Hong Kong e Xangai perdem brilho internacional com restrições contra a Covid-19

Medidas severas para conter a variante Ômicron restringiram fortemente a vida dos moradores de ambas as cidades

Rua bloqueada em Xangai
Rua bloqueada em Xangai Kyodo News via Getty Images

Jessie Yeungda CNN

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As imagens reluzentes de Hong Kong e Xangai foram por muito tempo associadas à riqueza e ao glamour.

Entretanto, nas últimas semanas, elas se tornaram sinônimo de uma realidade muito mais sombria, à medida que as autoridades dos dois centros financeiros internacionais lutam para conter os surtos de Ômicron.

As medidas severas contra a Covid-19 restringiram fortemente a vida dos moradores de ambas as cidades, com Xangai entrando na terceira semana de confinamento exigido pelo governo e Hong Kong se irritando com o terceiro ano de quarentena e restrição de viagens.

Por serem as portas da China para o Ocidente, o fechamento de fronteiras e a suspensão de rotas aéreas deixaram as duas cidades isoladas de grande parte do mundo, mesmo com outros centros sendo abertos.

Na terça-feira (19), apenas um voo chegou a Hong Kong vindo de fora da região Ásia-Pacífico – um forte contraste com a era pré-pandemia, quando o aeroporto da cidade era um dos mais movimentados do mundo, com 1.100 voos diários de passageiros e carga chegando e saindo para 200 destinos internacionais.

Agora, a maior parte do tráfego é de saída, levando moradores que fogem de Hong Kong para áreas mais favoráveis, com menos restrições. Em fevereiro e março, mais de 180 mil pessoas deixaram a cidade, enquanto apenas cerca de 39 mil entraram, segundo dados de imigração.

Xangai, assim como Hong Kong, é lar de um grande número de estrangeiros, mas crescem os temores de que isso também possa mudar em breve.

Jörg Wuttke, presidente da Câmara de Comércio da União Europeia na China, estima que o país perdeu cerca de 50% dos expatriados europeus desde o início da pandemia e alerta que pode haver outro êxodo de famílias nos próximos meses, quando o ano letivo terminar. “Eu não ficaria surpreso se outra metade (dos que restam) deixasse o país”, afirmou à CNN na semana passada.

Um relatório recente da Câmara de Comércio Britânica na China parece concordar com essa estimativa, ressaltando que as escolas internacionais da China podem perder ao menos 40% dos professores antes do próximo ano letivo, o que pode levar mais famílias a se mudarem.

Essas saídas do país são impulsionadas pela adesão da China a uma política intransigente de “Covid zero” que envolve uma combinação de quarentenas rigorosas nas fronteiras, confinamentos e testagem em massa em uma tentativa de erradicar as infecções.

No entanto, essas medidas não parecem serem mais suficientes diante da última onda de Ômicron. Hong Kong registrou a maior taxa de mortalidade per capita da Ásia e Oceania no mês passado, quando os casos aumentaram e o vírus se espalhou por lares de idosos.

Xangai mergulhou em uma crise logo em seguida, com todos os seus 25 milhões de residentes em confinamento obrigatório no final de março.

Muitos em Xangai se queixam de não ter acesso a alimentos, itens básicos e até cuidados médicos em emergências. Relatos de profissionais de saúde forçando idosos a ficarem em quarentena e de trabalhadores matando um cachorro de estimação da raça Corgi após seu dono ter um teste positivo incitou uma revolta pública incomum contra o governo nas redes sociais chinesas.

“Xangai está nos encurralando, eles não nos tratam nem um pouco como ser humano”, escreveu um usuário no Weibo, a plataforma chinesa altamente censurada semelhante ao Twitter.

“Não consigo entender. Como pode ser tão ruim assim? O que está acontecendo com Xangai?” diz outro comentário do Weibo.

Antes dessa onda, as autoridades de Xangai se orgulhavam de sua abordagem pouco inconveniente para conter os surtos e evitavam testagem em massa, uma prática realizada em outras grandes cidades chinesas.

Hong Kong também já foi exaltada como uma história de sucesso de “Covid zero”. Embora já tivesse enfrentado vários surtos, sua taxa de mortalidade permaneceu baixa até uma quinta onda chegar em fevereiro.

O risco de infecção parecia tão baixo que muitos moradores – principalmente idosos – não viam a vacinação como uma prioridade, deixando grande parte da cidade vulnerável quando a Ômicron atacou.

Agora, à medida que um número crescente de moradores tenta sair, essa sensação de segurança relativa e a posição de ambas as cidades como capitais internacionais de viagem e comércio parecem mais distante do que nunca.

“Passamos mais de um mês sem faturar nada com nossos negócios”, comenta Josh Vaughn, um empresário americano em Xangai que tem uma marca on-line de óculos de sol. “Fico estressado só de pensar nisso porque não sei quando esse lockdown vai acabar… Temo que isso possa ser o fim da minha empresa.”

Vaughn contou que, após contrair Covid-19 este mês, ele foi tratado de maneira hostil por seus vizinhos, que relutaram em deixá-lo voltar ao seu prédio depois que ele recebeu alta do hospital – experiência semelhante a de outros expatriados que se sentiram rejeitados.

Wuttke, presidente da Câmara de Comércio da União Europeia, alertou que o impacto econômico das restrições à Covid na China pode levar algumas empresas estrangeiras a considerar a retirada de suas sedes regionais da grande China, colocando o futuro de grandes centros comerciais como Xangai e Hong Kong em questão à medida que o resto do mundo se abre.

Singapura, que durante anos competiu com Hong Kong no título de principal centro internacional de negócios da Ásia, foi o primeiro país asiático a declarar fim à política de “Covid zero” e passar a conviver com o vírus no ano passado.

Alguns no setor empresarial de Hong Kong estão de olho na cidade-estado do Sudeste Asiático, que suspendeu todos os requisitos de quarentena para viajantes vacinados em abril.

As autoridades chinesas reconheceram essa situação precária com um comentário da líder de Hong Kong, Carrie Lam, no final de março: “Sinto que a tolerância das pessoas está acabando, que algumas de nossas instituições financeiras estão perdendo a paciência com esse confinamento de Hong Kong, pois a cidade é um centro financeiro internacional.”

Em um esforço para impulsionar a economia decadente de Hong Kong, Lam suspendeu algumas proibições de voos e reduziu os requisitos de quarentena no mês passado.

Porém talvez seja tarde demais, sobretudo porque as autoridades chinesas e a mídia estatal reforçam a retórica de elogio à política de “Covid zero” da China, oferecendo pouca esperança de que esses centros financeiros internacionais se abram em breve.

Gabriele, um italiano morador de Xangai que pediu para ser identificado apenas pelo primeiro nome, teve um teste positivo no início de abril e desde então está confinado em seu apartamento, há mais de três semanas.

Descrevendo a situação como um “pesadelo”, Gabriele contou que os profissionais de saúde disseram que iriam fazer um novo teste nele, mas “nunca mais apareceram”, e as tentativas de contato com as autoridades locais não deram em nada. “Nós nos sentimos impotentes”, desabafa.

Agora, ele está pensando em voltar para seu país em caráter definitivo, deixando para trás um lugar que já amou. “A cidade perdeu completamente o seu brilho. Não sei se vai se recuperar. É como se fosse uma cidade totalmente diferente. Parece que estamos voltando no tempo em vez de olhar para o futuro.”

*Reportagem adicional de Akanksha Sharma e Michelle Toh da CNN

Este conteúdo foi criado originalmente em inglês.

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