Gangue haitiana exige R$ 95 milhões para liberação de missionários sequestrados

Grupo conhecido como "400 Mawozo" quer resgate de US$ 1 milhão (cerca de R$ 5,55 milhões) por pessoa

Matt RiversAnneClaire StapletonTara JohnKaren Smithda CNN

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A gangue que sequestrou um grupo de 17 missionários americanos e canadenses no Haiti pediu US$ 1 milhão (cerca de R$ 95 milhões) pela liberação de cada um, disse um alto funcionário haitiano à CNN nesta terça-feira (19).

Os 16 cidadãos americanos e um canadense foram sequestrados pela poderosa gangue “400 Mawozo” no último sábado (16), depois de visitar um orfanato em Croix-des-Bouquets, um subúrbio a nordeste da capital Porto Príncipe.

O ministro da Justiça do Haiti, Liszt Quitel, disse à CNN que os sequestradores exigiram um total de US$ 17 milhões (cerca de R$ 95 milhões) para a libertação do grupo.

Os missionários são filiados ao Christian Aid Ministries, com sede em Ohio. O grupo sequestrado é composto por cinco homens, sete mulheres e cinco crianças.

Quitel disse que os sequestradores ligaram pela primeira vez para a equipe do Christian Aid Ministries no sábado, já exigindo seus pedidos de resgate no momento da ligação. Várias conversas entre os sequestradores e o grupo missionário ocorreram desde então, disse ele.

O ministro disse que tanto os negociadores da polícia haitiana quanto o FBI estão aconselhando o grupo missionário sobre como proceder e que as negociações estão em andamento. Agentes do FBI estão no Haiti ajudando nas investigações, mas não lideram as negociações, nem falaram diretamente com os sequestradores, disse ele.

“O FBI é parte de um esforço coordenado do governo dos EUA para envolver os americanos em segurança. Devido a considerações operacionais, nenhuma informação adicional está disponível no momento”, disse um porta-voz à CNN.

Os reféns estão sendo mantidos em algum lugar fora de Croix-des-Bouquets, o subúrbio de Porto Príncipe controlado pela gangue, disse Quitel.

“A gangue tem locais onde costumam manter seus reféns para que possam sentir que estão seguros. Eles se sentem confortáveis ​​em mantê-los lá”, disse Quitel à CNN. “Os sequestradores foram avisados ​​sobre as consequências para eles se ferissem os reféns”, disse Quitel, acrescentando que os sequestradores estão cumprindo as exigências até o momento.

Uma fonte das forças de segurança do Haiti disse que, no momento, todos os reféns estão seguros. A fonte acrescentou que os membros da gangue em contato com as autoridades parecem calmos.

Dan Hooley, um ex-diretor de campo do Christian Aid Ministries no Haiti, disse à CNN no domingo (17) que acredita-se que todos os missionários sequestrados estivessem em um veículo e que alguns puderam entrar em contato com o diretor local da organização antes de serem levados.

Haiti
Haiti vive crise de segurança desde que presidente foi assassinado / AP

“Alguns companheiros imediatamente enviaram uma mensagem ao diretor e lhe contaram o que estava acontecendo”, disse Hooley.

O crime é parte de uma onda de sequestros indiscriminados que se tornou mais ousada à medida que o país sofre com a instabilidade política, agitação civil, falta de saúde de qualidade e extrema pobreza.

Pouco antes do sequestro dos missionários, um sindicato de transporte haitiano havia convocado uma greve por tempo indeterminado a partir de segunda-feira para protestar contra o aumento de violência, entre outras questões.

“O bem-estar e a segurança dos cidadãos americanos no exterior é uma das maiores prioridades do Departamento de Estado. Temos mantido contato regular com autoridades haitianas e continuaremos a trabalhar com elas e com parceiros interagentes”, disse um porta-voz do Departamento de Estado.

“Gangues assumiram o controle”

Grande parte do aumento de sequestros no Haiti se deve aos 400 Mawozo, de acordo com o Centro de Análise e Pesquisa para os Direitos Humanos (Cardh), uma organização sem fins lucrativos com sede em Porto Príncipe.

Os membros de gangues se envolvem em confrontos quase diários com a polícia haitiana e tributam as empresas locais.

Os 400 Mawozo têm crescido em força nos últimos três anos, chegando a 150 membros, e essencialmente assumiu o controle da Croix des Bouquets, disse a fonte das forças de segurança do Haiti à CNN no domingo.

O sequestro por resgate é uma atividade marcante da gangue. Eles sequestraram dezenas de pessoas somente neste ano, incluindo estrangeiros, disse a fonte.

Uma vez conhecido por roubo de carros, o 400 Mawozo foi o pioneiro em sequestros “coletivos” de grandes grupos de vítimas em ônibus e carros, de acordo com o Centro.

A maioria das vítimas da gangue são cidadãos haitianos e os sequestros aumentaram no Haiti este ano – com um aumento de quase 300% desde julho, disse o Centro.

Pelo menos 628 sequestros ocorreram desde janeiro, incluindo 29 estrangeiros, segundo dados divulgados pelo centro. Os 400 Mawozo normalmente exigem resgates de cerca de US$ 20.000 (cerca de R$ 110 mil), disse.

Hooley disse que os membros do grupo missionário sabiam dos riscos que corriam.

“São pessoas muito dedicadas, pessoas que arriscaram suas vidas, sabiam dos perigos em que corriam, ou pelo menos sabiam do que poderia acontecer, tenho certeza”, disse ele.

Em uma postagem no blog de 2020, um missionário do Christian Aid Ministries no Haiti descreveu os riscos que enfrentaram trabalhando lá. O missionário escreveu como a base da organização em Titanyen, um vilarejo ao norte de Porto Príncipe, foi ameaçada por uma gangue local.

“Com toda a incerteza política no Haiti, as gangues assumiram o controle. As gangues que lutam entre si quebram as noites calmas com tiros rápidos”, escreveram eles.

A postagem do blog não informa qual gangue foi responsável, nem está claro quem é o autor da postagem. Mas os fundadores do blog são dois missionários que estão no Haiti há vários anos.

No post, o autor escreve que o missionário acabou começando a “trabalhar com a gangue tentando resolver a situação horrível”.

“Depois de muito diálogo, eles concordaram em estabelecer sua mentalidade de gangue e tentar encontrar uma maneira de ajudar a comunidade, em vez de aterrorizá-la. Logo eles concordaram em trabalhar na reconstrução de uma estrada que atravessa a cidade”, escreveu o autor.

(Texto traduzido. Clique aqui para ler o original em inglês)

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