Instabilidade em correntes do Oceano Atlântico pode levar a mudanças climáticas

Colapso da Circulação Meridional de Capotamento do Atlântico teria consequências terríveis para o clima e vida na Terra, diz estudo

Foto: Getty Images (Arctic-Images)

Angela Dewan, CNN

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Um sistema crucial de correntes no Oceano Atlântico que ajuda a controlar as temperaturas no hemisfério norte e tem implicações para os sistemas climáticos de todo o planeta está mostrando sinais de instabilidade devido às mudanças climáticas causadas pelos seres humanos, dizem os cientistas. Seu colapso teria consequências terríveis para o clima e vida na Terra.

A Circulação Meridional de Capotamento do Atlântico (AMOC, na sigla em inglês) – da qual a Corrente do Golfo é uma parte importante – ajuda a manter o equilíbrio de energia no Oceano Atlântico. Ela é descrita muitas vezes como uma “esteira rolante” que pega a água quente de superfície dos trópicos e a distribui para o Atlântico Norte. A água mais fria e salgada então afunda e flui para o sul.

Um estudo, publicado quinta-feira (5) na Nature and Climate Change, alertou para “uma perda quase completa de estabilidade da AMOC ao longo do século passado. Os pesquisadores dizem que a circulação pode estar perto de um colapso, devido ao enfraquecimento, no entanto o limite para tal colapso ainda é incerto.

Os cientistas alertam há anos que a circulação está enfraquecendo. As chuvas fortes e o derretimento das camadas de gelo estão tornando a água do Atlântico Norte menos salgada, o que a deixa mais leve e menos propensa a afundar. Se a água nessa região ficar muito leve, toda a circulação pode ser interrompida.

Os padrões climáticos globais estão criticamente ligados à circulação e ao transporte de calor e nutrientes ao redor do planeta. Um colapso desse sistema resultaria em mudanças significativas e abruptas, incluindo o rápido aumento do nível do mar, invernos mais extremos na Europa Ocidental e interrupções nos sistemas de monções nos trópicos.

Também pode ter um efeito em cascata e desestabilizar outros componentes do sistema climático da Terra, incluindo a camada de gelo da Antártica e a Floresta Amazônica.

Esse cenário foi a premissa para o filme de ficção científica sobre clima de 2004 “O Dia Depois de Amanhã”, no qual uma série de desastres climáticos extremos acontecem depois que a mudança climática causou o colapso da AMOC.

A circulação está mais fraca do que há cerca de 1.000 anos, disseram os cientistas anteriormente, mas eles não sabiam se ela havia realmente se desestabilizado ou se estava passando por mudanças naturais. O estudo desta semana usou oito conjuntos de dados observando as temperaturas da superfície e salinidade no Atlântico Norte ao longo de um período de 150 anos, e mostrou que o aquecimento global tem causado a desestabilização.

“A diferença é crucial”, disse o autor do estudo, Niklas Boers, do Instituto Potsdam de Pesquisas sobre o Impacto Climático, à CNN por e-mail.

“Imagine uma cadeira, que pode ser deslocada (com as quatro pernas permanecendo no chão) ou inclinada. As duas coisas mudam a posição da cadeira (correspondendo à mudança na força média da AMOC), mas no primeiro caso a estabilidade da cadeira não será afetada, enquanto no último caso existe um ponto crítico. Se inclinarmos a cadeira um pouco mais, ela cairá. Meus resultados sugerem que o que está acontecendo com a AMOC é mais provável que seja uma inclinação do que apenas uma mudança, então a AMOC se moveu em direção ao limite crítico no qual pode entrar em colapso”, disse ele.

Boers acrescentou que ele próprio ficou surpreso com suas descobertas de que a AMOC havia sido desestabilizada e estava “caminhando em direção ao seu limiar crítico, no qual poderia entrar em colapso abruptamente”.

Um colapso da circulação significaria um resfriamento significativo na Europa, disse Beors, “mas talvez mais preocupante seja o efeito de um colapso da AMOC nos sistemas de monções tropicais da América do Sul, África Ocidental e Índia; especialmente na África Ocidental, um colapso da AMOC pode levar a condições de seca permanente”.

Boers reconhece em seu estudo que ele e outros cientistas ainda não sabem se e quando a corrente pode entrar em colapso, mas ele conclamou o mundo a reduzir as emissões de gases de efeito estufa “o máximo e o mais rápido possível”.

“Cada grama extra de gás de efeito estufa na atmosfera aumentará a probabilidade de um colapso da AMOC no futuro, portanto, emitir o mínimo possível, tanto no nível individual, mas claro também no nível coletivo e internacional, é a chave”.

O estudo antecede um importante relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da Organização das Nações Unidas (ONU) que será divulgado na segunda-feira (9). O relatório levou anos sendo elaborado e deve fornecer a visão mais conclusiva até então sobre a extensão das mudanças climáticas causadas pelo homem. Provavelmente, também mostrará um cenário de como será o futuro, dependendo de quais ações o mundo realizar para reduzir suas emissões de gases de efeito estufa.

Texto traduzido, leia o original em inglês.

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