McKenzieda CNN

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Observando do alto das rochas do castelo da Bela Adormecida, localizado no centro da Alemanha, a paisagem abaixo se mostra como uma colcha de retalhos de florestas verdes claras e escuras.

No centro desta paisagem exuberante, no entanto, há uma faixa de terra seca. O solo está vazio, exceto por alguns troncos brancos fantasmagóricos.

Vista de perto, esta cena no parque natural Reinhardswald é igualmente desoladora. Galhos fracos quebram sob os pés e tocos de árvores pontilham a paisagem vazia, que se estende por cerca de 50 acres (equivalente a cerca de 20,23 hectares).

Árvores da espécie abeto, nativas de florestas da Europa, que antes existiam no local foram mortas por uma infestação de besouros. Os insetos prosperam em condições climáticas mais quentes e secas, que ocorrem com mais frequência por causa das mudanças climáticas.

“Depois que a casca é retirada, as árvores parecem um pouco com ossos”, disse Peter Meyer, chefe de conservação da natureza florestal do Instituto de Pesquisa Florestal do Noroeste da Alemanha, em Göttingen, e Hann Münden.

As infestações de besouros são agravadas pela seca, pois, uma vez que a árvore foi enfraquecida pela falta de água, não consegue produzir resina suficiente para combater os insetos.

“Então o besouro pode simplesmente furar a árvore, botar ovos embaixo da casca e as larvas se alimentam da árvore, interrompendo o fornecimento de água, e isso faz a árvore morrer”, explica Meyer. “A seca é o gatilho para as infestações do besouro.”

A Alemanha sofreu uma seca histórica nos últimos anos e 2018 foi o ano mais quente desde o início dos registros – há 140 anos. Em outras partes do país neste verão, a chuva caiu forte e rápido, provocando inundações mortais.

Todos esses eventos colocaram a crise climática diretamente no caminho da campanha antes das eleições na Alemanha neste domingo (26). É a primeira eleição em 16 anos que não contará com a chanceler Angela Merkel, e os candidatos que competem para substituí-la estão apresentando suas propostas climáticas.

A crise está sendo sentida em muitas partes da Alemanha, e as famosas florestas de contos de fadas, localizadas no país, não são exceção.

Eleições focam em questões climáticas

As roseiras se agarram às antigas paredes do Castelo de Sababurg, do século 14, que dizem ter inspirado o conto de fadas dos Irmãos Grimm, “A Bela Adormecida”.

Em uma manhã fria de setembro, um fluxo constante de turistas visita o local. A rota deles até é ladeada por enormes pilhas de toras caídas – tudo o que resta das árvores danificadas de Reinhardswald, que foram cortadas para impedir a propagação dos besouros.

A estrada sinuosa também está pontilhada de cartazes eleitorais; os rostos sorridentes de candidatos políticos adornam postes de luz e placas de trânsito, marcando uma eleição parlamentar em que as questões verdes ocuparam o centro das atenções.

Armin Laschet, candidato da CDU a primeiro-ministro da Alemanha
Armin Laschet, candidato da CDU a primeiro-ministro da Alemanha / Michele Tantussi – 13.set.2021/Reuters

O próximo chanceler da Alemanha enfrentará uma lista robusta de desafios climáticos à medida que conduzem a maior economia da Europa em direção a sua meta de neutralidade de carbono até 2045, incluindo a transição de combustíveis fósseis para renováveis.

Há ainda o compromisso com a substituição de carros com motor a combustão por veículos elétricos e a conclusão do polêmico gasoduto Nord Stream 2, que transporta gás da Rússia para a Alemanha sob o Mar Báltico.

A eleição acontece poucos meses depois que inundações devastadoras no oeste da Alemanha submergiram cidades inteiras e mataram mais de 180 pessoas.

No outro extremo do clima, os alemães sofreram dois anos de seca extrema em 2018 e 2019 e viram grandes partes do sul da Europa serem destruídas por incêndios florestais neste verão.

Cientistas alertam há décadas que a mudança climática tornará estes eventos extremos mais frequentes e intensos, mas as enchentes deste verão criaram um novo senso de urgência, levando o ministro do Meio Ambiente, Svenja Schulze, a declarar que: “A mudança climática chegou à Alemanha”.

Todos estes eventos levaram muitos a se perguntar como a Alemanha cumprirá suas metas de redução de emissões. O país prometeu um corte de 65% nas emissões até 2030, em comparação com os níveis de 1990.

Também há dúvidas sobre se a Alemanha está fazendo sua parte justa para cumprir a meta do Acordo de Paris de limitar o aquecimento global a bem abaixo de 2 graus Celsius.

A Alemanha está longe de atingir suas metas de emissões. Deveria estar 40% abaixo dos níveis de 1990 neste ano, mas um aumento nas emissões à medida que se recupera da pandemia significa que não atingirá a meta.

Esta é uma nota pessimista para Merkel, que já foi apelidada de “Chanceler do Clima”, deixar o cargo. Embora ela tenha apoiado metas ambiciosas de redução de emissões, seu governo planejou apenas eliminar o carvão até 2038, considerado um atraso para uma nação desenvolvida. E o financiamento de gás natural – um combustível fóssil que altera o clima – por meio do Nord Stream 2 é um ponto sensível.

A substituição de Merkel terá um papel importante na definição da política climática da Europa em um momento crucial na luta contra o aquecimento global.

Em novembro, os líderes mundiais se reunirão em Glasgow, na Escócia, para conversas internacionais sobre o clima, evento conhecido como COP26.

“A abordagem que o próximo governo alemão adotar pode ter um grande efeito multiplicador para a ação climática europeia e a liderança da UE em matéria climática no cenário mundial”, disse Rafael Loss, coordenador de Projetos Pan-Europeus de Dados no Conselho Europeu de Relações Exteriores.

Mas faltando poucos dias para a eleição, não está nada claro quem será o próximo chanceler.

As pesquisas apontam os social-democratas de centro-esquerda (SPD), liderados por Olaf Scholz, ligeiramente à frente da União Democrática Cristã (CDU) de Merkel, liderada por Armin Laschet.

Qualquer que seja o resultado deste domingo, longas negociações de coalizão são esperadas – e o Partido Verde alemão, liderado por Annalena Baerbock, provavelmente serão os influentes neste tema, mostram as pesquisas, o que significa que o clima se tornou uma questão eleitoral chave no país.

A presença dos verdes no governo sem dúvida forçaria o próximo governo da Alemanha a ser mais ambicioso em relação ao clima.

Uma história dos irmãos Grimm

O anúncio político recente de Baerbock foi filmado nas florestas da Alemanha, um lugar de profunda importância ecológica e cultural para os alemães.

“Sua voz decide sobre o último governo que pode influenciar ativamente a crise climática antes que seja tarde demais”, diz Baerbock, enquanto uma câmera de drone voa alto sobre as montanhas Harz, no norte da Alemanha – outra região devastada pelos ataques dos besouros.

As florestas estão entre as soluções cruciais para a crise climática: elas absorvem muito do carbono do mundo e o armazenam com segurança no subsolo.

Na Alemanha, elas são o pulmão verde do país. As florestas cobrem 11,4 milhões de acres – o que representa cerca de um terço do país – e capturam cerca de 62 milhões de toneladas de dióxido de carbono da atmosfera a cada ano, de acordo com o Ministério da Alimentação e Agricultura local.

Eles também são uma fonte de riqueza, fornecendo 76 milhões de metros cúbicos de madeira a cada ano, para uso em tudo – desde a construção civil até a fabricação de papel.

Nos últimos sete anos, o valor médio de mercado da produção de madeira em tora da Alemanha foi de mais de 3,5 bilhões de euros (US$ 4,1 bilhões) anualmente.

Mas as florestas da Alemanha estão, segundo análises, em sua pior forma em décadas.

Peter Meyer dentro da floresta primitiva com uma foto tirada há cerca de 100 anos do carvalho que aparece logo atrás dele / Helena Schätzle / CNN

Mais árvores morreram em 2020 do que em qualquer outro ano registrado, de acordo com o relatório anual do governo sobre as condições florestais.

O estudo examinou 10 mil árvores em todo o país e descobriu que apenas 21% tinham uma copa intacta – uma indicação de quão saudável é uma árvore – e esta é a menor porcentagem desde que os estudos começaram há 37 anos.

“A condição da copa da árvore é como um termômetro médico; mostra como as árvores estão. A pesquisa mostra que nossas florestas estão doentes”, disse a ministra da Agricultura, Julia Kloeckner.

Os principais culpados foram os besouros que se alojam nas cascas das árvores. Os insetos atacam principalmente os abetos, que são as espécies de árvores mais comuns na Alemanha, constituindo 25% das florestas do país.

Meyer estima que o trecho dizimado de abetos no Parque Natural Reinhardswald, que fica a uma curta caminhada do castelo da Bela Adormecida, tenha cerca de 80 anos.

Para quem passa por ali, a paisagem parece um cemitério de troncos de árvores esqueléticas. Mas Meyer, que estudou árvores por mais de três décadas, vê sinais de um novo crescimento desordenado; ele diz que se deixada por sua própria conta, a floresta pode se curar.

A uma curta distância do castelo da Bela Adormecida também fica a exuberante floresta primitiva de Sababurg.

Neste local, a temperatura cai à medida que a luz do sol desaparece atrás de uma espessa copa de folhas. Carvalhos imponentes – alguns de 600 anos – estendem seus galhos nodosos, envoltos em uma brilhante capa de musgo verde em direção ao céu.

Ao contrário da dizimada floresta de abetos nas proximidades, essa floresta foi poupada da devastação causada pela infestação de besouros.

Os especialistas esperam que florestas como esta possam oferecer pistas sobre quais espécies de árvores podem ser mais resistentes ao aumento das temperaturas no futuro.

Até agora, eles descobriram que “os carvalhos parecem ser mais tolerantes à seca e ao alagamento, aos extremos do clima, do que as faias, por exemplo”, disse Meyer.

Madeira encantada do século 21

As florestas não são apenas os pulmões da Alemanha – elas fazem parte de seu coração cultural.

As florestas do país são o cenário secular de contos de fadas como “Chapeuzinho Vermelho”, “Branca de Neve” e “João e Maria;” o cenário ideal e assustador para encontros com criaturas míticas.

As histórias foram coletadas pelos Irmãos Grimm no século XIX. Desde então, eles foram traduzidos para mais de 160 idiomas e ainda são lidos para crianças em todo o mundo.

A casa da infância dos irmãos em Steinau, na região central de Hesse, na Alemanha, foi transformada em um museu.

Em uma tarde ensolarada, turistas passeiam pelo imponente edifício onde a família morava na década de 1790.

Crianças gritam de alegria enquanto um contador de histórias vestido de cabra bate em uma pequena porta de madeira nos bonitos jardins; nas proximidades, sete anões de pedras montam guarda perto das roseiras.

As florestas figuram em pelo menos um terço dos cerca de 250 contos coletados pelos irmãos, de acordo com o curador do museu, Burkhard Kling.

Uma sala dentro do museu é inteiramente dedicada às florestas, com dezenas de pequenos dioramas apresentando personagens familiares em ambientes florestais, confrontando lobos ou mordiscando casas de doces.

Kling explica por que a floresta inspira tanto medo e admiração entre os contadores de histórias: “Está escuro. Você não sabe o que está atrás da próxima árvore. Você não sabe se há um animal que quer pegar você”.

“Quando você vê a luz atrás das árvores, você pode encontrar esperança.”

Cidades de contos de fadas da Alemanha

Os efeitos da mudança climática também estão sendo sentidos em outras paradas ao longo da popular rota turística de contos de fadas da Alemanha.

Alsfeld é conhecida como “cidade do Chapeuzinho Vermelho”, devido aos tradicionais bonés vermelhos usados ​​pelas meninas da região.

Esta região pitoresca se apresenta como um local obrigatório para entusiastas de contos de fadas, atraindo cerca de 90 mil visitantes durante a noite a cada ano.

Sua livraria do século 14 está repleta de cópias dos livros “Chapeuzinho Vermelho” em diversos idiomas.

Perto dali, um prédio torto foi transformado em uma casa de contos de fadas, completa com a longa trança de Rapunzel saindo da janela do terceiro andar.

Os jardins da igreja local costumam ser palco de apresentações ao ar livre das histórias dos irmãos Grimm.

Quando não está interpretando a avó em uma dessas apresentações de “Chapeuzinho Vermelho”, Jenny Wagner trabalha como guia turística, emocionando os visitantes com contos ambientados na floresta escura e profunda.

Mas nas últimas três décadas ela viu as florestas próximas de sua infância mudarem dramaticamente. “Quando eu era jovem, costumávamos fazer caminhadas na floresta e havia um leito de folhas acima de você”, diz Wagner.

“Você mal consegue encontrar isso. Se você for para a floresta, terá muitas árvores que não carregam realmente nenhuma folha.”

As florestas ao redor de Alsfeld são uma grande atração para os visitantes. O prefeito Stephan Paule diz que sem esses espaços recreativos a cidade – e sua economia – sofreria. Segundo ele, uma importante “fonte de receita da cidade vai desaparecer”.

Kristina Kuethe, parceira de Peter Meyer em área recuperada, que foi devastada 15 anos atrás / Helena Schätzle / CNN

Conto antigo

Os desafios enfrentados pelas florestas da Alemanha mudaram muito nas últimas quatro décadas. O mesmo aconteceu com seus ativistas ambientais.

Meyer, um cientista de fala mansa com um talento especial para detectar pequenas maçãs ou cogumelos escondidos em meio à folhagem, começou a estudar silvicultura na década de 1980, numa época em que a chuva ácida estava matando as florestas da Alemanha – um fenômeno conhecido como “Waldsterben”, ou floresta “dieback”.

“Foi uma impressão catastrófica das florestas e de que realmente temos que agir para fazer algo”, disse ele.

Esforços foram feitos para limpar as minas de carvão e as florestas revividas. Mas a calamidade ambiental deixou sua marca nos alemães, que viam a floresta como parte de sua identidade.

O “Waldsterben” dos anos 1980, junto com as preocupações com a energia nuclear, tornou-se central para o ativismo do Partido Verde.

Décadas depois, a nova geração de ativistas ambientais da Alemanha tem uma visão mais ampla da crise climática.

“A conexão emocional que a geração dos meus pais, a geração dos meus avós, tem com a floresta é muito diferente da minha conexão”, explica Helena Marschall, uma estudante de economia e política de 19 anos da Leuphana University, que participa de um movimento sobre as implicações do aquecimento global.

Marschall diz que embora esteja preocupada com o estado das florestas alemãs, “a crise climática é fundamentalmente uma questão de minha vida, e não tanto um conceito abstrato de natureza”.

Merkel é a única chanceler que Marshall já conheceu – esta será a primeira eleição nacional em que ela terá idade suficiente para votar.

Ela diz que a chamado “Chanceler do Clima” não correspondeu às expectativas e vê esta eleição como uma chance de “construir um tipo diferente de política”.

Poucos dias antes de os alemães irem às urnas, o movimento “Fridays for the Future” planeja manifestações em massa em todo o país, com a expectativa de que milhões participem.

As florestas de contos de fadas da Alemanha sobreviveram por centenas de anos – o desafio do próximo chanceler será garantir que sejam protegidas em um futuro distante.

(Este texto é uma tradução. Para ler o original, em inglês, clique aqui)

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