Incerteza global destrói política externa brasileira, alerta professor

Guilherme Casarões, da Florida International University, nos Estados Unidos, aponta que instabilidade força o país a fazer escolhas difíceis sobre militarização ou aliança com potências

Jorge Fernando Rodrigues, da CNN Brasil
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O mundo organizado em torno da incerteza, agravado pela atuação do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, está destruindo os fundamentos da política externa brasileira e empurrando o país para escolhas "terrivelmente" difíceis. Essa é a análise do cientista político Guilherme Casarões, professor de Estudos Brasileiros da Florida International University, em participação no programa “WW Especial”, da CNN, que debateu a disputa de influência entre China e EUA no Brasil e na América Latina. 

“Trump tem conseguido bagunçar ainda mais um mundo que já estava organizado em torno da incerteza, cenário que se arrasta desde a crise global de 2008. Eu vejo Trump menos como um presidente típico do século XX e mais como um homem do século XIX", afirmou.  

Casarões avalia que a grande diferença entre o mundo atual e o da Guerra Fria é que hoje não existem apenas dois polos dominantes, mas sim um cenário que se abre para a multipolaridade emergente. 

“O que torna o momento semelhante ao século XIX, especificamente o último quarto daquele período — época do imperador Guilherme II [o último soberano alemão] e da disputa entre potências europeias pelo controle global —, é a ausência de regras estáveis e de multilateralismo”, explicou.  

Segundo o professor, neste mundo em transição de uma unipolaridade para uma bipolaridade tensa e multipolaridade emergente, atores como Índia e, principalmente, a Rússia, tentam ocupar um espaço mais vigoroso. 

“Neste contexto global, em que prevalece a força e a coerção econômica é instrumentalizada, a situação é terrível para o Brasil. A incerteza crescente e a imprevisibilidade impedem o planejamento de longo prazo, minando a base da diplomacia nacional”, alertou.  

O professor enfatiza que a política externa brasileira se assenta tradicionalmente em três princípios fundamentais: o princípio da soberania, o princípio do pacifismo e o princípio do multilateralismo. 

"Esses três princípios estão sendo sistematicamente e recorrentemente colocados em xeque, não só pelos americanos, mas sobretudo pelos americanos que foram responsáveis por muito tempo por organizar essa ordem internacional", destacou. 

Paradoxalmente, ainda de acordo com Guilherme Casarões, o mundo da Guerra Fria, apesar de suas falhas, era "muito melhor para o Brasil, pois havia pelo menos algumas regras em curso, permitindo que o país agisse ocasionalmente como um criador de regras ocasional”. 

O cientista político pontua que, diante da instabilidade atual, que coloca os princípios de política externa brasileira em risco, o país está sendo empurrado para uma situação em que terá que fazer escolhas muito difíceis no médio prazo. 

“Em primeiro lugar, a possibilidade de o Brasil se militarizar e participar do ‘jogo dos fortões’, que é uma coisa que o país nunca desejou. A outra escolha é a necessidade de escolher entre Estados Unidos e China. Essas são decisões que vão de encontro ao interesse nacional brasileiro e que o país, definitivamente, nesse momento não quer fazer em hipótese alguma", concluiu. 

WW Especial

Apresentado por William Waack, o programa é exibido aos domingos, às 22h, em todas as plataformas da CNN Brasil.

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