Guerra no Oriente Médio: Como estão as negociações entre EUA e Irã?
Presidente americano, Donald Trump, afirmou que conversas seriam retomadas, enquanto Teerã declara que não há tratativas em andamento

Desde o último fim de semana, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, fez diversas declarações sobre o status das negociações com o Irã, enquanto autoridades em Teerã negaram a existência de conversas em andamento.
O regime iraniano afirmou que, em vez disso, busca fechar um acordo com Omã para abrir uma rota estratégica no Estreito de Ormuz.
Aqui está o que ambas as partes disseram:
- O presidente dos EUA disse, no sábado (1º), que as negociações com o Irã seriam retomadas na segunda-feira (3), após ter cancelado um "ataque massivo" ao país, mas o Irã acabou ridicularizando Trump por ter suspendido os ataques e reiterou que não está negociando com Washington no momento.
- Nesta terça-feira (4), Trump reagiu nas redes sociais classificando a liderança do Irã como "incrivelmente dissimulada". Mais tarde, ele insistiu que essa é a "última chance" do Irã assinar um acordo, mas também afirmou não ter prazos para as negociações, uma vez que não busca a reeleição.
- Teerã afirmou que agora está concentrada em negociações com Omã sobre uma rota temporária através do Estreito de Ormuz. Na segunda-feira (3), o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmaeil Baghaei, disse que se trataria de um corredor único, em vez das duas rotas, uma próxima à costa iraniana e outra próxima à de Omã, que haviam sido discutidas anteriormente.
- Nesta terça-feira (4), um membro da comissão de negociação do Irã afirmou que o objetivo era um acordo com duração de um a três meses "no qual o Irã seja dominante". Saeed Ajorlu disse à emissora estatal iraniana IRIB: "A base das negociações é estabelecer arranjos iranianos, uma vez que a segurança, a remoção de minas e os serviços marítimos são geridos pelo Irã".
Negociações continuam incertas após novo ataque
Sinais contraditórios dos Estados Unidos e do Irã sobre o andamento das negociações para pôr fim à guerra, que já dura cinco meses, aumentaram a incerteza nesta terça-feira (4), com o mais recente ataque à navegação no Estreito de Ormuz destacando os riscos aos fluxos globais de energia.
O presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou na segunda-feira (3) que as negociações estavam em andamento, alertando que esta seria a "última chance" de Teerã assinar um bom acordo, mas o Irã negou que as negociações estivessem ocorrendo ou fossem planejadas.
"Elas estão acontecendo neste momento", disse Trump a repórteres em um evento no Salão Oval quando questionado sobre o andamento das negociações, afirmando que as partes estavam conversando a pedido do Irã, da Arábia Saudita, dos Emirados Árabes Unidos e do Catar, entre outros.
As declarações vieram após a decisão de Trump, no fim de semana, de cancelar "ataques em grande escala" que ele disse ter autorizado contra o Teerã, já que as negociações estavam prestes a ocorrer, repetindo um padrão em que ele promete ataques de grande porte apenas para cancelá-los.
Na manhã de segunda-feira, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano, Esmail Baghaei, afirmou que não estavam ocorrendo negociações com os Estados Unidos e que não havia reuniões agendadas.
O Irã não tinha planos de receber delegações estrangeiras nem de enviar negociadores ao exterior nos próximos dias, disse ele.
Baghaei acrescentou que todos os negociadores iranianos estavam no país, com exceção do ministro das Relações Exteriores, Abbas Araqchi, que estava em uma peregrinação religiosa no Iraque.
As únicas negociações em andamento, declarou ele, são as discussões com Omã sobre a gestão do Estreito de Ormuz.
A atividade de navegação no Golfo apenas reforçou o impasse em curso, já que o Irã praticamente interrompeu o tráfego por essa rota vital, pela qual passa um quinto dos embarques globais de petróleo bruto e gás natural.
Um navio de carga informou por transmissão que havia sido atingido por um projétil desconhecido perto do estreito, na costa de Omã, informou a agência britânica UKMTO (Maritime Trade Operations).
O tráfego pela via permaneceu lento, com três petroleiros e três granaleiros entre as seis embarcações que transitaram pelo estreito na segunda-feira (3), uma queda em relação às sete do dia anterior, segundo dados da Kpler.
Irã aposta que pode resistir à pressão de Washington
Autoridades do Golfo e analistas afirmam que o Irã está apostando que pode resistir a Washington por mais tempo, transformando as rotas comerciais, as rotas marítimas e a infraestrutura energética do Oriente Médio em pontos de pressão que elevam constantemente o custo do confronto
O país espera que tal estratégia convença os Estados Unidos e seus aliados de que conter a crise custaria mais do que atender às exigências do Irã em relação ao Estreito de Ormuz.
"A grande vantagem deles é que podem prejudicar os países da região e a economia global", disse Michael Knights, do Washington Institute.
Em uma postagem na rede social Truth Social na segunda-feira à noite, Trump chamou a liderança do Irã de "incrivelmente hipócrita", dizendo que eles haviam solicitado uma reunião e que mais negociações estavam marcadas para o "futuro imediato".
Ele também reiterou sua afirmação de que a Marinha dos EUA detém controle total sobre a via.
"A Muralha de Aço dos Estados Unidos! Nada chega ao Irã a menos que queiramos, e nada passará, a menos que um acordo, ou uma rendição total, seja alcançado", escreveu ele.
Padrão recorrente
Os eventos de segunda-feira (3) parecem se encaixar em um padrão desde que Trump lançou a "Operação Fúria Épica" em conjunto com Israel, há mais de cinco meses. O presidente já ameaçou com ação militar diversas vezes, apenas para, posteriormente, citar contatos diplomáticos como motivo para recuar.
O Irã, no entanto, rejeitou publicamente as negociações com Washington desde o colapso, no início de julho, de um memorando de entendimento assinado por ambas as partes no mês anterior, com o objetivo de pôr fim ao conflito.
Trump ainda não alcançou os objetivos que estabeleceu no início da guerra: desmantelar o programa nuclear do Irã, restringir sua capacidade de atacar rivais regionais e criar condições para que os iranianos derrubem seus governantes clericais.
As repetidas ações dos EUA têm sido recebidas com respostas cada vez mais intensas do Irã contra as forças americanas na região, os aliados árabes de Washington no Golfo e o tráfego marítimo, terminando sempre com Trump recuando.
A disputa sobre o Estreito de Ormuz continua sendo um ponto central de discórdia, com Washington afirmando que o memorando de junho exigia que o Irã abrisse a via navegável, enquanto Teerã afirma que o texto preservava explicitamente sua autoridade sobre o tráfego marítimo.


