Inteligência de Trump: China é a maior ameaça aos EUA desde a Segunda Guerra

O artigo de John Ratcliffe foi publicado no momento em que o governo Trump tomou várias medidas concretas contra Pequim, restringindo vistos e impondo sanções

John Ratcliffe, chefe da Inteligência no governo Donald Trump, durante posse, ao lado do presidente e do vice-presidente Mike Pence
John Ratcliffe, chefe da Inteligência no governo Donald Trump, durante posse, ao lado do presidente e do vice-presidente Mike Pence Foto: DNI EUA/divulgação

Zachary Cohen, da CNN

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A mais alta autoridade dos serviços de inteligência do governo Trump emitiu um alerta severo na quinta-feira (3), dizendo que a China está se preparando para “um período aberto de confronto com os EUA”. O documento pede uma ação bipartidária para enfrentar “a maior ameaça aos Estados Unidos hoje” e à “democracia em todo o mundo desde a Segunda Guerra Mundial”.

O Diretor de Inteligência Nacional John Ratcliffe também apontou em um novo artigo de opinião publicado no Wall Street Journal que a China fez uma campanha de influência de grande alcance nesse ano, tentando atingir várias dezenas de membros do Congresso e assessores parlamentares.

O artigo de Ratcliffe foi apenas o último aviso de membros do alto escalão do governo sobre as intenções da China, com alguns alertando sobre uma possível ação militar na Ásia e outros apontando esforços sem precedentes para influenciar o próximo governo Biden.

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O artigo foi publicado no momento em que o governo Trump tomou várias medidas concretas contra Pequim, limitando drasticamente os vistos para membros do Partido Comunista Chinês e revelando novas sanções às empresas chinesas.

O governo Trump também ordenou que a China fechasse seu consulado em Houston no início deste ano devido a alegações de que diplomatas chineses no posto intimidavam cidadãos norte-americanos e realizavam ações de espionagem. No começo de 2020, o secretário de Estado Mike Pompeo definiu o Partido Comunista Chinês como a “ameaça central de nossos tempos”.

Ratcliffe deu um tom mais urgente na quinta-feira (3) do que em comentários anteriores, ressaltando o fato de que ele e outros altos funcionários da segurança nacional do governo Trump estão tentando demonstrar publicamente suas preocupações com a China em seus últimos dias de trabalho.

“Esta geração será julgada por sua resposta ao esforço da China para remodelar o mundo à sua própria imagem e substituir os Estados Unidos como a superpotência dominante. Os serviços de inteligência são claros a esse respeito. Nossa resposta também deve ser”, escreveu Ratcliffe.

“O governo chinês está se preparando para um período aberto de confronto com os EUA. O governo norte-americano também deve estar pronto. Os líderes devem trabalhar através das divisões partidárias para entender a ameaça, falar sobre isso abertamente e tomar medidas para enfrentá-la”, acrescentou.

Um diretor sênior de segurança nacional disse à CNN que o artigo é parte de um esforço mais amplo de pressão sobre a China por parte de todo o governo atual antes que o presidente eleito Joe Biden tome posse.

Em parte, o esforço é motivado pelo desejo de tornar mais difícil para o governo Biden desfazer as políticas atuais, mas também pela crença de que essas advertências sobre a China serão comprovadas no futuro, disse a fonte.

Menos difícil para China?

Fontes familiarizadas com os planos de política externa de Biden dizem que o presidente eleito está bem ciente do desafio que Pequim representa, mas acredita que a abordagem de Trump – principalmente a de agir sem consultar aliados – minou o objetivo final de competir com a China.

Os principais democratas no Congresso também pediram aos membros da equipe de Biden, incluindo a escolhida para substituir Ratcliffe como Diretor de Inteligência Nacional (DNI), a tomar uma posição dura em relação à China, mas adotar uma abordagem diferente da do governo Trump.

“Eu pedi ao novo governo Biden para ser duro com a China, mas de uma forma muito mais inteligente e multilateral do que o governo Trump, para que os trabalhadores norte-americanos não sejam deixados para trás e os EUA liderem em setores críticos como semicondutores, computação quântica e energia limpa”, disse o líder da minoria, o senador Chuck Schumer, no início desta semana, após se reunir com a indicada por Biden para a função de Diretora de Inteligência Nacional, Avril Haines.

Biden disse que há áreas nas quais é do interesse dos EUA trabalhar com a China, incluindo mudança climática e Coreia do Norte, mas seus assessores enfatizam que ele trabalhará em estreita colaboração com os aliados para apresentar uma frente unida em questões como tecnologia, incluindo Huawei e 5G, roubo de propriedade intelectual e expansão da China em águas asiáticas e seus movimentos para esmagar a democracia em Hong Kong.

Ainda é preciso saber como Biden lidará com a China, mas as recentes advertências de autoridades de Trump que estão deixando o cargo podem aumentar a pressão sobre ele para priorizar a responsabilização de Pequim ou, pelo menos, complicar o cálculo em certas questões.

No artigo, Ratcliffe argumentou, por exemplo, que o tempo para convencer os aliados a se juntarem voluntariamente aos EUA na apresentação de uma frente única quando se trata de 5G pode ter passado e sugeriu que a situação exigia que o governo Trump adotasse uma abordagem mais enérgica.

“Os esforços da China para dominar as telecomunicações 5G apenas aumentarão as oportunidades do governo chinês de coletar inteligência, interromper as comunicações e ameaçar a privacidade do usuário em todo o mundo. Eu disse pessoalmente aos aliados dos EUA que usar essa

tecnologia de propriedade chinesa limitará severamente a capacidade dos EUA de compartilhar inteligência vital com eles”, disse ele.

“O mundo está apresentando uma escolha entre duas ideologias totalmente incompatíveis. Os líderes da China procuram subordinar os direitos do indivíduo à vontade do Partido Comunista. Eles exercem controle governamental sobre as empresas e subvertem a privacidade e a liberdade de seus cidadãos com um estado de vigilância autoritário”, acrescentou.

A afirmação de Ratcliffe de que a China está se tornando cada vez mais agressiva ao atacar os legisladores dos Estados Unidos para tentar influenciar a política norte-americana de dentro também pode prejudicar as perspectivas do governo Biden de cooperação diplomática com o governo chinês em outras áreas.

Especificamente, Ratcliffe disse que o governo chinês “se envolveu em uma campanha de influência massiva tendo como alvo várias dezenas de membros do Congresso e de seus assessores” no ano passado. Ele pontuou que os esforços de Pequim superaram os de outros adversários e rivais estrangeiros, incluindo a Rússia.

Embora os detalhes precisos dessa campanha de influência permaneçam altamente confidenciais, um diretor sênior da segurança nacional disse à CNN que o governo chinês usou uma variedade de táticas, incluindo tentativa de suborno e chantagem.

“Nossa inteligência mostra que Pequim regularmente dirige este tipo de operação de influência nos Estados Unidos. Informei aos comitês de inteligência da Câmara e do Senado que a China tem como alvo membros do Congresso com seis vezes a frequência da Rússia e 12 vezes a do Irã”, escreveu Ratcliffe no artigo de quinta-feira.

Enquanto isso, o governo chinês também tem “revetorizado” seus esforços de influência para funcionários do novo governo Biden e aqueles ao seu redor, disse o principal funcionário da contraespionagem dos EUA, Bill Evanina na quarta-feira.

Evanina, diretora do Centro Nacional de Contrainformação e Segurança dos Estados Unidos, chamou os esforços de “influência diplomática mais forte, anabolizada”, dizendo que a mudança era esperada.

“Estamos começando a ver isso acontecer em todo o país, não apenas com pessoas que estão no novo governo, mas também com gente ao redor delas na nova administração”, disse Evanina durante sua conversa sobre a China em o Aspen Cyber Summit. O objetivo é fazer com que os integrantes do governo Biden “saibam como é, qual é o seu gosto, como é quando você o vê”.

Aumento das tensões

Outras agências do governo Trump também tomaram medidas recentes que aumentarão as tensões entre Washington e Pequim.

O Departamento de Estado está impondo novas restrições aos vistos de viagem aos Estados Unidos para membros do Partido Comunista Chinês, segundo confirmou um porta-voz do Departamento de Estado na quinta-feira.

Pelas novas regras, a validade dos vistos de viagem dos membros do PCC e de seus familiares imediatos passará de dez anos para um mês e será de entrada única.

Os EUA também estão observando de perto o aumento da atividade militar chinesa em torno de Taiwan, outro ponto quente de tensão que pode representar problemas para o governo Biden.

“Estamos observando muito de perto e estaríamos prontos para qualquer coisa, incluindo um grave erro de cálculo por parte da China”, disse um alto funcionário do governo à CNN.

“Nós estamos mesmo os observando. Mais cedo ou mais tarde, eles estarão dispostos a levar as coisas a um ponto de ebulição em relação a Taiwan, como fizeram em Hong Kong e na fronteira com a Índia. Esse momento está chegando”, acrescentou a autoridade. Biden e a vice-presidente eleita Kamala Harris estão agora recebendo as mesmas instruções confidenciais de inteligência que o presidente Donald

Trump, o que significa que eles têm acesso a toda a gama de informações sobre as ações da China.

Mas, ao mesmo tempo, Biden e Harris só podem assistir dos bastidores até que façam o juramento e herdem as consequências de quaisquer ações que o governo Trump tome entre agora e o dia da posse.

Alex Marquardt, Jim Sciutto, Kylie Atwood e Jennifer Hansler, da CNN, contribuíram com a reportagem

(Texto traduzido, clique aqui para ler o original em inglês).

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