Índia transforma trens em hospitais e fecha ferrovias pela 1ª vez em 167 anos

No dia 1.º de abril, país registrou 4.288 casos de COVID-19, incluindo 117 mortes

Na Índia, trens estão sendo transformados em unidades de tratamento para pacientes com COVID-19
Na Índia, trens estão sendo transformados em unidades de tratamento para pacientes com COVID-19 Foto: Reprodução - 29.mar.2020/ Reuters

Hema Ramaprasad,

da CNN

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Quando o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, determinou isolamento em todo país no dia 25 de março, a estatal Indian Railways (responsável pelo funcionamento da rede ferroviária) tomou a decisão – sem precedentes – de suspender todo o tráfego de passageiros pelo país até 14 de abril. É a primeira vez em 167 anos que a rede ferroviária mais antiga da Ásia decide suspender os serviços.

Agora, ela decidiu transformar os cerca de 20 mil vagões antigos em enfermarias de isolamento para pacientes com o novo coronavírus, medida que visa conter a propagação da doença.

A Indian Railways, quarta maior operadora de ferrovias do mundo e a maior empregadora da Índia, já tem 125 hospitais em funcionamento pelo país e o conhecimento necessário para expandir a rede para camas móveis.

No dia 1.º de abril, a Índia registrou 4.288 casos de COVID-19, incluindo 117 mortes, de acordo com a Universidade de Medicina Johns Hopkins – um número relativamente pequeno para um país com 1,3 bilhão de habitantes. 

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Enquanto o sistema de saúde indiano ainda não está sobrecarregado, os trens reaproveitados podem aliviar a pressão, caso o número de pacientes diagnosticados com o vírus comece a aumentar. “Agora, a rede ferroviária oferecerá locais limpos, desinfetados e higienizados para os pacientes poderem se recuperar confortavelmente”, disse Piyush Goyal, ministro das Ferrovias, no Twitter.

A rede ferroviária da Índia

Normalmente, a malha ferroviária da Índia opera milhares de trens de passageiros por dia, em rotas de longas distâncias e pelos subúrbios, ao longo de 7.349 estações pelo país.

O isolamento deixou os mais de 67 mil quilômetros de ferrovias sem uso e os trens de passageiros, ociosos. Os trens de carga, ou de produtos – como são chamados na Índia – continuam funcionamento normalmente.

As autoridades instruíram cada uma das 16 zonas ferroviárias a identificar vagões sem ar-condicionado que não estejam em operação nas rotas de passageiros, transformá-los em hospitais e deixá-los prontos para uso em caso de emergência.

As primeiras 5 mil enfermarias estarão prontas dentro de 15 dias e, se necessário, mais vagões serão transformados, em apenas 48 horas, afirmou Rajesh Dutt Bajpai, diretor executivo de informação e publicidade do Comitê Ferroviário da Índia.

Cada vagão poderá acomodar 16 pacientes e contará com um posto de enfermagem, uma cabine médica e um espaço para suprimentos e equipamentos médicos.

Assim que estiverem prontos, os trens serão enviados a qualquer local que possa enfrentar falta de leitos, em razão de um potencial aumento nos casos confirmados do novo coronavírus. Autoridades de saúde locais irão designar médicos, paramédicos, enfermeiras e voluntários da rede pública para atuar nos trens.

O governo da Índia também instruiu as fábricas a avaliar a viabilidade de produzir camas hospitalares, macas, máscaras, desinfetantes, aventais e equipamentos como respiradores para usar em hospitais ferroviários e outros.

Falta de leitos

Mesmo antes da pandemia de COVID-19, indianos já sofriam com a falta de leitos nos hospitais. Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o país tem 0,5 camas de hospital disponíveis a cada mil pessoas, a maioria em áreas urbanas, e a disponibilidade varia muito de estado para estado. No estado de Bihar, por exemplo, há 0,11 camas para mil pessoas, enquanto Bengala Ocidental tem com 2,5 camas para a mesma quantidade de cidadãos.

A China tem uma média nacional de quatro leitos para mil habitantes – e isso antes de construir um hospital de campanha com mil leitos em apenas dez dias na Província de Hubei, primeiro epicentro da doença.

Diante do aumento no número de infectados, especialistas dizem que a falta de um sistema robusto de saúde pública é um dos maiores desafios da Índia no momento. O isolamento é uma iniciativa boa, mas é uma solução a curto prazo, disse Shahid Jameel, virologista indiano.

Hospital em rodas

A Indian Railways tem experiência em administrar hospitais em trens. Lançada em 1991, a Lifeline Express fornece diagnóstico no local, além de tratamento médico e cirúrgico avançado para crianças e adultos. Em 29 anos de funcionamento, o trem hospitalar já passou por 19 estados indianos e tratou mais de 1 milhão de pessoas.

A iniciativa, que começou como uma colaboração entre a fundação Impact India, a Indian Railways e o Ministério de Saúde da Índia, é financiada pelo Instituto de Finanças Internacionais, instituições de caridade, corporações indianas e pessoas em geral.

O trem hospitalar é equipado para tratar uma variedade de doenças, de catarata, lábio leporino, problemas de audição e epilepsia até problemas de mobilidade, cirurgias plásticas e dentárias, ressonância magnética, entre outros. O Lifeline Express ainda tem uma sala de operações, quartos para tratamento, enfermarias de recuperação, um vagão de despensa e acomodações para a equipe médica.

Os trens transformados para tratar pacientes com COVID-19 não foram desenvolvidos para servir como hospitais completos, mas autoridades de saúde locais terão uma alternativa para lidar com os infectados que não estão em estado crítico.

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