Imagens revelam destruição “padrão Gaza” após ataques de Israel no Líbano
Em operações terrestres semelhantes às vistas no território palestino, tratores derrubam prédios e demolições reduzem vilarejos a escombros enquanto aviões de guerra lançam ataques aéreos
Quando o Hezbollah disparou foguetes contra Israel em 2 de março, dois dias depois de Israel e os Estados Unidos lançarem uma guerra contra o Irã, a operação israelense resultante para destruir o grupo rapidamente se transformou em uma missão de arrasar áreas do sul do Líbano.
Enquanto aviões de guerra israelenses realizavam ataques aéreos em todo o país, soldados tomavam mais território no sul. As operações terrestres começaram a se assemelhar às vistas em Gaza: tratores derrubando prédios e demolições reduzindo vilarejos inteiros a escombros.
Mesmo após o acordo de cessar-fogo da semana passada entre Israel e o Líbano, essas operações terrestres continuaram.
Uma análise da CNN de imagens de satélite revela a escala da destruição.
Centenas de edifícios — a maioria aparentemente residências — foram completamente destruídos ou tornados inabitáveis.
Imagens de satélite e vídeos após o anúncio do cessar-fogo de 16 de abril mostram demolições continuando em ritmo acelerado, com escavadeiras e veículos blindados claramente visíveis.

Grupos de direitos humanos soaram o alarme, alertando que a ofensiva militar de Israel está reproduzindo táticas usadas em Gaza — desde ataques intensos a infraestrutura crítica e instalações de saúde até o alvo de jornalistas e guerra psicológica.
Autoridades israelenses delinearam planos para uma “zona de segurança” de longo prazo dentro da fronteira — embora o termo preferido agora seja “área de linha avançada de defesa” — com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu afirmando que suas forças expandirão suas posições por 10 quilômetros dentro do Líbano.
Seguindo o ‘modelo Rafah’
Altos membros do governo israelense foram claros sobre o que isso significa.
O ministro da Defesa, Israel Katz, prometeu destruir todas as casas em vilarejos próximos à fronteira, em linha com o que chamou de “modelo Rafah e Beit Hanoun”.
Rafah e Beit Hanoun são cidades localizadas, respectivamente, nas extremidades sul e norte de Gaza, que foram devastadas pelas forças israelenses ao longo dos últimos dois anos e meio.
Após o anúncio do cessar-fogo na semana passada, Katz reforçou a posição, dizendo que a “destruição de casas nos vilarejos da linha de contato libanesa” continuará, descrevendo-os como “postos terroristas”.
O Exército israelense afirma que está mirando a infraestrutura do Hezbollah em todo o país em resposta ao lançamento de milhares de foguetes, drones e mísseis antitanque contra Israel desde 2023.
Segundo o Exército, o Hezbollah instala e armazena armas em casas civis, divulgando imagens de armamentos e munições que, segundo diz, seus soldados encontraram durante buscas, além do que afirmou ser um centro de comando subterrâneo escondido sob uma loja de roupas.
Altos oficiais das Forças de Defesa de Israel (IDF) dizem que Israel imporá o que chama de “linha amarela” no Líbano, impedindo moradores de retornar às áreas ocupadas pelos militares israelenses.
Trata-se de uma tática diretamente inspirada na retomada da ocupação do território de Gaza por Israel.
Lá, começou como uma linha amarela temporária em um mapa — delimitando uma área ocupada pelos militares israelenses após o cessar-fogo mediado por Trump em outubro passado.
Mas, após algumas semanas, blocos de concreto pintados de amarelo começaram a aparecer no terreno, dando um caráter de permanência que só se intensificou. Cruzar a linha continua proibido para os moradores, centenas dos quais foram mortos a tiros por se aproximarem demais, segundo autoridades palestinas.
A nova linha amarela de Israel no sul do Líbano parece igualmente divisiva, separando 55 cidades e vilarejos do restante do país.
As IDF instruíram os moradores a não retornarem, abrindo fogo contra pessoas que, segundo disseram, se aproximaram da linha amarela em várias ocasiões, acrescentando que estão “autorizadas a continuar destruindo infraestruturas terroristas mesmo durante o cessar-fogo”.
Grande parte do sul do Líbano — uma região majoritariamente muçulmana xiita com forte presença do Hezbollah — já havia sido danificada e despovoada após mais de dois anos de guerra com Israel. Mas a destruição se intensificou após o início da mais recente ofensiva, em 2 de março.
A CNN analisou imagens de satélite fornecidas pela Airbus para avaliar a crescente escala dos danos com a retomada das hostilidades.
Nos primeiros 10 dias da ofensiva israelense de março, a CNN contabilizou 523 edifícios destruídos em 22 comunidades. Além de casas, a análise indica que forças israelenses destruíram mesquitas, farmácias, cafés e oficinas mecânicas.
Vídeos filmados por moradores mostram demolições controladas sendo realizadas, enquanto imagens de satélite revelam um padrão de tratores e escavadeiras israelenses operando em áreas já fortemente danificadas, indicando forças terrestres avançando para regiões anteriormente atingidas por ataques aéreos.
Ciclo de deslocamento
Para os moradores do sul do Líbano, esta guerra representa mais um capítulo de deslocamento.
Quase 1,3 milhão de libaneses foram deslocados, segundo o Comitê Internacional de Resgate. A maioria é de comunidades xiitas, muitas das quais já haviam sido forçadas a deixar suas casas em 2024.
Hassan Rammal é uma dessas pessoas.
Seu vilarejo, Adaisseh, fica exatamente na fronteira entre Israel e o Líbano. Muitos de seus moradores, assim como o próprio Rammal, apoiam o Hezbollah.
O empresário de 62 anos fugiu com a esposa e três filhos para Beirute no início de 2024, esperando voltar quando a guerra diminuísse.
“O deslocamento tem um sentido de tragédia. Deixar suas memórias, sua casa, deixar tudo o que você plantou; tudo o que construiu e fez crescer com suas próprias mãos”, disse à CNN.
Pouco depois de fugir, Rammal afirmou ter recebido a notícia de que sua casa havia sido destruída, provavelmente por um ataque aéreo.
“Senti como se alguém tivesse arrancado da minha alma e da minha vida todas as minhas memórias”, disse.
Rammal também possuía um prédio comercial e residencial de vários andares nas proximidades, parcialmente danificado pelo ataque. Havia lojas no térreo e quatro apartamentos nos andares superiores. Após Israel e Hezbollah concordarem com uma cessação das hostilidades em novembro de 2024, ele voltou a Adaisseh para reconstruir o complexo, esperando morar em um dos apartamentos com a família.
A construção começou em fevereiro deste ano, mas foi interrompida poucas semanas depois, quando a guerra recomeçou. Junto com a família, Rammal deixou Adaisseh novamente.
Pouco tempo depois, ele recebeu um vídeo filmado por drone, mostrando imagens apocalípticas de seu vilarejo. Quase todos os edifícios haviam sido reduzidos a escombros, incluindo aquele que ele tentava reformar.
Uma imagem de satélite capturada dias antes, em 18 de março, mostrava duas escavadeiras a poucos metros de sua propriedade, que ainda estava de pé naquele momento, indicando que provavelmente foi demolida por tratores israelenses.
Histórias semelhantes se repetem em outros lugares. Em Khiam, cerca de 5 quilômetros ao norte da fronteira, áreas verdes se tornaram marrons após obras de terraplanagem israelenses. Imagens de satélite de 22 de abril mostram tratores e escavadeiras operando na região.
Ali Al-Abbani, de 20 anos, sempre viveu em Khiam e é jovem demais para ter vivenciado guerras anteriores do Líbano com Israel. “Esta é a primeira guerra que eu vivi, e não consigo nem começar a descrever o quão aterrorizante é”, disse à CNN do Vale do Bekaa, onde está deslocado com os pais e o irmão.
Sempre que um drone ou caça israelense sobrevoa a região, ele contou à CNN, seu corpo entra em choque, e ele frequentemente corre para o abraço da mãe. Quando viu uma imagem de satélite de seu vilarejo enviada em um grupo de WhatsApp no início do mês, viu que sua casa havia sido reduzida a escombros.
“Minha mãe passou a noite inteira chorando. Eu comecei a chorar… todas as minhas memórias estão naquela casa, em cada canto”, disse.

‘Não haverá zona de amortecimento’
O atual cessar-fogo entre Israel e Hezbollah é o segundo desde o início da guerra, em outubro de 2023. Após o primeiro, em novembro de 2024, Israel manteve presença militar no sul do Líbano, operando cinco bases avançadas, confirmadas pelas IDF. Outras quatro posições israelenses também parecem ter sido estabelecidas entre outubro de 2025 e janeiro de 2026, segundo análise da CNN de imagens de satélite, embora o Exército israelense não tenha confirmado publicamente essas bases.
Jeremy Binnie, especialista em defesa do Oriente Médio da Janes, uma empresa de inteligência de defesa sediada em Londres, disse à CNN que as IDF provavelmente estão expandindo sua presença para “ter melhor visibilidade do território libanês do que as posições israelenses existentes na fronteira”.
Ele afirmou que isso está alinhado com os planos israelenses de ocupar a nova zona de segurança a longo prazo, mas alertou que construir posições adicionais mais profundamente no país pode deixar soldados israelenses “ocupando posições isoladas expostas a inevitáveis ataques insurgentes”.
Por sua vez, o Hezbollah afirma que não reconhecerá o cessar-fogo enquanto Israel não se retirar, prometendo “resistir à ocupação e expulsá-la de nossa terra”.
O futuro de 600 mil libaneses no sul permanece incerto — tanto em relação ao retorno para casa quanto à existência de casas para as quais possam retornar.
Rammal, o empresário de 62 anos, diz que o Líbano “nunca teve um dia de paz” com seu vizinho ao sul.
E ele despreza os planos de Israel de ocupar partes do sul do Líbano.
“Diz que quer manter seu país seguro, enquanto torna outros países inseguros. Pode dizer o que quiser — não haverá zona de amortecimento”, afirma.
“Mesmo que só possamos montar uma tenda, eu voltarei… este é o meu vilarejo, até o meu último suspiro.”


