Guterres admite que Conselho de Segurança da ONU precisa de reformas

Secretário-geral diz que órgão formado após Segunda Guerra Mundial precisa abrir espaço para países africanos; diplomata defendeu solução de dois Estados em Gaza para o que chamou de genocídio

Yasmin Caetano, da CNN Brasil
Compartilhar matéria

O secretário-geral da ONU, António Guterres, admitiu na 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas nesta terça-feira (22) a importância da reforma do Conselho de Segurança da organização, para que ele reflita o mundo de hoje.

“O Conselho de Segurança foi criado no rescaldo da Segunda Guerra Mundial. Mas o mundo mudou fundamentalmente desde então. E essa mudança está longe de ser refletida no Conselho de Segurança", afirmou.

“O exemplo mais impressionante é a África. Quando a ONU foi fundada, a maior parte da África ainda estava sob domínio colonial. Hoje, a África continua sem um assento permanente no conselho. Um Conselho de Segurança do século 21 sem representação permanente da África é injusto e indefensável. Isso precisa mudar", afirmou Guterres.

Para Guterres, o primeiro grande teste do poder no século 21 é a paz e a segurança, que ele definiu como "muito mais do que ausência de conflito - é a contenção do poder pela lei"

Ao introduzir o tema da segurança, ele citou guerras e conflitos armados pelo mundo, como no Oriente Médio, onde os cessar-fogos são "fogos menores", pagos com vidas de civis.

“Juntos, vamos enviar uma mensagem clara deste plenário: os combates precisam parar. A ajuda humanitária precisa chegar. E os direitos e as liberdades de navegação precisam ser plenamente restaurados, em conformidade com o direito internacional", disse.

Guterres citou diretamente a situação que chamou de "devastadora" no Território Palestino Ocupado. “Já se passaram quase três anos desde os abomináveis ataques terroristas do Hamas em 7 de outubro. O que veio depois foi uma ofensiva contra os palestinos em Gaza, em uma escala de mortes e destruição diferente de tudo o que testemunhei em todos os meus anos como secretário-geral.”

Ao mesmo tempo, criticou o avanço de colonos israelenses em assentamentos da Cisjordânia ocupada, que estava sendo levada para uma limpeza "étnica". “Não podemos permitir que a solução de dois Estados desapareça diante dos nossos olhos", afirmou.

Ao citar a guerra da Ucrânia, disse que civis ucranianos e russos são vítimas da guerra "brutal".

Ele também mencionou o conflito no Sudão que, "alimentada por atores externos, tornou-se uma guerra contra os civis", com milhões de pessoas deslocadas, fome se espalhando e violência sexual. "Um país está sendo dilacerado enquanto o mundo desvia o olhar."

Em Mianmar, disse Guterres, outra crise corre o risco de escapar da atenção global, com o aumento da violência, deslocamentos em massa e a expansão do crime transnacional.

“Excelências, esses e tantos outros conflitos mostram o que acontece quando o poder sai de controle, quando a força avança mais rápido que a diplomacia, os gastos militares disparam e a responsabilização é deixada de lado.”

“O desafio que temos diante de nós é saber se o poder será exercido dentro da lei — ou além dela. Precisamos passar nesse teste.”