Interesses de Israel diferem dos americanos, diz professor
Petroquímica iraniana foi atingida por projétil israelense; especialista avalia impacto nas negociações com os EUA
Israel e Irã protagonizaram, na madrugada desta segunda-feira (8), uma troca de ataques na pior escalada desde o início do cessar-fogo em abril. Em entrevista ao CNN Novo Dia, o professor de Relações Internacionais do Ibmec Alexandre Pires avaliou que os interesses de Israel diferem dos americanos.
Uma usina petroquímica no sudoeste do Irã, na província de Khuzistão, foi atingida por um projétil israelense, tendo parte de suas instalações danificada.
O ataque foi confirmado tanto pelo vice-governador responsável pela segurança da província, segundo a agência de notícias iraniana, quanto pela Força Aérea Israelense, que publicou um comunicado na rede social X afirmando que "vários alvos no complexo petroquímico foram atingidos".
Em resposta, a Guarda Revolucionária do Irã afirmou ter lançado ataques contra bases aéreas israelenses, em retaliação a um ataque anterior a instalações de radar em território iraniano.
A nova rodada de ofensivas coloca em xeque o acordo que vinha sendo costurado entre os Estados Unidos e o Irã, dificultando ainda mais as negociações diplomáticas na região.
Fragilidade do cessar-fogo
O professor de Relações Internacionais do Ibmec Alexandre Pires avaliou que a retomada dos ataques, embora frustrante, já era esperada. "O cessar-fogo de fato era bastante frágil, mas é mais frustrante ainda ver que aquilo que estava desenhado está acontecendo", afirmou.
Segundo ele, os alvos de natureza econômica eram os próximos passos previsíveis do conflito.
"Todos nós sabíamos que os próximos alvos seriam justamente esses alvos de natureza econômica. É isso que Israel está tentando demonstrar para o Irã", disse. O professor destacou ainda que o Irã aproveitou a pausa no conflito para recompor seu estoque de armamentos, aumentando seu poder de barganha nas negociações.
Tensão entre EUA e Israel se aprofunda
Antes da retomada das ofensivas, Donald Trump havia declarado que o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, "não dá as cartas" e teria que aceitar um acordo com o Irã, pedindo que Israel não respondesse aos ataques iranianos.
Israel, no entanto, ignorou os apelos e prosseguiu com a ofensiva. Alexandre Pires ressaltou que, apesar de Israel afirmar agir de forma independente, os ataques foram coordenados com o comando central americano na região, o CENTCOM (Comando Central dos Estados Unidos).
"Israel está atacando, está avisando os Estados Unidos que vai atacar, e claro, por outro lado, não houve ali capacidade do governo americano de interromper essa escalada", analisou.
Para o especialista, isso confirma que os interesses israelenses diferem dos americanos: "Israel vai sempre priorizar a sua existência e seus interesses regionais, mesmo que isso coloque em xeque as boas relações que eles têm com o atual governo americano".
Interesses divergentes e impactos econômicos
Alexandre Pires explicou que, enquanto Israel opera sob o que chamou de "ameaça existencial" — respondendo a qualquer ataque ao seu território de forma desproporcional, se necessário —, o interesse americano é normalizar a região economicamente, especialmente em relação às rotas de petróleo pelo Golfo Pérsico.
Os mercados já sentem os efeitos da escalada: a moeda israelense recuou, as bolsas registraram quedas e o preço do barril de petróleo voltou a oscilar em patamares elevados. "O mercado parece que precifica que Israel vai manter uma escalada", avaliou o especialista.
Líbano e grupos aliados do Irã ampliam o cenário
A situação se torna ainda mais complexa com a inclusão do Líbano na equação. Alexandre Pires lembrou que, ao fim deste ano, as forças de paz das Nações Unidas presentes no país deixarão de exercer suas funções, criando um vácuo na região sul do Líbano que o Hezbollah já vem explorando.
"Há uma expectativa por parte do Irã e do mundo de que Israel vai sim, por motivos estratégicos, manter uma ocupação ali", disse. O especialista também destacou a resiliência do Hezbollah, que continua realizando ataques mesmo após Israel ter avançado militarmente para dentro do território libanês.
Quanto aos Houthis, no Iêmen, ele observou que o grupo permanece preservado e que há indícios de rotas de abastecimento ainda ativas, possivelmente com participação de milícias xiitas iraquianas.
"É um cenário novo, inteligência está sendo coletada para descobrir o que acontece", concluiu Alexandre Pires.


