Índia planeja vacinar 300 milhões até agosto — mais que a população do Brasil

Governo da Índia tem projeto de vacinar 300 milhões de pessoas na fase 1 de imunização contra a Covid-19, voltada ao grupo prioritário

O governo do premiê indiano Narendra Modi quer vacinar o grupo prioritário do país até agosto contra a Covid-19. São 300 milhões de pessoas (e 600 milhões de doses)
O governo do premiê indiano Narendra Modi quer vacinar o grupo prioritário do país até agosto contra a Covid-19. São 300 milhões de pessoas (e 600 milhões de doses) Foto: Instagram/ Reprodução

Da CNN, em São Paulo*

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Com mais de 10 milhões de casos do novo coronavírus, a Índia é o segundo país mais atingido pela pandemia da Covid-19 em números absolutos, atrás apenas dos Estados Unidos – embora tenha registrado cerca de 40 mil menos mortes a menos do que o Brasil até aqui.

Com a aprovação das primeiras vacinas contra o vírus em outras partes do mundo, o governo indiano agora espera sair da crise de saúde pública nos próximos meses com uma campanha massiva de imunização — cobrindo, apenas na primeira fase, mais pessoas do que  toda população brasileira e quase o total dos habitantes dos Estados Unidos.

O governo do primeiro-ministro indiano Narendra Modi identificou 300 milhões de pessoas de “grupo prioritário” para receber as primeiras doses das vacinas, em um cronograma que iria até agosto. Para tanto, seriam necessárias 600 milhões de doses.

O grupo prioritário é formado por 30 milhões de profissionais de saúde, policiais, soldados e voluntários e 270 milhões de pessoas mais vulneráveis ao vírus — a maioria cidadãos com mais de 50 anos e 10 milhões de outras pessoas com comorbidades graves.

A população total indiana é de cerca 1,3 bilhão de pessoas – enquanto os EUA têm cerca de 330 mil; e o Brasil, 212 mil.

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Plano ambicioso

Os produtores das três principais vacinas candidatas contra o novo coronavírus solicitaram autorização para uso emergencial na Índia, e todas elas requerem duas doses para fornecer imunidade suficiente.

Com isso, seriam cerca de 600 milhões de doses para serem administradas apenas na primeira fase – e o governo de Modi quer concluir todo o processo até agosto.

Esse é um empreendimento incrivelmente ambicioso, especialmente para um país em desenvolvimento com infraestrutura deficiente (sobretudo nas áreas rurais) e um sistema de saúde público inadequado que já está sofrendo com a pressão do novo coronavírus.

Mas a Índia também tem suas próprias vantagens. Como um centro global para a fabricação de vacinas, suas linhas de produção em massa podem produzir imunizantes contra a Covid-19 — desenvolvidas por empresas farmacêuticas ocidentais ou internamente — mais rápido e mais barato do que a maioria dos outros países.

No que diz respeito ao processo de vacinação em si, a Índia já tem uma vasta rede estabelecida sob seu Programa de Imunização Universal, que inocula cerca de 55 milhões de pessoas por ano. Modi também sugeriu que o país pode tirar proveito de sua experiência na organização das maiores eleições democráticas do mundo, adotando uma abordagem de conjunto da sociedade que envolve a participação de estados, distritos, sociedade civil, cidadãos e especialistas.

“Cada indiano que precisa ser vacinado será vacinado”, disse o secretário de Saúde indiano, Rajesh Bhushan, em uma entrevista coletiva em 8 de dezembro.

Três vacinas aguardam aprovação

Das três vacinas candidatas contra a Covid-19 que aguardam aprovação dos reguladores indianos, duas estão sendo fabricadas localmente no país.

Uma delas é a Covishield, a vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford e a AstraZeneca, que vem sendo produzida pelo Serum Institute of India, o maior fabricante mundial de vacinas.

A outra é a primeira vacina contra o novo coronavírus desenvolvida localmente na Índia: a Covaxin, produzida em conjunto pela Bharat Biotech e pelo governo indiano.

A Pfizer Índia também solicitou autorização de uso emergencial para a vacina desenvolvida em parceria com a BioNTech, segundo o Dr. VK Paul, chefe do grupo nacional de especialistas em vacinação contra a Covid-19, confirmou à CNN.

 

Maior fabricante de vacinas pretende priorizar a Índia

Adar Poonawalla, o CEO do Serum Institute of India, disse que sua empresa está produzindo atualmente de 50 a 60 milhões de doses da vacina de Oxford por mês, e a produção será aumentada para 100 milhões de doses mensais após janeiro ou fevereiro.

“Acho que todos estão cientes de que o Ministério da Saúde deseja de 300 a 400 milhões de doses até julho de 2021, então estamos tentando atingir essa meta”, disse ele em entrevista coletiva no mês passado.

Uma empresa familiar iniciada pelo pai de Poonawalla há 50 anos para levar vacinas mais baratas às massas, o Serum Institute of India tem como objetivo produzir centenas de milhões de vacinas contra o novo  coronavírus não apenas para a Índia, mas também para outros países em desenvolvimento.

Mas Poonawalla deixou claro que sua empresa se concentrará em primeiro imunizar a Índia, antes de enviar as vacinas para o exterior.

“É muito importante cuidarmos primeiro de nosso país, depois passarmos para a Covax e depois para outros acordos bilaterais com países. Portanto, mantive essa prioridade”, disse Poonawalla em entrevista à CNBC-TV 18 no mês passado, de acordo com a agência Reuters.

Covax é uma iniciativa global apoiada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) para garantir a distribuição rápida e equitativa das vacinas contra a Covid-19 para países ricos e pobres. O projeto, porém, foi evitado pelos EUA, em parte porque o presidente americano, Donald Trump, não queria trabalhar com a OMS.

Vacinas mais baratas e o problema do ‘congelamento’

De acordo com o Serum Institute of India, a vacina de Oxford poderia ser vendida ao governo indiano por cerca de US$ 3 por duas doses e, posteriormente, de US $ 6 a US $ 8 no mercado privado. Isso é provavelmente muito mais barato do que a vacina Pfizer-BioNTech, que é vendida ao governo dos EUA por US$ 19,5 para uma única vacina – embora a Pfizer Índia não tenha anunciado o preço local.

A vacina de Oxford tem outra vantagem – só precisa ser armazenada em temperaturas de geladeira padrão de 2 a 8 graus Celsius. O imunizante da Pfizer, por outro lado, requer uma temperatura de armazenamento ultracongelado de -75°C – infraestrutura que falta à Índia. A vacina também deve ser usada em cinco dias, uma vez resfriada em temperaturas mais altas.

“A Índia tem muita infraestrutura de armazenamento” para temperaturas de 2°C a 8°C, disse Poonawalla. “Tem um pouco menos de espaço de armazenamento para -20 e quase nada para -70.”

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Os preparativos em andamento na Índia 

A Índia não apenas produz mais de 60% de todas as vacinas vendidas em todo o mundo, mas também administra um dos maiores sistemaas de vacinação do planeta.

O Programa de Imunização Universal do país inocula mais de 26 milhões de recém-nascidos e 29 milhões de mulheres grávidas anualmente contra doenças como poliomielite, sarampo e hepatite B, e mais de 9 milhões de sessões de imunização são realizadas na Índia todos os anos, de acordo com a OMS.

“Temos a vantagem de ter executado um grande programa de imunização universal em todo o país”, disse o professor K. Srinath Reddy, presidente da Fundação de Saúde Pública da Índia. “Até certo ponto, nosso sistema de saúde está bastante bem preparado.”

Mas vacinar 55 milhões de pessoas em um ano ainda está muito longe da meta de 300 milhões em apenas oito meses.

O país tem atualmente 239 mil vacinadores no Programa de Imunização Universal, mas menos de 65% deles serão enviados para administrar vacinas contra o novo coronavírus, para evitar interrupções nas vacinações de rotina, segundo Bhushan, o secretário de saúde.

Ele disse que o governo central está em colaboração com os estados para providenciar vacinadores adicionais, mas não revelou quantos funcionários serão acrescentados.

“Conseguir força de trabalho adequada para administrar as injeções, monitorar os efeitos colaterais e, em seguida, garantir que as pessoas voltem para a segunda injeção também — acho que esse será o desafio que teremos que enfrentar”, Reddy disse.

De acordo com as diretrizes do governo divulgadas na segunda-feira, 100 a 200 pessoas serão vacinadas por sessão por dia e monitoradas por meia hora após receberem as vacinas para examinar quaisquer efeitos adversos, relatou a afiliada CNN News 18.

Uma plataforma digital, o sistema Covid Vaccine Intelligence Network (Co-WIN), será implementada para rastrear os participantes alistados e a entrega das vacinas Covid-19.

O governo também está aumentando seus estoques de equipamentos de armazenamento da cadeia de frio, como refrigeradores e freezers walk-in, freezers e geladeiras forradas com gelo. Atualmente, o país tem mais de 80.000 peças de equipamentos de cadeia de frio em cerca de 29.000 locais, que podem armazenar vacinas contra a Covid-19 suficientes para os primeiros 30 milhões de trabalhadores da linha de frente, disse Bhushan.

“Todos os recursos necessários de vacinação já foram entregues aos estados”, acrescentou.

 

O modelo criada pelas maiores eleições do mundo

O Programa de Imunização Universal da Índia, com décadas de experiência, tradicionalmente se concentra nas crianças – e em menor medida nas mulheres. Sua campanha de vacina contra o novo coronavírus, no entanto, se concentrará em adultos e enfrenta desafios em termos de número de vacinas e na logística para reunir pessoas, disse Reddy.

E é aí que a máquina eleitoral da Índia para mobilizar a enorme população adulta do país pode ser útil, disse ele.

“Temos um maquinário bem organizado, que faz isso em fases em diferentes partes do país”, disse Reddy. “É um processo muito ordenado, que ocorre de maneira extremamente suave, mesmo nos cantos mais remotos do país. Então, em termos de mobilização de adultos, é um processo bastante testado. “

Nas eleições gerais de 2019, a Índia mobilizou 900 milhões de eleitores em menos de seis semanas. Todo o processo de votação foi escalonado em sete fases e espalhado por todo o país.

“O mesmo processo de identificação e escalonamento pode ser facilmente replicado aqui (para a campanha de vacinação). Claro, a administração da vacina em si terá de ser feita por pessoas treinadas para isso”, disse Reddy.

E Reddy acredita que treinar novos vacinadores não será uma tarefa difícil.

“É apenas uma questão de treinar as pessoas para administrar injeções intramusculares com segurança e monitorar os efeitos colaterais”, disse ele. “Podemos realmente recrutar pessoas com formação científica, de preferência graduados em áreas biológicas, que possam ser facilmente treinados e incluídos no processo como vacinadores sob supervisão.”

Será possível vacinar 1,3 bilhão de pessoas?

Como o segundo país mais populoso do mundo, a estratégia da Índia é vacinar “uma massa crítica de pessoas e interromper a transmissão do vírus”, para que não tenha que vacinar toda a população de 1,3 bilhão, de acordo com Balram Bhargava, diretor-geral da o Conselho Indiano de Pesquisa Médica.

O secretário da Saúde, Bhushan, também disse em entrevista coletiva no mês passado que “o governo nunca falou em vacinar o país inteiro”.

Reddy, da Fundação de Saúde Pública da Índia, disse que após a primeira fase de 300 milhões de pessoas serem vacinadas, os especialistas podem avaliar melhor a quantidade de ameaça que o vírus permanece e então decidir quantas pessoas mais precisarão ser inoculadas.

“Esta é uma epidemia em evolução. E nossa resposta terá que ser adaptativa até em termos de decidir quantos e quando seremos vacinados.” Disse Reddy.

“É possível que as condições mudem e, a essa altura, o vírus não seja tão ameaçador quanto é no momento. Mas, com o passar do tempo, acredito que cerca de 60% a 70% da população precisaria ser imunizada , disse ele.

 

* Com informações de Vedika Sud e Nectar Gan, da CNN

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