Gabriel Boric é empossado presidente do Chile e marca mudança na política do país

Ex-líder estudantil assume presidência em meio a disputa territorial, crise imigratória e reformulação da Constituição

Alexander VillegasNatalia Ramosda Reuters

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O ex-deputado de esquerda Gabriel Boric, tomou posse como presidente do Chile nesta sexta-feira (11), marcando a mudança mais acentuada na política do país desde seu retorno à democracia há três décadas, após a ditadura do general Augusto Pinochet. Aos 36 anos, Boric também se torna o presidente mais jovem da história do Chile.

No prédio do Congresso, na cidade portuária de Valparaíso, Boric, um ex-líder estudantil e parlamentar tatuado, recebeu a faixa presidencial do ex-presidente Sebastian Piñera. “Perante o povo chileno, faço minha promessa”, disse o novo presidente, que em um sinal de mudança dos tempos usava camisa e paletó, mas sem gravata, algo inédito para presidentes masculinos no país.

A ascensão de Boric despertou esperança entre os progressistas no Chile, um país tradicional no livre mercado e austeridade fiscal na América Latina, mas também alimentou o medo de que décadas de estabilidade econômica possam ser desfeitas.

Líder de uma ampla coalizão de esquerda, incluindo o partido comunista do Chile, ele prometeu reformular um modelo econômico liderado pelo mercado para combater a desigualdade que provocou protestos violentos em 2019, embora tenha moderado sua retórica inflamada nos últimos meses.

O país produtor de cobre também está reformulando sua Constituição da era Pinochet, que sustentou o crescimento, mas foi responsabilizada por alimentar a desigualdade que levou aos meses de mobilização social em 2019.

Pinochet, cuja sombra ainda paira sobre o país, derrubou o presidente socialista Salvador Allende, que cometeu suicídio em 1973 durante um golpe militar. Boric sempre elogiou o legado de Allende.

“Ele me lembra Allende, mas espero que tenha um final mais feliz”, disse Marigen Vargas, de 62 anos, que viajou a noite toda para estar na posse de Boric fora do Congresso. “Queremos um Chile mais unido e feliz.”

O presidente eleito em um momento em que a sociedade pedia mudanças, será o primeiro a ter a maior parte do gabinete ministerial formado por mulheres.

Entre os principais objetivos da nova gestão, estão reformas estruturais, como a tributária, para garantir recursos para maiores gastos públicos, e da previdência, atualmente controlada principalmente por fundos privados, e é motivo de forte insatisfação social.

Porém, por não ter maioria absoluta no Legislativo pode ser um empecilho para a aprovação de projetos de lei ambiciosos.

Muito trabalho pela frente

Boric enfrenta uma série de desafios de uma desaceleração econômica, inflação alta e uma legislatura dividida que testará sua capacidade de fazer acordos para promover reformas na saúde e nas pensões, enquanto endurece a regulamentação ambiental.

O ex-deputado, que ficou conhecido na juventude por ser um dos líderes das massivas manifestações estudantis que tomaram as ruas de Santiago, em 2011, também terá que lidar com a crise de migração no norte do país, com os conflitos entre os indígenas mapuche no sul e a vinculação entre a imagem do seu governo com o sucesso da convenção que escreve a nova Constituição do país.

Carlos Ruiz, um acadêmico da Universidade do Chile que deu aula para o novo presidente, disse que ele teria que lidar com um bloco ultraconservador em ascensão que se saiu bem nas eleições do ano passado e encontrar consenso para impulsionar suas reformas.

“Estas são agora as tarefas à frente de Boric”, disse ele.

O gabinete do presidente, de maioria feminina, tomou posse com a presença delegações dos Estados Unidos, Espanha, Argentina, Peru e outros presentes. O Brasil foi representado pelo vice-presidente Hamilton Mourão. A ex-presidente Dilma Rousseff também compareceu à cerimônia.

Entre um mar de ternos e trajes militares, uma parte do Senado estava repleta de representantes de várias comunidades indígenas do Chile em trajes tradicionais dos povos originários.

Grandes esperanças podem rapidamente se chocar contra um eleitorado e legislatura divididos ao meio entre a direita e a esquerda. Questões polêmicas relacionadas ao crime, imigração e direitos indígenas significam que o governo de Boric terá um desafio amplo pela frente.

“Desejo-lhe sucesso em seu futuro governo”, disse o agora ex-presidente Piñera em seu discurso final, mas citou preocupações com políticas de identidade, enfraquecimento do judiciário e crime. “Mas também a sabedoria para distinguir o certo do errado”, completou.

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